A CIA e os novos contornos da guerra imperial

Na semana da mudança de ano, o The New York Times e a revista Time coincidiram na publicação de destacadas stories dedicadas ao papel cada vez mais importante e operacional que a CIA vem...

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Na semana da mudança de ano, o The New York Times e a revista Time coincidiram na publicação de destacadas stories dedicadas ao papel cada vez mais importante e operacional que a CIA vem assumindo nas guerras desenvolvidas pelos Estados Unidos da América. A morte de membros da agência em território afegão foi o principal ponto de partida para essas análises, mas já horas antes a crescente tensão bélica no Iêmen revelara alguns aspectos do trabalho fulcral que a CIA está desenvolvendo no apoio às forças governamentais deste país.

O presidente Barak Obama anunciou recentemente o envio de mais 30 mil efetivos para tentar resolver o complexo problema da guerra do Afeganistão mas tornam-se cada vez mais nítidos os sinais de que há mudanças estratégicas na guerra imperial quando comparada com os métodos utilizados pelo Pentágono durante a Administração Bush.
O New York Times notou que a atividade na base avançada de Chapman da CIA na província de Khost, alvo do atentado suicida no Afeganistão, é um misto de ações pormenorizadas de espionagem contra grupos islâmicos atuando nas zonas fronteiriças com o Paquistão mas também de operações consideradas "quase militares" pelo jornal, como sejam a utilização de aviões espiões não tripulados (drones) ou mesmo ataques aéreos e lançamento de barragens de mísseis. À luz destes fatos adquirem contornos mais nítidos as frequentes queixas de autoridades paquistanesas segundo as quais alguns ataques militares contra zonas do país são efetuados por efetivos norte-americanos.

Daí que tanto o New York Times como a Time considerem que a CIA se tem se transformado numa organização paramilitar sobretudo depois das acusações contra a sua ineficácia nos atentados de 11 de setembro e também no Afeganistão e no Iraque, onde a agência teria sido manipulada por grupos de pressão e tendências expansionistas político-militares em torno da existência de armas de extermínio em território iraquiano.

Tudo leva a crer que a CIA esteja incrementando uma atividade assente em duas direções: uma com o objetivo de interligar a operacionalidade de decisão e execução; outra para criar condições capazes de proporcionar maior capacidade às forças locais, poupando assim as tropas norte-americanas às tarefas de maior risco.

Uma dessas vertentes é a convergência, no interior da própria CIA, das ações de espionagem e de resposta aos fatos assim detectados, de que tem sido exemplo o assassinato de importantes dirigentes de grupos islâmicos inseridos na teia formada por talibãs e Al-Qaeda. Daí também que não seja surpreendente a realização de atentados contra instalações da CIA, assim transformadas em objetivos de guerra embora as autoridades norte-americanas insistam em qualificá-los como atos terroristas contra civis.

A outra vertente da ação principal da CIA é o apoio diversificado aos governos que "solicitam assistência aos Estados Unidos", como se diz em Washington, para que eles próprios adquiram qualidade e eficácia na chamada "guerra contra o terrorismo".

As ações nesse sentido promovidas pelo Pentágono tanto no Afeganistão como no Iraque não têm dado os resultados pretendidos pelos Estados Unidos e pela Otan. Os exércitos afegão e iraquiano não estão em condições de manter por si próprios, sem a presença de forças estrangeiras, o funcionamento dos regimes políticos ali instalados por estas mesmas forças. Se a imensa máquina de guerra instalada no Afeganistão pela Otan não consegue resolver os problemas levantados pelos grupos talibãs, muito menos o exército afegão terá condições para isso, tanto mais que está ao serviço de um regime confinado a Cabul, sem credibilidade nem autoridade políticas. Também não são segredo as críticas impiedosas proferidas por responsáveis do Pentágono e da Otan contra a ineficácia, a corrupção e o laxismo do exército afegão, formado e treinado pelas forças invasoras.

Do mesmo modo o exército iraquiano é incapaz de garantir a segurança e a integridade do país, sobretudo depois de as condições em que decorreu a invasão estrangeira terem acicatado ódios religiosos, comunitários e sectários cada vez mais difíceis de reverter. A situação iraquiana é instável, volúvel e os instrumentos políticos até agora postos em ação são incapazes de controlar os acontecimentos para lá da chamada "linha verde" delineada dentro de Bagdade.

As respostas mais evidentes da administração Obama a estas situações são o reforço do contingente militar no Afeganistão e um impasse no Iraque que se mantém desde que aligeirou a presença militar nas cidades e até que se verifique a anunciada retirada, em 2011. Daí a importância que adquirem as próximas eleições a realizar no Iraque e que são um teste muito importante para o processo político. As perspectivas não são animadoras para Obama. As instituições políticas resultantes dificilmente corresponderão ao que se lhes pede, o exército não terá condições para estabilizar o país e não tarda a que o presidente norte-americano seja posto perante um desconcertante dilema: voltar com a palavra atrás e manter as tropas no Iraque muito para lá de 2011; ou cumprir a palavra e entregar o país à guerra civil no quadro desagregador que a invasão estrangeira ali foi criar.

