A arte contra o espremedor

Há três décadas, em 1979, o cineasta mineiro João Batista de Andrade iniciava as filmagens daquele que se tornaria um dos maiores clássicos do cinema brasileiro. O...

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Há três décadas, em 1979, o cineasta mineiro João Batista de Andrade iniciava as filmagens daquele que se tornaria um dos maiores clássicos do cinema brasileiro. O homem que virou suco, em resumo, trata das desventuras de dois nordestinos na cidade de São Paulo, ambos interpretados magistralmente pelo ator paraibano José Dumont. Um dos personagens é o cearense Severino, que mata seu patrão na solenidade em que receberia o título de “operário padrão”. O problema é que ele tem um sósia, o paraibano e autor de cordéis Deraldo, que passa a ser perseguido equivocadamente pela polícia. Como pano de fundo, o preconceito agressivo, a segregação social e o “esmagamento” da identidade cultural dos nordestinos na capital paulista.
Nesse contexto, Severino representa o migrante que capitula diante do capitalismo selvagem, tornando-se um robô, um delator, um assassino e, por fim, um demente. Na contramão, Deraldo enfrenta as provações dos subempregos, das humilhações, lutando para provar que pode sobreviver de sua poesia – e, num sentido mais amplo, que é preciso denunciar e combater a forma como, muitas vezes, os nordestinos são tratados em São Paulo. “O tema igualmente clássico do migrante é tratado desde o título e em toda sua extensão como material de literatura de cordel”, explica o crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos.
“Batista de Andrade faz uma ponte entre o operário e o artista, o intelectual; busca uma difícil identidade entre ambos”, emenda outro crítico, Eron Fagundes. O curioso é que essa luta da cultura contra a opressão foi travada pelo próprio José Dumont, que conseguiu ser bem-sucedido no cinema e na televisão. E também por Manuel Moreira Júnior, o Moreira de Acopiara, um cearense que, como o personagem Deraldo, ganha a vida como cordelista. No filme, Deraldo é obrigado a suportar maus tratos em subempregos como operador de elevador em uma obra e criado em casa de madame.

‘Poesia não é dinheiro’
Na vida real, quando aportou em terras paulistanas, em 1972, José Dumont trabalhou numa fábrica de moinhos e depois como carteiro. “O dinheiro só dava para pagar a pensão, dormir e comer. É o que fazem com as pessoas, que são cúmplices desse sistema capitalista”, desabafa. Quase uma década depois, Moreira desembarcaria em Diadema, cidade da Região Metropolitana de São Paulo. Teve que se virar como auxiliar de escritório, garçom e vendedor. “Eu não aguentava mais trabalhar muitas horas todos os dias, tendo que tolerar os abusos de chefes despreparados”, confessa o hoje cordelista.
A decisão de enfrentar o sistema e viver de arte não é fácil. Em O homem que virou suco, Deraldo tenta comprar fiado em uma bodega e é expulso pelo dono, que grita que poesia não é dinheiro, não é profissão. Moreira de Acopiara passou pela mesma situação: “Várias pessoas me disseram isso. Fiquei triste muitas vezes”. Nos primeiros tempos como ator, José Dumont também passou dificuldades, chegando a dormir na rua, no Rio de Janeiro. Mas não desistiu: “O Deraldo é um símbolo de resistência. Sempre fomos dominados pela cultura de fora do país. O objetivo da ditadura militar era criar identificação com a cultura dos Estados Unidos, para sermos apenas consumidores. Mas, no filme, o Deraldo resiste”.

