A Vida, cheirosa como um fruto de verão

Dois países, Quênia e Moçambique, e quatro projetos sociais independentes, para que o leitor da Fórum possa conhecer a luta dos africanos militantes que atuam na área social. Por Juliana di Thomazo  ...

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Dois países, Quênia e Moçambique, e quatro projetos sociais independentes, para que o leitor da Fórum possa conhecer a luta dos africanos militantes que atuam na área social.

Por Juliana di Thomazo

 

“À primeira vista tudo definha. No entanto, mais além, à mão de um olhar, a vida reverbera, cheirosa como um fruto em verão: enxames de crianças atravessam os caminhos, mulheres dançam e cantam, homens falam alto, donos do tempo.”
Mia Couto, um dos mais importantes escritores africanos, embora se referindo à imaginária ilha moçambicana “Luar do Chão” no seu romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, que dá o título à matéria principal sobre este FSM na África, traduz muito do que se pôde ver. Não só em Moçambique, um dos países que integrou esse giro da revista Fórum pela África, mas também aqui no Quênia. Traduz ainda muito do que se pôde sentir em cada conversa e cada troca de olhares ou tentativa de comunicação com os muitos militantes de todas as partes deste continente que participaram do evento.
Até por conta deste “à primeira vista tudo definha”, a África Subsaariana é um terreno fértil para milhares de organizações não-governamentais vindas principalmente da Europa e dos Estados Unidos. Há muita cooperação internacional. E, ao que se pôde sentir neste FSM, isso parece ter criado um tipo de militante de elite, que ganha em euros e dólares e vive numa condição muito acima da média do cidadão do seu país. O que acaba provocando um afastamento da militância, já que “se ele ganha muito para fazer o que faz, eu é que não vou fazer nada de graça para ele”. Esse foi um dos problemas do FSM no Quênia, que teve todos os “voluntários” locais profissionalizados. Algo que nunca tinha ocorrido em outras edições.
No entanto, “os donos do tempo” da imagem de Mia Couto não estão parados. Há muita coisa independente sendo plantada pelos próprios africanos, que têm driblado todas as condições adversas para o desenvolvimento de seus projetos. E começam a criar um novo tipo de movimento que, por sua vez, pode gerar novos atores sociais capazes de mudar a realidade local.
O leitor que acompanhou nossa cobertura pelo site da Fórum já tem conhecimento da história de duas das quatro experiências que aqui serão abordadas. Republicamos, de qualquer forma, porque experiências como essas são o que fazem a “vida que reverbera” neste pedaço do planeta.

O Arco-Íris de 500 jovens
No quintal, enquanto um garoto de dez anos pula na cama elástica, parecendo exibir-se para os demais, seis crianças, em torno de uma mangueira do tipo de regar jardim e uma bacia, brincam tentando se refrescar do calor próximo a 35 graus, muito comum nessa época do ano em Maputo, capital de Moçambique.
Dentro de uma das mais de dez casas, num dos quartos, uma das 45 educadoras que fazem parte do corpo de funcionários se esforça para servir, às 16 crianças que dividem as oito camas, aquilo que deveria ser o lanche da manhã: uma fruta amassada.
Na instituição Arco-Íris, que abrigava aproximadamente 380 crianças, mas tem capacidade para até 500, a garotada com menos de seis anos divide suas camas. Em posições invertidas, a cabeça de um olhando para o pé do outro, formam uma imagem que fica evidente de que não se trata de uma situação adequada. Cada um com uma cama, deveria ser sempre assim. Mas ao mesmo tempo tem um certo tom de resistência e até de poesia a cena na foto, que não vai ser publicada em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil, que indica que as crianças em situação de abrigo não devem ter sua identidade exposta. Explicamos: sabe-se que ali se trabalha uma solução para a enorme dificuldade de abrigo em um país que está na ponta de baixo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU.
Segundo Filipe Baule, coordenador do projeto, o orçamento atual é suficiente para que, nas refeições, carne e fruta só componham o cardápio uma vez por semana. Nos outros dias, explica envergonhado, “só temos condição para três refeições, não vou mentir. Não servimos lanche da tarde. E as crianças comem pão sem manteiga no café da manhã. Muito raramente, quando temos uma festa, conseguimos manteiga…”.
O mesmo Filipe nos acompanha na visita e vai contando quais são os maiores motivos para as crianças irem para o abrigo: orfandade, maus tratos decorrentes de situação de pobreza e abandono por parte da mãe, quando esta não tem seu filho aceito pelo novo marido.
Segundo dados fornecidos pelo Unicef, em Moçambique, o número de crianças órfãs e vulneráveis é de aproximadamente 1,6 milhão. Moçambique tem apenas 20 milhões de habitantes. Desses 1,6 milhão, 380 mil crianças perderam seus pais em decorrência da Aids. Calcula-se que até 2010 esse número deve chegar a 600 mil.
Na África Subsaariana, são 11 milhões os órfãos em decorrência da Aids. O Quênia é um dos países recordistas neste quesito: 892 mil crianças órfãs com até 14 anos para uma população total de pouco mais de 30 milhões de habitantes.

