A mídia está mais fraca

Venício Lima analisa repercussão partidarizada da cobertura da tragédia da TAM e aponta por que os grandes meios não têm mais tanta influência na formação das opiniões da população Por Renato Rovai  ...

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Venício Lima analisa repercussão partidarizada da cobertura da tragédia da TAM e aponta por que os grandes meios não têm mais tanta influência na formação das opiniões da população

Por Renato Rovai

 

Fórum – Como o senhor vê a politização da catástrofe da queda do vôo da TAM?
Venício Lima – O que acontece na cobertura do acidente dá continuidade a um comportamento que ocorre há um tempo, a partir da crise política de 2005. Há uma visível preocupação em associar o acidente e suas causas à ação ou ausência de ação do governo. Isso ocorre de maneira precipitada, porque não há indicação concreta, pelo que se sabe, sobre as causas. Há até divergências públicas.

Fórum – Qual a conseqüência dessa politização? Lima – Boa parte de minha produção relativa à mídia foi ligada à capacidade de construção da representação, de formar opinião e servir de referência para o que é realidade. Paralelamente a isso, hoje, ao observar o que ocorreu em 2005 e 2006, e se levar em conta alguns dados às vezes esquecidos, como as transformações pelas quais a sociedade brasileira tem passado, a gente relativiza o que está acontecendo em relação à repercussão do conjunto da sociedade.
Minha geração, formada ao longo da década de 60, vê a mídia de uma forma ligada à mídia impressa. Muitos chamam mídia de “imprensa”. Os principais jornais chamados de “referência” no Brasil, são quatro ou cinco grupos. A tiragem e a circulação deles, se compararmos à importância que a minha geração aprendeu a dar a isso, têm uma desproporção imensa. Os dois paulistas, a Folha e o Estado de S.Paulo, têm tiragens em dias de semana inferiores a 300 mil exemplares. O reparte para fora do estado é insignificante e a circulação é fundamentalmente na Grande São Paulo. Em uma viagem recente pelo Sul de Minas e outra pelo interior do Rio Grande do Sul, fiz o teste de ir a bancas, de perguntar no hotel. Apesar de referência, continuam a ser locais. Todavia é verdade que alguns dos principais colunistas são reproduzidos. Mas me arrisco a dizer que a repercussão efetiva da cobertura da mídia impressa no conjunto da população brasileira é muitas vezes menor do que a minha geração acostumou a lhe dar. A gente supervaloriza a importância da mídia impressa. Em Brasília, onde moro há alguns anos, há uma verdadeira obsessão pela mídia impressa por sermos parte dos leitores. Bernardo Kucinski [jornalista e professor da USP] fala que a elite dominante é, ao mesmo tempo, a fonte, a protagonista e a leitora das notícias, e os dados indicam que isso é verdade.
Por mais que a mídia impressa de referência nacional ainda paute a televisão, o noticiário de rádio etc., há uma realidade nacional diferente da que essa mídia produz, o cotidiano das pessoas é diferente. Por isso, nas eleições de 2006 verificou-se – há vários indicadores – a distância entre a opinião da grande mídia e a da maioria das pessoas. Há um terceiro ponto, ao qual demorei a dar a importância que tem, que é o papel das mídias alternativas, sobretudo da internet. Sempre resisti a isso por uma razão óbvia: a se considerar o número de pessoas que têm acesso, se constata que a exclusão digital no Brasil é considerável.

Fórum – Mas menor do que a exclusão da mídia impressa, já que as tiragens são baixas…
Lima – Mesmo assim, é um contingente da população superior a 70%. Fui convencido por um argumento do Sérgio Amadeu. Nessa perspectiva de que a grande mídia, isto é, os formadores de opinião tradicionais, se descolaram da maioria da população, considerando as transformações no conjunto da sociedade, as lideranças que têm contato com os movimentos sociais, com a nova organização da sociedade civil etc. – ignoradas pela grande mídia – são pessoas com acesso à internet. Estão substituindo, do ponto de vista da formação de opinião, os líderes tradicionais. E são bem informadas não só pela mídia tradicional, como por terem acesso à pluralidade e à diversidade que a internet oferece. Esses três fatores me levam a uma avaliação mais cautelosa do poder da mídia. Não quero subestimá-lo, porque ainda produz efeitos de uma visão que lhe atribui um poder que já teve e não tem mais.

