A idade de Glauber

Um filme que parece sonho. Crenças, ideologias, dores, paixões, personagens religiosos e anônimos, todas referências possíveis sem um fio condutor definido. Os cortes são bruscos e por vezes, deixam o anterior sem ser concluído....

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Um filme que parece sonho. Crenças, ideologias, dores, paixões, personagens religiosos e anônimos, todas referências possíveis sem um fio condutor definido. Os cortes são bruscos e por vezes, deixam o anterior sem ser concluído. O último filme de Glauber Rocha, A Idade da Terra, lançado há quase 30 anos era isso: um sonho. "Cada seqüência representava a desembocadura de inumeráveis determinações", explicou a Revista Filme Cultura na época.

Nada era racional, o foco e a iluminação iam contra o que a maioria das correntes cinematográficas poderiam aceitar e claro que a crítica "mainstream" não deixou por menos: Rubens Ewald Filho ironizou dizendo que Glauber estava fadado a ser um repentista da própria filosofia.

O diretor passou por algumas fases até chegar a sua libertação. Conseguiu o prestígio que merecia ao lançar filmes sob a ideologia da Estética da Fome, no Cinema Novo, como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe. Orgulhava-se de ser um artista de terceiro mundo e imprimia esse sentimento em suas peliculas. Queria fazer com o que o povo brasileiro se identificasse com seus filmes e se erguesse contra o imperialismo e contra a arte enlatada. Temia que a feroz máquina do cinema norte-americano alienasse a nação. Entretanto, o Cinema Novo morreu quando Ato-institucional 5 acabou com qualquer possibilidade de liberdade de expressão.

Em meados de 1970, Glauber ressurge com uma nova idéia: a Estética de Sonho. Temas ligados ao inconsciente do homem moderno foram tratados como uma maneira da sociedade, tolhida pelo regime militar, sentir a necessidade da igualdade. "O sonho e o único direito que nao se pode proibir", defendeu ele, dizendo que tinha se inspirado na obra do argentino Jorge Luiz Borges. 

Durante a fase do Sonho, Glauber substitiu a violência da fome pelo mito. Apostou na imprevisibilidade do inconsciente e garantiu que a devoção ao sonho dos mais pobres, índios e negros deveria ser o norte para uma obra interessada na mudança do status quo.

Ao lançar A Idade da Terra, estava realizado pois enxergava a cultura popular nos personagens: quatro cristos latinos lutando contra o líder imperialista no terceiro mundo, Brahms. "Para quem conhece minha trajetória ficcional, resumo que, em A Idade da Terra, "o cangaceiro mata Antonyo das Mortes (o ymperialysmo polyvalente) e o povo triunfa na utopya", escreveu o cineasta no Manifesto ‘Aviso aos Intelectuais‘.

Glauber faria 70 anos neste sábado, 14 de março. Artista brasileiro  controverso e polêmico fez o que todos os artistas deveriam fazer: em vez de imitar o que já existe, se dispôs a propor um novo conceito sobre a arte. Em seu último filme, ele mostrou que a obra cinematográfica poderia ser algo livre, sem início, meio ou fim. O espectador poderia entrar ou sair da sala de cinema sem perder a essência e a historia do filme. O importante era mostrar a quebra de paradigmas, e por fim, libertar o indivíduo das diversas amarras sociais, políticas e culturais.



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