O café organizando a luta
A fala de Daisac emociona pela intensidade, mesmo que a língua swahili, uma mistura de árabe e banto, não estivesse sendo compreendida nem pelos suecos que nos acompanhavam naquela visita nem por nós mesmos. Era até difícil acompanhar a tradução, porque ela saía tímida perto dos gestos, do discurso forte, das mãos que iam e vinham, apontando para lá e para cá.
Ele falava de sua história, da luta por um Quênia independente. Contava detalhes das dificuldades que enfrentaram para poder se livrar do jugo inglês e dizia, com a rebeldia de um jovem, apesar de aparentar 80 anos, que agora tinham de enfrentar a corrupção do governo e a exploração das companhias internacionais.
“Começamos a lutar porque perdemos nossas terras, mas continuamos até a independência, em 1963”, diz referindo-se à luta liderada pelos Mau-Mau, grupo formado por pertencentes à tribo dos kukuyus e responsável pela independência do país.
“Eles tinham armas, bombas, e nos chamavam de black monkeys…. Nós tínhamos um grande grupo e éramos homens honrados. Nossa arma era se esconder entre arbustos e atacar com o pouco que tínhamos.” Mas Daisac não termina sua história em uma batalha vencida. “Eles queriam nos oprimir, como querem até hoje, com os preços baixos que pagam pela nossa produção, criando impedimentos para que não consigamos vender o fruto do nosso trabalho pelo valor real que ele tem. Pagam pouco para a gente e vendem a altos preços no exterior”. E acrescenta: “no passado, nos organizamos lutando com armas para derrotá-los, hoje estamos nos unindo nessa cooperativa. Os ingleses ainda nos chamam de filhos dos Mau-Mau, com preconceito, mas nós temos orgulho e queremos até construir um centro de formação e informação Mau-Mau aqui na nossa comunidade.”
Olhos desconfiados, alguns dos suecos mais jovens pareciam não entender por que alguém de tão longe, na Inglaterra ou em outro país do Sul, seria responsável por aquilo que acontecia ali, em um pedaço de terra no interior do Quênia.
A principal cultura produzida na Katarga Farmers Cooperative Society (Sociedade Cooperativa de Agricultores do Katarga), cujos fundamentos são próximos aos das cooperativas brasileiras que efetivamente propõem uma lógica de economia solidária, é o café, mas também se produz feijão, abacate e batata. “Temos que vender para as empresas por preços muito baixos, pois é no processo de industrialização que acrescentam mais valor. O governo, que poderia comprar a produção direto da gente, nos diz não. Compra mais caro das empresas porque tem um esquema de corrupção com elas. Assim, elas podem impor o preço que vão nos pagar.”
Uma das histórias mais interessantes ocorridas nesta visita foi quando uma das suecas presentes perguntou se eles não tinham interesse em trabalhar com ONGs que desenvolvem comércio justo para o Mercado Comum europeu. “A gente é meio desconfiado, porque já apareceu ONG aqui para trabalhar com a gente e quase pôs a nossa cooperativa a perder. Nós trabalhamos com agricultura orgânica, nossos abacates são pequenos, mas são orgânicos. Eles vieram aqui e começaram a convencer os agricultores. Muitos têm pouco estudo, pouca educação. Ofereceram auxílio técnico e financeiro, mas o auxílio técnico e financeiro era fertilizante artificial e agrotóxico. Quando eles iam vender, pagavam um pouquinho mais, mas descontavam o ‘apoio’ e ainda botavam um selo como sendo produto do Quênia produzido por essa ONG”, disse um dos quenianos presentes. A sueca, bem intencionada, ouve a explicação estarrecida. Ela não diz nada, mas parece pensar algo como “será que existe gente que consegue vir para cá desenvolver um projeto social e faz algo assim”?
A comunidade, localizada a aproximadamente duas horas de Nairóbi, ainda é muito marcada pela tradição. Talvez porque a maior parte dos cooperados tenha entre 60 e 70 anos e quase ninguém fale inglês. A avaliação e separação do café, por exemplo, é trabalho das mulheres, que classificam, numerando, a partir da qualidade, 1, 2, 3 ou sobra.