Fórum – Em alguns momentos, se beira o terrorismo midiático?
Lima – Com certeza. A primeira coisa afetada é a credibilidade. Tenho trabalhado essa questão. Não quero cometer o erro de generalizar a partir de minha experiência pessoal, mas no que tenho visto, há episódios, como por exemplo o da manifestação do Marco Aurélio Garcia em relação ao Jornal Nacional. Surpreendi-me com a reação de algumas pessoas com quem tenho relações pessoais, mas de um campo político diferente, indignadas pela invasão de privacidade. Dentro de casa, qualquer pessoa pode reagir assim. Ao contrário do que, quem decidiu pela maciça divulgação e exploração daquele fato, uma das conseqüências foi a de questionar uma lente observando o que o cara vai fazer. Há um aspecto que ofende a classe média e alta que vai além da conotação política possível. A grande mídia brasileira, nesse frenesi, que em alguns momentos se transforma em verdadeiro terrorismo, perdeu os limites. Claro que ela consegue alguns depoimentos de um ou outro oportunista, e há vários políticos assim, atinge negativamente a familiares de vítimas do acidente. Mas há uma percepção de não ver com tanta simplicidade. Isso acaba prejudicando a credibilidade, de usar qualquer meio para atingir um fim – a mídia faz qualquer coisa para poder atribuir a culpa ao governo.

Fórum – Em casos como o das vítimas de ação policial no período de ataques do PCC, em maio de 2006, a mídia pouco ligou, e não houve dramatizações, porque a classe média e alta não estava envolvida…
Lima – No caso brasileiro, acho que a mídia brasileira sempre foi elitista, oligárquica. O acidente da TAM existiu, morreram 200 pessoas é preciso que se explique o que aconteceu. O que incomoda são os dois pesos e duas medidas. Desde o começo da crise aérea, sempre me pergunto na minha casa, por que a mídia não cobre o que acontece nas estações rodoviárias, onde a imensa maioria da população que precisa de transporte. Ou no transporte urbano mesmo. A mídia impressa e a eletrônica têm um viés elitista, por mais que não gostem que se diga. O aéreo é priorizado em relação a outros tipos de transporte utilizados pela imensa maioria da população. Um assassinato em um condomínio nos Jardins [bairro nobre de São Paulo] tem muito mais cobertura do que uma chacina na periferia. Em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife… O que acho que pode estar mudando é a percepção do conjunto da população em relação a essas diferenças. É isso que me dá uma certa esperança. A cobertura desse acidente é massacrante e de uma irresponsabilidade incrível. Há má-fé, muitas vezes. Na época da crise, tive oportunidade de fazer registros nesse sentido. Não estamos vivendo o que aconteceu na Venezuela, mas que há um comportamento de oposição clara da grande mídia e isso se reflete em alguns observadores da mídia. Vivemos uma situação muito particular e assustadora do meu ponto de vista.

Fórum – Quais seriam os desafios para se construir um padrão jornalístico mais razoável?
Lima – Sou pessimista e concordo com uma afirmação do Bernard Cassen [diretor do Le Monde Diplomatique], que considera uma das grandes ilusões daqueles que acham que outro mundo é possível acreditar que é possível mudar a grande mídia. No máximo, o que se pode fazer com a grande mídia é a análise a partir de seus próprios critérios, como propõe o Media Watch Global. Pegar um manual de redação, ver o que ele diz ser bom jornalismo e ler jornais, ouvir rádio e assistir à TV aplicando aqueles critérios. Pode-se fazer isso para obrigar a mídia a se ver a partir de critérios que ela própria diz que são seus. Mas o primeiro passo para avançar nesse sentido é a construção de uma mídia alternativa. Essa mídia alternativa já existe em um certo sentido, não tem a expressão que deveria ter, mas espero muito de um sistema público que possa oferecer uma alternativa de qualidade, produzir outro jornalismo. Um que seja público mesmo, que atenda o interesse público e que tenha o equilíbrio que a grande mídia não tem. Só a partir de uma alternativa oferecida ao conjunto da população, no limite, levaria a uma alteração por razões de mercado. Com isso, se mexe no que é o primeiro princípio da TAM, o lucro, como a Mônica Bergamo apontou, enquanto a segurança é o terceiro… E há uma subcultura do jornalismo muito poderosa. O jovem repórter submerge nessa estrutura e é muito difícil para ele se ver em relação a seus pares.

A mídia nas eleições de 2006
Venício Lima (org.)
Fundação Perseu Abramo
288 págs.
R$ 33

A mídia foi anti-Lula em 2006. Se fosse para provar isso, nem precisaria de um livro. Mas O papel da mídia nas eleições de 2006, organizado por Venício Lima e editado pela Fundação Perseu Abramo, com contribuições de 16 autores, faz mais.
Além de apresentar balanços quantitativos e qualitativos da cobertura, a obra busca desvendar por que o jogo duro de alguns setores dos grandes meios de comunicação, que apostaram pesado na queda e na derrota do governo Lula entre 2005 e 2006, não encontraram ressonância na população.
De profissionais que já tiveram destaque na grande mídia, como Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif, da mídia alternativa, como Bernardo Kucinski, da Agência Carta Maior, e Renato Rovai, editor da Fórum, além de outros autores, como Sérgio Amadeu, sociólogo estudioso de softwares livres e de novas tecnologias, e Kjeld Jacobson, do Observatório Social.
Leitura para reflexão sobre o futuro das mídias, o papel da internet e a construção de outros jornalismos.



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