O papel emergente da CIA tanto no Afeganistão como no Iraque parece corresponder também uma espécie de "renacionalização" de serviços complementares da actividade do Pentágono e que inicialmente Bush tinha distribuído por milícias privadas criadas por empresas às quais o Departamento da Defesa paga principescamente. Embora não existam sinais concludentes de que essa opção tinha sido abandonada, para já parece que perdeu protagonismo sobretudo devido ao comportamento da mal-afamada "Blackwater", associada a grosseiras violações de direitos humanos, entre as quais se destaca o massacre de Fallujah, um crime de guerra norte-americano que os tribunais internacionais continuam a fingir que não existiu.

O país onde a CIA assume de maneira menos pré-condicionada o seu renovado papel estratégico é o Iêmen, como se vem percebendo nos últimos meses.

Já não é segredo para a comunicação social norte-americana que a agência está se enraizando cada vez mais neste país do sul da Península Arábica para apoiar o governo do presidente Ali Abdullah Saleh alegadamente na guerra contra a Al-Qaida, mas também contra tendências separatistas no sul, zona com reservas petrolíferas, e grupos xiitas no Norte, supostamente apoiados pelo Irã.

O estranho e ainda muito mal explicado atentado contra um avião da Delta Airlines no dia de Natal proporcionou numerosas manifestações norte-americanas de solidariedade para com o governo do Iêmen, tornando evidente que o apoio militar – amplo nos últimos 18 meses – tenderá a crescer. As informações mais recentes dizem que o apoio, da ordem dos 70 mil milhões de dólares em 2009, poderá duplicar. E revelam ainda , num cenário visto e revisto, que o Reino Unido se disponibilizou para apoiar não apenas o Iémen mas também outros "países árabes pobres para que deixem de ser redutos da Al-Qaeda.

Como notou desde logo o New York Times, seria imprudente que a Administração Obama se lançasse numa nova guerra de envergadura no "Grande Médio Oriente" sem ter resolvido os problemas do Afeganistão e do Iraque. A decisão de assumir essa terceira frente de guerra parece estar tomada, mas caberá ao governo iemenita travá-la no terreno, tarefa em que lhe será muito útil o papel paramilitar da CIA, instituição que atualmente ali interpreta o apoio declarado e clandestino dos Estados Unidos da América.

A aposta imperial no controle do Iêmen tem lógica e não surpreende. Os movimentos da Al-Qaeda no país – desde que os mercenários islâmicos contratados por Bin Laden e pelo Ocidente ali se instalaram quando ficaram desempregados da guerra contra os soviéticos no Afeganistão – e o suposto envolvimento do Irã no apoio a grupos oposicionistas são argumentos habituais para os Estados Unidos se envolverem em assuntos de países distantes para, como dizem, defenderem as próprias fronteiras da ameaça terrorista. Além disso, algumas atividades no Iémen têm sido perturbadoras da presença naval norte-americana e da Otan na região do Chifre da África e respectivo envolvimento em problemas regionais como sejam os da Somália e a pirataria.

O Iêmen é, pois, um alvo natural dos Estados Unidos na guerra de expansão que lhe permite atualmente ter tropas e um labirinto de bases em todo o "Grande Médio Oriente", zona onde, com exceção de Israel, até 1990 não tinha autorização para instalar um único soldado. Repare-se agora como tropas da Arábia Saudita se internam em território do IÊmen para se associarem ao governo local e ao apoio norte-americano na luta não apenas contra a Al-Qaeda mas também contra os "pró-iranianos".

A par da Arábia Saudita, embora em moldes diferentes, o Iêmen também é insuspeito de ser uma democracia. A cruzada de Washington pela instalação de governos democráticos lá onde eles não existam não encaixa muito bem neste caso. Ali Abdullah Saleh dirige o país há quase três décadas e soube fazer oportunamente a agulha a partir de 1990 e do fim do bloco soviético, com o qual se entendia muito bem. Hoje os enviados militares de Washington não se instalam em Sanaa com o objetivo de derrubar e capturar o ditador, como fizeram em Bagdá, mas sim de o apoiar para reforçar o poder estratégico imperial em terras banhadas por muitos mares desde o Atlântico aos confins do Índico. Mesmo sem uma invasão de grande envergadura, os Estados Unidos têm no Iêmen mais uma frente de guerra e de ocupação.

Publicado por Esquerda.net.



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