A nova classe média, por Sérgio Bianchi

Com “Os Inquilinos (Os incomodados que se mudem)”, Sérgio Bianchi mais uma vez surpreende, mas dessa vez não pela excentricidade e atemporalismo comuns de seus filmes, mas justamente por um roteiro aparentemente tradicional em...

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Com “Os Inquilinos (Os incomodados que se mudem)”, Sérgio Bianchi mais uma vez surpreende, mas dessa vez não pela excentricidade e atemporalismo comuns de seus filmes, mas justamente por um roteiro aparentemente tradicional em um formato tradicional. O conteúdo, porém, justifica a forma: uma família de classe média, em um bairro pobre de São Paulo, mas razoavelmente estruturado, e os dramas típicos da nova classe média. E é justamente ao mostrar o retrato do dia-a-dia desses brasileiros que o diretor nos surpreende, mostrando uma lógica que é real, e ao mesmo tempo de difícil entendimento. Bianchi fala do trivial, mas de forma questionadora.

Linear, o filme começa com o retrato de uma favela. O espaço aí não é somente um cenário, mas é o que dá sentido ao incômodo dos protagonistas. A favela, o “lugar de pobre”, é o espaço que representa o medo dessa família classe média que saiu da pobreza. De repente, “os de lá” resolvem vir para “o lado de cá”: três jovens surgem no bairro e tornam-se inquilinos da casa ao lado. Gritaria, festas até à noite… Os vizinhos, acostumados com a rotina trabalho-casa, começam a se incomodar com as novas presenças.

A filmagem foi feita em Brasilândia, bairro da zona noroeste da capital paulista, e o contexto são os dias após os ataques do PCC na cidade. O clima de insegurança está mais do que latente. O novo incomoda, e aumenta o medo. Mas, mais do que tratar do problema social da violência nas periferias, Bianchi trata dos medos humanos e da reação ao diferente, e lima o muro que existe entre as discussões filosóficas e sociais.

O filme também é rico em referências externas. Uma delas é a cena da novela em que uma mulher é violentada. Na televisão, o casal Valter e Iara ainda assistem ao programa do Datena, que mostra a história de uma garota de oito anos morta após ser estuprada por três homens. O crime se relaciona diretamente com a violação da liberdade dos filhos Natália e Diego, que muitas vezes são proibidos de sair por conta do medo dos pais.

Valter é típico pai de família, com um emprego precário, mas está voltando a estudar, tem sua casa própria construída “tijolo por tijolo” com seu pai, um carro ano 1985 e, para completar a família, um cachorro. Valter confiava na segurança de sua casa e de sua família até chegarem os vizinhos. E ao longo da história e movido pelo medo – de ser traído, de perder os filhos, de perder o emprego –, Valter passa por um turbilhão de sentimentos. Sonha em acabar com os vizinhos, mas não tem coragem de comprar a briga. Para aliviar sua consciência e enganar seu medo, tranca as portas, fecha as janelas e solta o cachorro no quintal.

Se os dramas são da classe média, os preconceitos também. Mesmo moradores de um bairro periférico têm medo da favela. Mais do que medo, desprezo. “É tudo um bando de vagabundo”, diz Valter à certa altura. A solução, o muro: “Cada um com seus problemas. É pra isso que serve o muro. Eles ficam do lado de lá, a gente de cá, e cada um na sua”. No fim das contas, o medo só serve de válvula de escape para o preconceito de classe. Mas… que classe?

A história, nada mais do que um retrato comum da realidade de uma grande cidade, questiona a filosofia de vida de uma classe que defende o modo de vida das classes mais altas, mas não tem dinheiro para comprar a pouca liberdade que elas têm. Em Valter, vê-se a história de toda uma classe que é explorada em seu trabalho, mas que despreza e descrimina os mais pobres. O papel de opressor e oprimido são trocados a toda hora, questionando as denominações clássicas de “quem está do lado de cá” e “quem está do lado de lá”.

O filme vem em boa hora, em que a ascensão social da classe média baixa ocorrida nos últimos anos desafia a sociedade com a amplificação de uma classe que nega e criminaliza sua própria condição social.

O filme estreia em circuito comercial em 26 de fevereiro.



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1 comment

  1. Gabriel

    Não sei se o outro comentário foi (deu erro), vou mandar de novo, então: Cara Camila… Assisti ao filme no Festival de Tiradentes e me surpreendi bastante, por não ser grande entusiasta do diretor. Mas, discordo de alguns pontos por você colocados. Não sei se é mais adequado classificar a família do filme de classe-média. Podemos discutir os critérios para essa classificação. Mas acredito que eles mostram uma típica família brasileira da classe trabalhadora, com emprego precarizado (a cena em que o pai reividindica a carteira assinada e a resposta do patrão elucidam bastante o nosso atual estágio da luta de classes) e condições de vida bem difíceis. Para mim, o que é mostrado, é um conflito real das grandes cidades. Não podemos fazer uma interpretação simplista sobre consciência de classe. Existe, no vizinho, uma ameaça real, que se relaciona ao universo do crime. É verdade que existe uma relação de ódio, às vezes, entre os moradores das periferias e os das favelas. Mas isso não explica tudo. É importante entendermos, que, dentro da classe trabalhadora, existem inúmeras dinâmicas sociais, conflitos que não dizem exclusivamente e diretamente à luta de classes, mas às formas como a sociedade se organiza geograficamente, socialmente e as consequências de problemas sociais gerados, aí sim, pelas desigualdades e opressão dos mais pobres. Pensando nisso, o filme traz importantíssimas questões, muito complexas, que podem nos ajudar a entender e a pensar muito do que vem acontecendo nas cidades.. no mais.. parabéns e um abraços

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