A precisão do geógrafo

Editorial de julho Por   No dicionário, uma das definições para a palavra “intelectual” é “aquele que domina um campo do conhecimento”. O entrevistado da Fórum deste...

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Editorial de julho

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No dicionário, uma das definições para a palavra “intelectual” é “aquele que domina um campo do conhecimento”. O entrevistado da Fórum deste mês, Aziz Ab’Saber, sem dúvida honra o qualificativo. Mas não só nesse sentido. Além de dominar como poucos a área à qual dedicou grande parte de seus 83 anos, a Geografia, o professor da Universidade de São Paulo ultrapassa de longe os limites do conhecimento específico, e consegue mostrar o quanto este interfere (ou deveria interferir) na condução dos assuntos públicos, para além dos jogos de interesse que configuram a dinâmica política e suas graves conseqüências para a sociedade planetária.
Como poucos intelectuais, é capaz de análises precisas e está sempre disposto a dar sua contribuição a debates que considera importantes. Foi assim no caso do relatório sobre o aquecimento global divulgado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Não hesitou em contestar o documento, enfrentando o lugar comum com uma sólida argumentação, fundada em dados que, no mínimo, precisam ser considerados.
Alguns dos aspectos apontados por Ab’Saber confrontam entrevistas e depoimentos reunidos na última edição da Fórum, que teve o aquecimento global como tema de capa. Vale ressaltar que ele não discorda de que o fenômeno de fato ocorra e que tenha relação com a emissão de gases por automóveis, indústrias e queimadas. Mas denuncia o alarmismo simplista, que pode só piorar a compreensão e o rumo das coisas.
Na entrevista concedida à Fórum, o geógrafo tocou em outro assunto importante, já comentado nesta publicação: o afastamento do governo Lula da classe intelectual. Isso não somente deixa empobrecida a discussão sobre políticas públicas, como entrega sua condução quase que exclusivamente a técnicos que nem sempre conseguem pensar e arquitetar além de seus próprios ofícios.
Entre as controvérsias e discussões mal conduzidas e igualmente mal resolvidas estão a construção da usina hidrelétrica do rio Madeira e a transposição do rio São Francisco, projetos em que a sociedade e boa parte dos intelectuais, mesmo aqueles que ajudaram a fundar o partido do presidente, foram pouco ouvidas. E cada vez fica mais evidente a urgência de ouvi-las.



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