A contagem regressiva do kirchnerismo

Se não é possível apontar um vencedor nas eleições parlamentares ocorridas na Argentina no final de junho, pode-se afirmar que houve um grande perdedor: o kirchnerismo. Cristina Kirchner, foi eleita em 2007 com quase...

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Se não é possível apontar um vencedor nas eleições parlamentares ocorridas na Argentina no final de junho, pode-se afirmar que houve um grande perdedor: o kirchnerismo. Cristina Kirchner, foi eleita em 2007 com quase 50% dos votos, contava então com maioria no parlamento e, agora, tem uma base política bem mais frágil.

As eleições mudaram 127 cadeiras na Câmara e 24 no Senado, sendo que agora o governo tem 94 deputados aliados, longe do quórum mínimo de 129 para aprovar seus projetos. A ausência do povo argentino também marcou o processo eleitoral: 50% do eleitorado foi às urnas, abstenção que não se vê desde 2001, quando houve uma das maiores crises políticas e econômicas da história da Argentina.

Para Osvaldo Coggiola, historiador da Universidade de São Paulo (USP), a fragilidade política do kirchnerismo não vem de agora. “A base política parecia forte, mas não era tanto. O kirchnerismo foi uma saída de crise diante de uma situação de crise”. Ele lembra que o governo de Nestor Kirchner só se formou para resolver a situação de extrema instabilidade política de 2002, unindo setores da sociedade argentina até com interesses contraditórios. Confira trechos da entrevista.

Fórum –O resultado das eleições parlamentares na Argentina se deve a que fatores? Houve influência do setor do agronegócio, que se indispôs com a presidente no episódio das retenções?
Osvaldo Coggiola –
Houve uma influência múltipla, não só do agronegócio. O agronegócio tem participação importante nas províncias mais ricas, onde essa questão tem mais peso. Mas não dá para dizer que apenas isso contou, pois a perda de base ocorreu nas províncias de Buenos Aires, em Santa Fé, Córdoba, mas em outras mais pobres também. Na verdade não foi uma eleição, foi um plebiscito, o governo perdeu, o que torna muito difícil que Cristina Kirchner chegue ao final de seu mandato no ano de 2011. Provavelmente vai ter que convocar eleições presidenciais antecipadas.
O governo perdeu, mas não se sabe quem ganhou. A própria centro-direita se aliou com setores do peronismo e ninguém aposta que esses não possam voltar a fazer uma composição dentro do partido, com Kirchner em segundo plano. Mas agora haverá uma grande disputa interna no peronismo. Em segundo lugar, a direita também não saiu vitoriosa dessas eleições. O Pro (Proposta Republicana) venceu na capital federal, mas com menos votos do que em 2007; ganhou em Buenos Aires, mas aliado a um setor do peronismo. Senão, não teria tido tal quantidade de votos.
Fernando Solanas, com 25% dos votos na capital federal, é hoje um forte nome na esquerda. Já o Partido Obrero teve 7% dos votos em Salta e 5% dos votos em Catamarca, onde está o setor mais pobre da população. E obteve entre 15% e 20% em outros locais. E eu estou falando de um partido que está à esquerda do PSTU… Houve uma versão simplista de que Kirchner perdeu para a direita por causa do agronegócio. Isso é uma caricatura, não tem pé nem cabeça. O agronegócio conseguiu influenciar parte do eleitorado, mas esse tal do agronegócio é um fantasma, não tem um partido político próprio.
Houve um perdedor claro: Kirchner e sua mulher. Mas não houve um vencedor claro. Os votos estão muito divididos entre radicais, centro-esquerda e direita. Em 2007, o casal Kirchner teve 47% dos votos a nível federal. Dessa vez não chegou a 30%, o que é, obviamente, uma derrota. O peronismo hoje é uma referência ideológica genérica, porque alguns setores ficaram com Kirchner e outros ficaram mais à direita. O partido radical teoricamente se organizou a partir disso, mas não é grande coisa. Mas, sozinho, o partido de Alfonsín não tem a menor chance de vencer a presidência, e se abre um panorama muito grave, porque significa que, provavelmente, vai levar a um adiantamento das eleições presidenciais em 2011. Enquanto isso, temos agora um governo em crise, com minoria em ambas as câmaras, que vai ter que governar fazendo acordos de todo tipo. Inclusive o próprio Kirchner renunciou ao partido peronista e tentou minimizar sua derrota, mas foi uma derrota muito grande.

