A crise internacional como oportunidade para o Brasil

Historicamente, o Brasil soube reagir relativamente bem frente a situações de grave crise internacional. Na Grande Depressão de 1929, por exemplo, a Revolução de Trinta não apenas expurgou o liberalismo anacrônico da República Velha...

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Historicamente, o Brasil soube reagir relativamente bem frente a situações de grave crise internacional. Na Grande Depressão de 1929, por exemplo, a Revolução de Trinta não apenas expurgou o liberalismo anacrônico da República Velha como estabeleceu uma nova maioria convergente com o desenvolvimento urbano-industrial. Naqueles tempos, a velha aristocracia do setor primário-exportador apregoava que a laranja superaria o café. O que seria do Brasil de hoje se, frente àquela crise, o país não soubesse ser proativo, capaz de imprimir um novo ritmo de expansão? Três anos após 1929, o PIB havia sido recuperado e abriu-se um novo ciclo de expansão que terminou durando quase meio século. Nas nações ricas, como nos Estados Unidos, a recuperação da crise foi longa, somente superada pelo ingresso da Segunda Guerra Mundial.
Também na crise financeira da década de 1970, o Brasil demonstrou capacidade de optar por outro caminho que não a receita da recessão difundida à época, com corte de gasto público e liberação bancária. Diante do choque do petróleo em 1973, o governo militar implementou o Proalcool e o segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, que permitiram o avanço do mercado interno e uma maior inserção econômica do Brasil no mundo.
O conjunto de medidas governamentais tomadas tanto na Depressão como na crise do petróleo não se reduziu ao plano econômico. No âmbito social, inegáveis avanços foram obtidos por intermédio de inovadoras políticas públicas que evitaram o aprofundamento da exclusão. No início da década de 1930, por exemplo, a reforma social e trabalhista de Vargas protagonizou a modernização das relações de trabalho no Brasil. Já na década de 1970, o governo militar também lançou mão de algumas medidas sociais como a mudança parcial na política salarial de arrocho e reorientou o gasto social para os segmentos de menor renda, como a pensão vitalícia.
Tudo isso, evidentemente, não implica abandono às críticas que decorrem do elevado grau de conservadorismo que impossibilitou a realização efetiva das três reformas clássicas do capitalismo contemporâneo, a fundiária, a tributária e a social. Mas vale identificar que, nas situa­ções de grave crise internacional, apesar do encurtamento do raio de manobra, há alternativas de ações que permitem romper com o atraso, abrindo oportunidade para novos caminhos que não sejam receitas ultrapassadas.
Neste ano de 2008, quando se consolida o ciclo de expansão nacional sustentado nas decisões de investimento potencializado, em parte, pelo Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e pela Política de Desenvolvimento Produtivo, constata-se o avanço da crise financeira que contamina a economia real. Nesse quadro de fragilidade anunciada, o Brasil encontra-se mais bem preparado para as decisões que possam aprofundar o sentido do desenvolvimento econômico com justiça social. A crise enfraquece setores econômicos dominantes e pode permitir a emergência de outros, caso sejam apoiados em decisões de políticas públicas.
Mas isso pressupõe o abandono por completo do viés liberal-conservador que ainda tenta ser revivido para o novo contexto, com uma atuação externa em dois níveis. O primeiro vincula-se ao maior protagonismo em uma ampla reforma nas bases do atual sistema financeiro internacional: um novo Bretton Woods precisa ser trilhado. Sem o distanciamento do atual padrão de financeirização da riqueza é pouco provável atuar para além dos seus efeitos. As causas, contudo, tendem a permanecer ativas.

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