A arte de pifar

Parece improvável, mas a mais nova revelação da música popular brasileira gravou seu primeiro CD aos 79 anos. É assentada, passou 25 anos de sua vida morando em uma loca (gruta de pedra), nunca...

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Parece improvável, mas a mais nova revelação da música popular brasileira gravou seu primeiro CD aos 79 anos. É assentada, passou 25 anos de sua vida morando em uma loca (gruta de pedra), nunca estudou música e tem uma banda de pífanos. Esta é Zabé da Loca ou Isabel Marques da Silva, a vencedora na categoria “Revelação” do Prêmio da Música Brasileira deste ano.

O prêmio, que está na vigésima edição, homenageou a cantora e compositora Clara Nunes, e foi entregue no dia 1º de julho na casa de shows Canecão, no Rio de Janeiro. A plateia, repleta de grandes nomes da música brasileira como Lenine, Milton Nascimento e Leci Brandão, aplaudiu entusiasmada a premiada. “O Prêmio da Música Brasileira costuma premiar sempre as mesmas pessoas. E agora o prêmio foi para algo realmente de novo”, comemorou Carlos Malta, produtor do segundo CD de Zabé, o Bom Todo – Zabé da Caverna para o Mundo, gravado pela Crioula Records, em 2008.

A premiação de Zabé da Loca coroa a trajetória desta mulher de 85 anos que conheceu a musicalidade dos pífanos – uma espécie de flauta rudimentar de nove orifícios feita inicialmente de bambu ou metal – quando tinha sete anos, em Buíque (PE), onde nasceu. Sua trajetória profissional começou em 2003, durante uma atividade do Programa Arca das Letras, que leva bibliotecas às comunidades rurais, realizada no Cariri paraibano.

Realizando uma das apresentações populares previstas no evento, Zabé surpreendeu e foi convidada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), em parceria com o projeto Dom Helder Câmara, a lançar seu primeiro álbum, em 2003, que se chama “Zabé da Loca” e que integra o programa Cantos do Semi-Árido, do MDA. A gravação aconteceu no próprio assentamento, com o acompanhamento dos amigos tocadores, Beiçola (pífano), Setenta (caixa), Mestre Levino (prato) e Pinto (zabumba).

Ela só voltaria aos estúdios em 2008, mas antes realizou quase que uma turnê, junto ao seu pífe em vários estados, como Pernambuco, Ceará e Minas Gerais. Assim, conseguiu destaque em muitos eventos culturais, como em sua participação memorável ao lado de Hermeto Paschoal, no Fórum Mundial de Cultura, em 2004; ou em 2008, quando apresentou-se em show no Planetário da Gávea (RJ), dentro da série "Música nas estrelas", tocando juntamente com seu produtor, Carlos Malta.

“Uma dosa”
Sempre ao lado do pífano, Zabé passou a infância e a juventude trabalhando no campo. Casada, mudou-se para o interior da Paraíba, onde teve três filhos e ficou viúva em 1966. Logo em seguida perdeu a casa e optou por mudar-se com a família para uma gruta, a loca, em Serra Tungão (PB), onde passou 25 anos de sua vida. Surgiram ali o apelido que carrega até hoje e também a inspiração para sua música. A artista, também conhecida como “ Rainha do Pífe”, atualmente mora no assentamento Santa Catarina, município de Monteiro, sertão da Paraíba, a 322 quilômetros da capital João Pessoa. Porém, sua casa fica cerca de 10 minutos da loca que ela ainda costuma frequentar.

Amante de uma boa “dosa”, a cachaça, não consegue fazer uma refeição se não tiver feijão na mistura e não fica sem o seu cigarrinho. Fala bem pouco, mas não perde a oportunidade de dar “umas cantadas” nos “moços” que dividem palco com ela. Que o diga o multi-instrumentista carioca Carlos Malta, produtor de seu último cd. Segundo a própria Zabé, “é bonito todo”. Além de produzir, Malta faz participações especiais no álbum, assim como Maciel Salú, filho de Mestre Salustiano, e Cacau Arcoverde, junto com os músicos do grupo River Douglas (zabumba), Pito (prato) e Júnior (caixa). Durante as gravações faleceu o pifeiro e compositor Beiçola, filho adotivo dela. É justamente com Beiçola, que também era conhecido como o “músico de mãos tortas”, que Zabé toca uma das melhores faixas do álbum, “Queima”.

E assim, pequena, frágil, carregando no rosto os longos anos de exposição ao sol forte e na mão uma enxada, Zabé da Loca é o retrato de nossa cultura popular e das tradições que parte do Brasil teima em querer esquecer. E hoje Zabé já anda pifando por outras bandas. A artista já é sucesso nas pistas de dança do Rio de Janeiro; através das produções do Dj Mam, tem uma página no Myspace e inúmeros vídeos no Youtube, comprovando que não existem barreiras de geração, de geografia e nem de tempo para a sua música.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de agosto. Nas bancas.



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