Fórum – Por que houve essa mudança na preferência do eleitorado? Pode-se dizer que o governo Kirchner falhou?
Coggiola –
Em primeiro lugar, tem falhas, mas em que sentido? Não sou kirchnerista. O conceito de falha na política é altamente subjetivo. Todo mundo diz que Kirchner errou ao fazer uma tentativa de imposto máximo sobre os produtores agrários, sem fazer divisões entre os estratos sociais. Ele meteu 35% de taxa, que é o máximo que permite a legislação do Mercosul, a todos, sem discriminação. Para quê? Para fechar as contas do Estado. Com que objetivo? Pagar a dívida externa, por um lado, e por outro, fazer programas sociais, como uma espécie de Bolsa-Família.
Só que lá não é a mesma coisa que aqui, na Argentina existem subsídios estatais que foram arrancados a custa de lutas muito fortes em 2001. Por isso, enquanto no Brasil há uma correlação bastante direita entre programas sociais e popularidade do governo, lá essa correlação não se reproduz. Por exemplo, a maioria dos subsídios do governo beneficia a população pobre de Buenos Aires, mas na província de Buenos Aires, Kirchner perdeu. Lá ele apostou tudo. No final da campanha, estava totalmente certo de que perderia em nível nacional e apostou tudo em Buenos Aires. Lançou-se a si próprio como candidato, lançou todos os prefeitos, o próprio governador, todo mundo com as tais de candidaturas testemunhais, ou seja, candidatos que se candidatavam mas, mesmo se ganhassem, não assumiriam. Ainda assim, perdeu. E perdeu na única eleição em que ele fazia questão de vencer absolutamente.
Kirchner, por algum motivo ideológico, é visto como um dos governos de esquerda na América Latina. Na Argentina, isso soa engraçado, porque Kirchner tem uma trajetória não de esquerda, ao contrário. Kirchner, na crise de 2001, era totalmente alinhado com (Carlos) Menem. Claro que houve uma virada política, mas a trajetória histórica dele não é de esquerda, nem de Cristina. Houve falha no ponto de vista de seu próprio espetáculo político.
Nós temos uma frente de esquerda continental, que é meio mítica: Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo, Lula. Só que essas frentes expõem fissuras enormes. No caso argentino, para o exterior se fez muito a propaganda do Kirchner por causa da condenação dos crimes da ditadura e da reabertura dos processos, o que o qualifica como um governo de esquerda. E a essa altura do campeonato, para falar francamente, a maioria dos repressores históricos está morta. É uma reabertura de processo contra mortos, esses processos não correm o risco de provocar as Forças Armadas, nem de pegar os graúdos da repressão dos anos 1970. Também não vai pegar quem teve benefícios econômicos com a ditadura, os que não sujaram a mão com sangue. Embora haja algumas denúncias nesse sentido, são cercadas pela pressão dos empresários, das multinacionais.