Fio condutor Interessante é que o cordel funciona como um fio condutor nessa resistência. No caso de Moreira, é o talento natural, a profissão e a notoriedade. Dumont, por sua vez, se alfabetizou sozinho com os cordéis e violeiros das feiras paraibanas de Belém do Caiçara, sua cidade natal. E João Batista de Andrade concebeu O homem que virou suco primeiro como um cordel, por volta de 1974. “Contava a história de um nordestino que era perseguido por três demônios na metrópole paulistana”, revela o cineasta.
Para José Dumont, o cordel tem papel fundamental no resgate da cultura brasileira contra a aculturação “subamericana”, como ele denomina o jugo dos Estados Unidos. “Somos produtos de três raças, essa é a nossa maior vantagem. O cordel é parte de nossa espontaneidade, da criatividade brasileira. A arte do improviso tem um poder muito forte de comunicação. Mas isso o sistema não quer”, denuncia o ator. “O que vou vender para você se sou apenas consumidor? Temos que resistir, o contato com a cultura popular é necessário. Sem xenofobia, mas consumindo e valorizando mais a nossa própria arte”, defende Dumont.
Moreira de Acopiara confirma: “Falamos a linguagem do homem do interior. E eles se envolvem, se emocionam com os poemas que declamo, com as histórias que conto. O cordel foi muito importante na formação da cultura brasileira”. Tão importante que, sem ele, não teríamos nenhum dos exemplos acima. Hoje, Moreira de Acopiara dá palestras e oficinas sobre cordel. Tem seis livros e quase 100 cordéis publicados, além de dois CDs com poemas de sua autoria. Além disso, é membro da Academia Brasileira de Cordel.
Dumont, por sua vez, trabalhou em quase 40 filmes, seis minisséries e especiais, três peças de teatro e 12 novelas. Recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais – entre eles o de melhor ator em Huelva, Espanha, pelo trabalho em O homem que virou suco – e foi o grande homenageado da edição de 2008 do Cine Ceará. Foi assim que a arte livrou dois nordestinos do espremedor. O cearense Manuel e o paraibano José enfrentaram o sistema. E não viraram suco. F

O engenheiro que virou suco
Engana-se quem pensa que São Paulo é uma máquina que espreme somente nordestinos. Em 1982, quando O homem que virou suco arrebatava plateias nos cinemas pelo mundo, o engenheiro paulista Odil Garcez Filho ficou desempregado. Com o dinheiro que tinha, decidiu montar uma lanchonete. Sua mulher, Neide, também engenheira, percebeu que o marido estava desiludido com a profissão. Por isso, pediu para que ele batizasse o estabelecimento como “O engenheiro que virou suco”.
Para completar o sarcasmo, Garcez pendurou o diploma e a caderneta do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea) no caixa da lanchonete, que funcionou por cinco anos na Avenida Paulista. E, apesar do sucesso de público, o negócio foi mais uma decepção: percebendo o movimento, o dono do imóvel decidiu aumentar absurdamente o aluguel. Garcez fechou a lanchonete.
Em seguida, montou uma loja de roupas, que foi obrigado a fechar após um assalto. Tentou voltar ao mercado de engenharia, mas foi demitido. Para piorar, soube que tinha leucemia. Morreu em 2001, aos 51 anos. Virou suco.

Migração nordestina e preconceito
O engodo batizado de “milagre econômico”, no início da década de 1970, provocou um deslocamento humano impressionante no Brasil. Em seu trabalho acadêmico “Nas terras do Deus-dará – Nordestinos e suas redes sociais em São Paulo”, de 1998, Dulce Tourinho Baptista informa que os nordestinos representavam 27,8% do total de migrantes recebidos pelas terras paulistas em 1950. O índice saltou para impressionantes 49% em 1974.
Essa gigantesca mão-de-obra migrante incomodou os habitantes de São Paulo. “Os preconceitos habitualmente ficam exacerbados em situações de crises econômicas e sociais, quando a luta pela sobrevivência no mercado de trabalho se agudiza e se procura eliminar rivais e concorrentes”, comenta o psicanalista e escritor Sérgio Telles.
Porém, nos últimos anos, o movimento tradicional de emigração tem diminuído no Nordeste. Segundo o estudo “Nova geoeconomia do emprego no Brasil”, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os estados do Ceará, Paraíba, Sergipe e Rio Grande do Norte receberam mais migrantes entre 1999 e 2004 do que enviaram para outras regiões.



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