A arquitetura da destruição

“Homens de uma República livre, acabamos de romper a última corrente que, em pleno século XX, amarrava-nos à antiga dominação monárquica e monástica. Resolvemos chamar a todas as coisas pelo nome que têm. Córdoba...

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“Homens de uma República livre, acabamos de romper a última corrente que, em pleno século XX, amarrava-nos à antiga dominação monárquica e monástica. Resolvemos chamar a todas as coisas pelo nome que têm. Córdoba redime-se. Desde hoje, damos para o país uma vergonha a menos e uma liberdade a mais. As dores que ficam são as liberdades que faltam”
Desta maneira, os estudantes argentinos identificavam a vitória na luta por uma universidade mais aberta, mais democrática e igualitária. A reforma universitária iniciada na clerical Córdoba de 1918 rapidamente seria espalhada pelo país e pelo continente. Depois de seguir para Buenos Aires e La Plata, o ímpeto reformista chegou rapidamente a Peru, Chile, Cuba, Colômbia, Guatemala e Uruguai, selando nesses países o futuro de alguns dos mais importantes líderes partidários das décadas seguintes.
Um movimento motivado pelas mudanças geradas pelo fim da Primeira Guerra Mundial, pelo sucesso da Revolução Russa de 1917 e pela chegada ao poder de um presidente mais liberal, Hipólito Yrigoyen. Para o presidente da Federação Universitária Argentina (FUA), Pablo Domenechini, os “reformistas puderam dar conta de que era uma hora histórica não só para a universidade, mas para a América Latina e para o mundo”.
Insatisfeitos com o quadro de professores e motivados pelas mudanças no mundo, os estudantes de Córdoba decidem iniciar uma greve logo no primeiro dia de aulas de 1918. Como reação, a reitoria determinou o fechamento da universidade, o que dias depois resultaria na intervenção do governo nacional.
O interventor federal tentou desmobilizar os estudantes com a declaração de vacância de todos os cargos de reitor, decanos e acadêmicos. Apesar de conseguir eleger uma cátedra favorável, os alunos são surpreendidos pela escolha de um reitor da velha ordem e, então, começa uma confusão generalizada, que termina com a decisão de greve dos estudantes em todo o país, contando com o apoio de vários sindicatos de trabalhadores.
Naquele momento, estava sendo escrita uma das mais importantes páginas da história educacional da América Latina, com a renúncia de mais um reitor e a nomeação do ministro da Educação, José Salinas, como interventor. Ele aceita todos os princípios da reforma. A autonomia universitária é possivelmente o grande ganho do movimento, ou aquele que se tornou mais durável em todo o ensino superior latino-americano. O contexto de autonomia era o de que a universidade deveria ser gerida por alunos e professores sem qualquer intromissão do Estado. Além disso, daí por diante a seleção do corpo docente deveria ser feita por concurso com a participação dos estudantes, que tinham o direito também de participar da administração da instituição. A extensão universitária passou a ser vista como uma obrigação do aluno, que deve devolver ao povo o conhecimento que adquiriu. Outro ponto importante foi a “docência livre”, ou seja, qualquer um que tivesse os conhecimentos necessários de determinado assunto poderia lecionar sem fazer parte do corpo docente oficial.
ciedade Argentina de História da Educação, o movimento de 1918 é um divisor de águas na universidade latino-americana. “Passa-se de um corte elitista, das oligarquias, para a idéia de modernização. No manifesto, os reformistas dizem que estão vendo um movimento americano como um todo, e é verdade”, argumenta. Inspirados na reforma universitária argentina, nos anos seguintes despontam líderes como Haya de La Torre, fundador do partido Apra peruano, que por sua vez motiva a formação de outras siglas na Bolívia e em Cuba.
Na década seguinte, no entanto, a eleição de políticos conservadores dá início a contra-reformas que fazem desaparecer algumas das conquistas estudantis. Mas, para Nora Rut Krawczyk, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, a importância do movimento é inegável. “A reforma deixa um legado quando falamos de autonomia universitária, que não está vinculada somente à gestão, mas à possibilidade de construir um currículo independente. Deixa também uma marca em termos de extensão, de que a universidade não é uma ilha fechada por dentro”, sustenta.

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