A sombra do gigante

A China amplia seu domínio econômico sobre o continente africano e já ameaça a supremacia de Estados Unidos e União Européia na região. Por Camila Campanerut  ...

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A China amplia seu domínio econômico sobre o continente africano e já ameaça a supremacia de Estados Unidos e União Européia na região.

Por Camila Campanerut

 

Habituada com a presença estrangeira, principalmente européia, desde a época da colonização, a África vive hoje um outro tipo de “invasão”. A presença econômica da China se torna cada vez mais forte no continente, evidente, não só pela instalação de empresas e obras de infra-estrutura, mas também por meio de empréstimos e financiamentos para empreendimentos locais. Para a China, uma certeza de novos mercados para suas exportações e também a garantia de ampliação do rol de fornecedores de matérias-primas. Já os africanos conseguem uma nova injeção de investimentos em sua economia.
Desde meados dos anos 1990, o estreitamento das relações de boa parte dos países africanos com o Estado chinês vem causando certo desconforto nos tradicionais parceiros comerciais deles, como os Estados Unidos, França e Alemanha. O coordenador do Grupo de Estudos da Ásia-Pacífico (Geap) da PUC-SP, Henrique Altemani de Oliveira, explica que o continente africano era visto como área de supremacia européia capitalista durante a Guerra Fria, na segunda metade do século XX. “Com o fim [desta era], a China aproveitou para ocupar este espaço ‘meio jogado’ no cenário mundial, com três interesses principais: minérios em geral; o apoio político (de um maior número de países) na Assembléia Geral das Nações Unidas, onde cada governo tem um voto; e na questão de Taiwan, de reconhecimento internacional como Estado”, esclarece.

O anúncio de que o governo do Partido Comunista Chinês irá investir US$ 2 bilhões na África neste ano, feito pelo presidente do Banco Africano para o Desenvolvimento (BAD), Donald Kaberuka, é um outro sinal desta movimentação. Entretanto, esse é um processo que vem sendo desenvolvido há tempos e se intensificou sete anos atrás, com a criação do Fórum China-África. De lá para cá, as importações e exportações de ambos os lados só cresceram. A China tornou-se o terceiro maior parceiro comercial do continente africano atrás dos Estados Unidos e da França, brigando por posições maiores em alguns países, segundo dados de uma pesquisa de 2006, da instituição financeira alemã Deutsche Bank.
O relatório aponta que há pelo menos 700 empresas chinesas instaladas na África e destaca os cinco principais destinos comerciais do país asiático: Angola, África do Sul, Sudão, Guiné-Bissau e a República Democrática do Congo (antigo Zaire).
Como resultado do intenso crescimento chinês – média de 10% ao ano desde 1995 –, há um progressivo aumento da demanda por matérias-primas de todo tipo: combustíveis fósseis, minérios, metais, carne, soja, algodão e madeira, entre outros. Hoje, o país se tornou o maior importador mundial destes três últimos produtos. Um exemplo da pujança econômica da China é o fato de ela ser a maior produtora mundial de algodão e ainda assim ter de recorrer à importação de países como Mali, Zâmbia, Burkina Faso e Bênin.
Somar todos estes elementos à hipótese de a China crescer mais do que o previsto e, como conseqüência, elevar o preço do petróleo, somado ao baixo valor da sua moeda, o yuan (que mesmo subindo aproximadamente 2% desde 2005, ainda permite que os preços de seus produtos sejam quase imbatíveis) torna um pouco mais compreensível a preocupação estadunidense com a diversificação comercial chinesa.
Uma amostra dessa “birra” com a relação África-China é a divulgação de uma série de artigos em grandes veículos de comunicação que, em tom de denúncia, proclamam que está sendo montado um neocolonialismo chinês em território africano.
O editorial do jornal estadunidense Financial Times, “No Panacea for Africa: China’s Influence Is Not an Alternative to Neo-Liberalism” (em tradução livre: “Não há panacéia para a África: influência chinesa não é uma alternativa ao neoliberalismo”) é um exemplo, entre inúmeros publicados recentemente. Outro é uma matéria do portal CNN Money, intitulada: “China’s African Safári” (algo como: Safári africano da China). Em ambos, a nação oriental é criticada por se recusar a repreender os casos de corrupção em governos africanos e a violação dos Direitos Humanos, além de não usar o seu voto no Conselho de Segurança da ONU, que iria impor sanções ao Sudão (responsável por 7% do fornecimento de combustível à China) pelos massacres em Darfur. O texto ainda retoma o episódio da venda de armas e aviões para a Nigéria, no valor US$ 251 milhões, financiados pelo banco chinês, Exim Bank.
Os textos repudiam a postura chinesa de priorizar o lucro em detrimento das questões sociais, mas não comparam com a postura que os Estados Unidos também tiveram, por exemplo, na II Guerra Mundial, ao fornecer armas e insumos para os dois lados do combate. Há ainda a intenção da imprensa estadunidense de alertar os países africanos de que o dinheiro chinês só entrará nos locais em busca do lucro, independentemente da confiabilidade de quem vai administrá-los. Postura semelhante à adotada pelos próprios EUA e também por países europeus. Quando lhes convém.
Para o presidente do Fórum África (do Brasil), o malinês Saddo Ag Almouloud, esta parceria pode ser vantajosa. “São bem-vindos os investimentos chineses. Foram feitas estradas, pontes, casas, com padrão de qualidade similar ao europeu, sendo que cerca de 90% da mão-de-obra é local”, comenta. Na opinião de Almouloud, os ex-colonizadores (no caso de Mali era a França) “não estão vendo com bons olhos a entrada do capital chinês em um lugar antes reservado para eles fazerem o que queriam, onde aplicavam imposições. Com a China é diferente, eles não interferem na política local, oferecem tecnologia barata e se adequam”, garante.
A não-interferência na política interna dos países (fato ressaltado como “negativo” pelos EUA) também é citada como vantagem pelo presidente da Câmara de Comércio Brasil-China, Charles Tang, membro do conselho internacional do governo de Wuhan, conselheiro econômico do município de Jilin e integrante do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial. “São os Estados Unidos, a Inglaterra e a França que interferiram politicamente nos países africanos. Os Estados Unidos foram acusados de ‘neocolonizadores’ por muito tempo. A China está ajudando sem se meter na política. É aliado e benfeitor”, acredita Tang.
O fato é que a contrapartida chinesa aos países africanos vem em forma de grandes investimentos em algumas das áreas mais carentes de recursos destes parceiros, e envolve desde a ampliação na produção agrícola até melhorias na infra-estrutura de base.