Fórum – Essa crise política pode se estender aos outros países na América Latina? Há um prenúncio de que em outros países com políticas de conciliação essa diferença ideológica se acentue?
Coggiola –
Vai ter uma influência latinoamericana, sem dúvida. Está claro que a Argentina não é o Brasil, hoje a Argentina na concorre mais com o Brasil. Seu peso econômico na América do Sul, no Mercosul, e portanto seu peso político é menor do que foi em outros tempos. Ainda assim, a Argentina costuma ter um peso político importante, e o que está acontecendo lá vai ter uma influência política. Isso ainda está se desenvolvendo, não tem um rumo, um direcionamento claro. Você não vê aparecer, pela esquerda, uma projeção continental, com se deu sob Lula, Evo Morales e Chaves. Seja porque estão fora do poder, seja porque não se aglutinam claramente como uma oposição popular de massas. Portanto, por enquanto o processo argentino vai ser acompanhado no exterior com atenção pelos setores mais esclarecidos, mas não vai ocupar a manchete dos jornais, a não ser que aconteçam explosões sociais muito grandes, ou coisas desse tipo. Perguntaram se esse resultado é uma volta ao neoliberalismo: não, não é. Nem tem como, por vários motivos. Em primeiro lugar, porque na Argentina não há mais nada para privatizar, já se privatizou tudo. Agora se estatizaram novamente os fundos de pensão porque estavam todos falidos. Não vai surgir nenhum governo que vai começar a privatizá-los novamente. O alumínio também está sendo reestatizado, os setores energéticos. Ou seja, em absoluto significa que as eleições argentinas significam um início de uma virada à direita na América do Sul, isso está totalmente descartado. A vitória do agronegócio é muito relativa. O agronegócio não tem partido, quem é o agronegócio? Ele tem uma expressão clara, o agronegócio existe, está profundamente entrosada com o capital multinacional, mas faz política através de diversos canais. A própria questão dos agrários que moveram aquele conflito contra Kirchner também é complicada, porque se mobilizaram contra Kirchner tanto grandes proprietários quanto pequenos proprietários. A partir daí, foi se desenvolvendo com sua política retratá-los todos por igual, unificou-se essa frente. Mas, aos poucos, essa frente vai se dividindo. Por enquanto não se dividiu, mas provavelmente vai acabar se dividindo, porque o interesse dos pequenos proprietários e do grande capital são interesses contrapostos.

Fórum – O kirchnerismo estava condenado desde o começo por ser essa amálgama ideológica?
Coggiola –
Não tanto por ser uma amálgama ideológica, mas sim porque foi uma solução de crise. Teve uma crise maiúscula, de 2001, que em 2002 fez cair cinco governos em menos de dois meses. Então as figuras políticas que tinham dominado por uma década e meia desapareceram, como Menem, Alfonsín, De La Rua. Kirchner foi mais um produto de uma improvisação política. Ele venceu uma eleição, tomou o governo em 2003, e evitou um segundo turno em que o outro candidato era Menem. Isso fez com que Kirchner se assumisse como o governo mais minoritário na Argentina. Ele tinha tido 22% dos votos válidos emitidos. Nunca um governo tinha assumido nessas condições. E, se levar em conta todo o panorama eleitoral na Argentina, sua votação naquela ocasião não ultrapassou 16% do eleitorado.
Nessas condições, se improvisou essa coisa que foi chamada de “kirchnerismo”, que agrupa peronistas, outros da fração de Kirchner, de grupos políticos aliados com Menem, inclusive, radicais e gente de outros partidos. Era um balaio de gato. Então, a base política de Kirchner parecia forte, mas não era. Em 2007, a Argentina teve uma conjuntura econômica muito favorável, estimulada pelo aumento dos preços das commodities, aumentando o fluxo das exportações. Ele pode contornar o grave problema econômico do qual a Argentina estava saindo e se aproveitar da fragilidade dos outros partidos, que tinham ficado estraçalhados depois de 2001, para criar uma espécie de base política própria que parecia funcionar. Isso lhe permitiu fazer o pulo espetacular, passando de 16% dos votos de 2003 para 47% dos votos em 2007. Mas coalizão kirchnerista não era uma coalizão partidária, era uma miríade de grupos.
Essa fragilidade se expressou no conflito agrário, onde seu grande aliado, o vice-presidente, Julio Cobos, se levantou contra no momento em que o voto dele decidiria na Câmara a questão. Isso mostrou toda a fragilidade dessa coalizão.
Ideologicamente, o kirchnerismo não é nada. O peronismo é uma coisa ultradifusa, como o varguismo era no Brasil, mas Perón tinha um carisma. Já Kirchner é qualquer coisa.

Fórum – A queda do kirchnerimo é irreversível?
Coggiola –
Sim, para mim, o kirchenerismo não levanta mais. Pode demorar, mas voltar à condição majoritária a que chegou em 2007, não. Na Argentina, já se iniciou a contagem regressiva do kirchnerismo. A única dúvida que existe é quanto vai durar: se vai durar até as eleições marcadas para 2011, ou se vai parar com a convocatória antecipada das eleições presidenciais. Essa é a incógnita.



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