A caminho de mais um Fórum Pan-Amazônico

O cineasta carioca Luiz Arnaldo Campos, de 54 anos, há 14 mudou de mala e cuia para Belém, onde está até hoje, numa espécie de declaração de amor à Amazônia. “É um encantamento…”, diz....

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O cineasta carioca Luiz Arnaldo Campos, de 54 anos, há 14 mudou de mala e cuia para Belém, onde está até hoje, numa espécie de declaração de amor à Amazônia. “É um encantamento…”, diz. A trajetória do ex-militante de esquerda, preso político e anistiado em 1979, seguiu ao encontro das manifestações dos povos da floresta e da preservação do bioma amazônico a partir da participação no 2º Encontro Americano pela Humanidade e contra o Neoliberalismo, na capital paraense, em 1999, e depois no Fórum Social Mundial, em 2001, em Porto Alegre, fomentando a criação do Fórum Pan-Amazônico, em 2002.

Houve a articulação de diversos movimentos regionais que ajudaram a organizar quatro edições. Duas ocorreram em Belém, uma na Venezuela e outra em Manaus, para reunir os diversos povos da região. Mas há praticamente cinco anos o movimento estava desativado, até a realização do FSM em Belém, no ano passado. Dessa reestruturação, decidiu-se que a próxima edição ocorrerá em Santarém, no Pará, entre 25 e 29 de novembro. Campos contou sobre esse processo, em entrevista concedida à Fórum. Veja trechos abaixo.

A reativação do Fórum Pan-Amazônico
Sempre tivemos a ideia de que Belém não poderia ser apenas um cenário, mas que deveria ser contagiada pela Pan-Amazônia. Por isso, fizemos esforços para ter a presença maciça dos povos indígenas, dos quilombolas e das delegações pan-amazônicas. Ficamos realmente surpresos, na Assembleia das Assembleias, no último dia, contar com mais de 400 pessoas. Isso demonstrou que o Fórum Pan-Amazônico continuava a ser uma necessidade, apareceu gente do Peru, da Bolívia, que não havíamos contatado antes.

A escolha de Santarém
Após o FSM 2010, houve uma reunião em Santarém, onde foi rearticulado o conselho internacional do Fórum Pan-Amazônico. Participamos ativamente também da Conferência dos Povos Indígenas da América, no Peru. Com isso, aconteceu a possibilidade de encontros, o que gerou solidariedade e a proposta da rearticulação para que o evento seja também em Santarém.

Estrutura do Fórum Pan-Amazônico
Atualmente o Conselho Internacional é composto por entidades dos movimentos sociais dos nove países da região – Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Peru, República Cooperativa de Guiana, Suriname,Venezuela –, e decidiu pela retomada do encontro, dessa vez, em Santarém, entre os dias 25 e 29 de novembro. Não recorreremos a recursos privados e até quanto aos governamentais há uma questão complicada, queremos fazer todo o esforço para a realização deste fórum, com a solidariedade internacional, por meio das agências de fomento que são ligadas ao Fórum Social Mundial.

Até 10 mil participantes
A expectativa de público para o Fórum Pan-Amazônico, em novembro, é entre 8 mil e 10 mil pessoas. Santarém é linda, mas sua capacidade tem limitações e também é muito difícil, a logística. Grande parte das pessoas virá de outros países, de barco, travessias que levam dias. De Quito, por exemplo, se leva sete dias, só de ida. Vamos trazer delegações representativas, o que exigirá muito esforço. Os barcos geralmente partem dos encontros de fronteiras, entre os países. Esses grupos decidirão os temas a serem discutidos. A ideia é que haja uma autogestão a ser articulada por uma agenda combinada. Entre os temas principais, está o direito dos povos tradicionais aos seus territórios, que enfrentam problema com petrolíferas, mineradoras e com a instalação de grandes barragens, entre outros, como a questão da imigração, que já causam conflitos. Hoje, por exemplo, existem aproximadamente 60 mil brasileiros vivendo no Suriname e na Guiana Francesa, e a grande maioria, na ilegalidade, sofrendo repressão.

Os desafios da Pan-Amazônia
A Amazônia é cada vez mais colocada em destaque na pauta internacional e do imperialismo. Por sua vez, o mundo sofre hoje o problema do esgotamento dos seus recursos naturais. E a região amazônica é riquíssima em água, em minério e biodiversidade. Isso acaba fazendo com que seja fruto de uma cobiça, visto que uma luta já se trava entre as nações, quanto ao petróleo, no Iraque, em relação ao gás, na Ásia Central. Essas situações pelo mundo exemplificam também o que ocorre aqui. A assinatura do Tratado de Livre Comércio dos EUA e o Peru, que favoreceu as ações de petrolíferas e mineradoras em vários territórios indígenas, onde estão enterrados os seus ancestrais. Isso gerou um levante de vários povos da região, que tiveram o apoio da população e que culminou em um massacre, com mais de 50 mortos, uma situação que perdura até hoje, praticamente de estado de sítio. Também temos a luta dos nossos irmãos indígenas da Amazônia equatoriana, que enfrentam problema similar, com empresas em seus territórios, que causam a destruição do meio ambiente e da vida comunal dessas populações.

O impacto das grandes hidrelétricas
No Brasil, enfrentamos o plano energético do governo federal, que prevê a construção de grandes hidrelétricas nos rios da Amazônia. Já estão construindo no rio Madeira, na fronteira com a Bolívia. Ainda há os projetos de Belo Monte, e no rio Tapajós, e que são represas para tocar grandes projetos de alumínio no PA e no MA, de mineração intensiva de bauxita e ouro. Isso tudo se articula na chamada iniciativa regional da América do Sul, com a infraestrutura da Transoceânica que ligará o Acre ao Peru, que na verdade são corredores de exportação dos produtos brasileiros para chegar com preço menor para o mercado asiático. Isso tem sido feito sem o consentimento das populações. Enormes rodovias também são construídas, dividindo povos, passando por cima de cemitérios, que inviabilizam formas de vida tradicional e impactam com a chegada de novas pessoas.

Mobilizações antes de novembro
Em junho, durante a reunião do chanceler da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Lima, paralelamente haverá um encontro latino-amazônico, que será a plataforma de lançamento do Fórum Pan-Amazônico para os povos que vivem no Peru. Deverão se concretizar as alianças para a agenda de lutas e demandas em relação à OEA. A primeira demanda é a anistia aos militantes sociais que estão sendo criminalizados em toda a América, que calculamos que devam ser cerca de 5 mil pessoas, que recebem ordem de prisão, processos e condenações, como acontece no Pará. Outra reivindicação é para que a OEA ratifique a Convenção dos Povos Indígenas assinada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e a terceira demanda é exigir providências quanto ao projeto de Iniciativa Regional de Infraestrutura da América do Sul, que é um projeto que envolve vários países, financiado principalmente com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES), que visa integrar um conjunto de rede de rodovias, como a Transoceânica. Queremos, pelo menos, o respeito ao direito do consentimento dos povos tradicionais a essas intervenções. Essas estradas não podem simplesmente passar dentro das terras dos povos indígenas.

Comunicação como instrumento
No site do Fórum, abriremos um canal para que sejam postados vídeos pelas populações tradicionais. No Pará, por exemplo, há a aldeia dos Caiapós, dos Gaviões, entre outros, em que há um trabalho próprio de videografia. Queremos que dos confins da Pan-Amazônia possa haver esses registros. Superar a dificuldade enorme da distância, da diversidade das culturas por meio das imagens, e que isso seja permanente.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas.



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