O apadrinhamento que leva à escola
“Lavrar a terra”, essa é a tradução da palavra banto kulima que dá nome à organização que desde 1984 tem se dedicado ao que denominam “desenvolvimento econômico integrado”. Além de Maputo, o Kulima atua em mais seis províncias do país, incluindo a mais pobre, Zambézia.
Carolina, a garota que posa para foto ao lado de sua avó, dona Lucia, mora em Polana Caniço, comunidade onde se desenvolve um dos projetos dessa organização. Por um tempo, ela era uma das beneficiadas pelo projeto. Hoje, porém, com nove anos, perdeu o “padrinho afetivo”, que não pode mais colaborar com os 240 dólares anuais.
A idéia deste projeto, que se chama Ntwanano, nome escolhido pelos próprios jovens e que significa “compreensão”, é acompanhar o desenvolvimento de crianças e adolescentes, com foco na educação e saúde, gerenciando recursos conquistados pelo sistema de apadrinhamento, captados a partir de instituições européias com pessoas físicas de países como França e Itália.
Nem todas as crianças de Moçambique podem estudar, pelo simples motivo de que não há vagas suficientes nas escolas. Aquelas que conseguem entrar na escola pública, porém, muitas vezes deixam o estudo por não terem condição de efetivar a matrícula (que é paga), comprar material, sapato e roupa. A África Subsaariana apresenta o maior número de crianças em idade escolar que não freqüenta o ensino básico. Dados de 2002 do Unicef apontam para 45 milhões.
Segundo o Unicef, a África Subsaariana precisa de aproximadamente 3 milhões de professores para conseguir um dos objetivos do milênio em educação primária universal. Tanto que, durante o FSM, o debate fundamental na área proposto pela delegação africana era de como resolver o problema do financiamento para o setor.
É por isso que passa a ser tão importante o trabalho da equipe do projeto, formada por assistentes sociais e enfermeiros, de matricular a criança, comprar roupas, visitar a escola e, ao menos duas vezes por mês, visitar a família do beneficiado, procurando envolvê-la em todas as atividades.
Na relação com o padrinho afetivo, a equipe tem pouca interferência, garantindo apenas que ele receba relatórios de acompanhamento da criança, cartas e desenhos e duas fotos por ano. Muitas vezes a relação é bastante intensa. Houve situações em que o padrinho ficou sensibilizado com as condições de moradia de seu afilhado e foi até Maputo para lhe comprar outra casa. Em Polana Caniço, a maior parte das casas é de pau-a-pique e poucas delas têm banheiro.
E a Carolina, agora sem padrinho? Além de continuar na escola, participa de atividades extracurriculares. A prima, que também participa do projeto, garante a atenção à família, que se resume à avó e duas tias, já que o pai de Carolina a abandonou e a mãe morreu recentemente, vítima da Aids. Mesmo com tudo isso, os profissionais do projeto garantem que ela é uma excelente aluna. “Não tem jeito, uma vez no projeto…”, completa Gorette, a enfermeira que faz os primeiros atendimentos na área de saúde de todos os atendidos. Com nove anos, Carolina está na terceira série.

Essas mulheres do Quênia Quênia, 1993. A Aids chega de maneira avassaladora. Cinco mulheres portadoras do HIV são discriminadas, como todas as outras também portadoras do vírus. Elas decidem reagir e fundam uma organização para trabalhar com mulheres que, como elas, foram ou são rejeitadas por suas famílias por conta da Aids.
Até 1998, o projeto seguiu sem ter sequer se tornado uma ONG, o que só ocorreu naquele ano. Hoje, em 2007, a Kenya Network of Women with Aids (Kenwa) atende 4 mil mulheres e 1.028 crianças órfãs portadoras do HIV.
Impressiona a simplicidade do local, a rusticidade do espaço onde uma ação solidária de tamanha proporção se realiza. A sede central fica em um prédio velho, bastante precário, cujas instalações comerciais da parte de baixo são destinadas a uma oficina mecânica e uma borracharia. Os pneus ali jogados na suposta calçada de terra moldam um cenário do qual também fazem parte dois carros, que funcionam como ambulâncias do Kenwa.
Rosemary Tollo, uma das responsáveis pelo escritório central, explica como funciona a entidade. A Kenwa tem oito casas espalhadas principalmente por Nairóbi. As mulheres atendidas recebem cuidados médicos básicos, ficando às vezes internadas nessas casas. Seus filhos e os órfãos de ex-atendidas também contam com acompanhamento clínico e psicológico, além de apoio alimentar. Mulheres e crianças têm direito a cesta básica e, quando necessário, café da manhã e almoço.
A Kenwa também se preocupa em atender pacientes que não contam com apoio familiar nas suas residências. Essa equipe, formada por voluntários, realiza atendimento domiciliar com visitas de até duas vezes ao dia. Nelas, além dos cuidados com a higiene, acompanha-se o paciente nas duas principais refeições.
Mas uma das originalidades do Kenwa é que, além de tudo isso, ele tem um projeto de microcrédito para que as mulheres em melhores condições clínicas possam desenvolver alguma atividade econômica, já que não conseguem trabalho formal com estado de saúde debilitado. Os empréstimos vão de 500 a 3 mil shillings (sete a 40 dólares), segundo Rosemary.
Perguntamos se é possível desenvolver um negócio com tão pouco? “Sim, elas fazem alguma coisa para vender ou compram para revender. Para algumas, as coisas às vezes se desenvolvem muito bem, mas aí a doença as toca mais fortemente e o negócio às vezes acaba. Mas, para a gente, isso não é um problema, o que nos importa é a melhora da auto-estima e resgatar a luta pela vida.”
Entre os adultos infectados na África Subsaariana, 57% são mulheres. No Quênia, em 2002, de 2,5 milhões de infectados em uma população de 30 milhões, 1,4 milhão eram mulheres. As organizadas em torno da Kenwa têm uma campanha cujo lema é “Me dê uma chance”. Elas estão construindo essa chance.



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