Alguns parceiros africanos
Embora o peso maior destas inúmeras parcerias seja no campo econômico, o intercâmbio cultural também foi alavancado com a proximidade entre China e África. Segundo a emissora de rádio estatal chinesa CRI, nos últimos seis anos o país firmou, no mínimo, 22 acordos de programas na área cultural com 17 países africanos. Outros dez países africanos mandaram mais de 20 delegações governamentais do setor ao país asiático. Inclusive, em 2004, realizou-se, o Ano Cultural China-África, organizado pelo Fórum de Cooperação China-África.
No período de 2006-7, a interação político-econômica chinesa foi mais intensa, principalmente com 18 dos 54 países africanos, considerando a quantidade de visitas diplomáticas chinesas por estas regiões. Abaixo, algumas parcerias de destaque entre o país e o continente.
Congo
Assim como a África do Sul, é um grande exportador de cobalto. Os dois países representam 85% das importações chinesas.
Tanto a China quanto o Congo pretendem estreitar a parceira de cooperação bilateral nas áreas de agricultura, energia, telecomunicações, transporte e desenvolvimento de recursos humanos.

Angola
É o maior fornecedor mundial de petróleo da China, seguido por Arábia Saudita, Omã e Irã. Dos países “vizinhos”, estão Nigéria, Mauritânia, Guiné-Bissau, Camarões, Chade e Gabão, que também vendem o mesmo produto e derivados para o mercado chinês.
A previsão de analistas econômicos é de que Angola ultrapassará a Nigéria como principal exportador africano de petróleo para o mundo. O Sudão é outro importante fornecedor deste combustível ao dragão asiático, país que mais investe na economia sudanesa, colocando capital em obras de infra-estrutura e exploração de petróleo.

África do Sul É o maior produtor mundial de platina, exportada juntamente com ferro, ouro e manganês para a China, que ao lado da Alemanha e Estados Unidos disputa o posto de maior importador da África do Sul. Um terço da compra chinesa de manganês vem deste continente. A fatia sul-africana é de 13%, e só perde para o Gabão (15%) e para a Austrália (39%), segundo dados da ONU.
Em 2006, comemorou-se o 8º aniversário das relações entre a China e a África do Sul, quando se tornou pública uma ajuda chinesa ao local de US$ 2,5 milhões, durante a visita oficial do primeiro ministro chinês.
À época, 13 acordos bilaterais de cooperação nos setores de política, economia, agricultura, ciência, comércio, defesa nacional e tecnologia foram assinados. Pouco mais de seis meses depois, quando o próprio presidente chinês esteve por lá, conhecendo um sítio arqueológico e a Universidade de Pretória, divulgou a doação de mais US$ 1 milhão ao Fundo dos Patrimônios Mundiais Africanos, uma instituição ligada à Unesco. Na mesma ocasião, o presidente chinês Hu Jintao se comprometeu a fortalecer o intercâmbio cultural entre africanos e chineses, oferecendo 4 mil bolsas de estudo anuais a estudantes africanos pelos próximos três anos.

Tanzânia Lá, foi selada, além das parcerias em áreas como infra-estrutura, desenvolvimento de recursos, telecomunicações e agricultura, uma promessa de auxílio à luta contra a malária – doença que afeta por ano, de 16 a 18 milhões de habitantes, numa população de quase 40 milhões.
Mesmo com este grave problema sanitário, é um dos países que mais recebeu refugiados do continente, vindos de Burundi e do Congo.



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