A ofensiva da direita na Argentina

O economista Jorge Beinstein analisa a situação política do país vizinho e alerta para o perigo da volta da direita ao poder

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O economista Jorge Beinstein analisa a situação política do país vizinho e alerta para o perigo da volta da direita ao poder

Por Renato Rovai

Durante um período pós-crise em que a Argentina conseguiu recuperar sua economia e parte do bem-estar social perdido, o governo Kirchner foi visto com bons olhos pela sociedade portenha, inclusive pela elite do país. Tanto que o presidente Nestor conseguiu eleger seu sucessor, sua esposa Cristina, sem muitos sobressaltos eleitorais. Porém, o que se vê hoje é uma poderosa contra-ofensiva de uma multifacetada direita, ávida por retornar ao poder e evitar qualquer punição a quem participou do período repressivo argentino.

Essa é parte da análise de Jorge Beinstein, doutor em Ciências Econômicas e professor da Universidade de Buenos Aires, autor do livro Capitalismo Senil. Em entrevista concedida à Fórum em parceria com a organização do Seminário Crises e Oportunidades, o economista refletiu não apenas sobre a situação política e econômica do seu país como também falou a respeito da crise e da decadência do capitalismo, e os efeitos disso para todos. “Corremos o risco de estar numa situação similar em que a decadência do capitalismo arraste o planeta inteiro para o desastre.” Confira, abaixo, trechos da conversa com Beinstein.

A ofensiva da direita na Argentina

Na Argentina, o que se tem há um ano e meio, aproximadamente, é uma terrível ofensiva do que se chama, muito simplificadamente, de direita, composta por setores de poder econômico concentrados e parasitários. São multinacionais, burguesias locais financeirizadas, o agrobusiness, os setores comerciais e alguns de serviços. É um setor que aceitou de bom grado o governo de Nestor Kirchner depois da grande crise de 2001 e 2002 porque ele lhes assegurou a governabilidade sistêmica. Eles suportaram isso, era melhor para eles do que ter as pessoas nas ruas, os piqueteiros, esse tipo de coisa. Foi um período de grande prosperidade, que acompanhou o período de prosperidade internacional; mas quando começou a crise, já com Cristina no governo, ela seria obrigada a tomar medidas defensivas, que na verdade sequer eram medidas anti-sistema, para que não quebrasse tudo.

A partir dali, por exemplo, começou a se ter problemas fiscais e no momento em que os preços das commodities estavam subindo muito, no final de 2007, começo de 2008, ela tributou as exportações agrícolas e isso despertou a fúria louca destes grupos econômicos. No início, a burguesia agrária começou uma ofensiva contra o governo e grandes setores de classe média começaram a se mobilizar contra o governo e a favor da burguesia agrária, inclusive prestando apoio político inesperado, abertamente fascistas. Pela primeira vez se viram, nas ruas de Buenos Aires, grandes cartazes de “Volta, Videla”. Jorge Videla é um ex-ditador argentino e liderou um dos regimes mais sangrentos do continente entre 1976 e 1981. A Alemanha emitiu um mandado de prisão contra ele em janeiro. Entre outros crimes, Videla é acusado do sequestro de inúmeros bebês de opositores da ditadura. Foi uma coisa inesperada na minha vida, a última vez que tinha visto algo parecido foi em 1955, quando ocorreu o golpe militar contra Perón e saíram grandes massas de classe média às ruas, dizendo “agora os negros vão ter que voltar a trabalhar”. Racista, fascista, com a bandeira democrática do ocidente, não é isso?

O sistema de poder portenho
A partir de 2008, inicia-se uma ofensiva de direita contra o governo, mas é preciso entender o que quer dizer um sistema de poder num país como a Argentina. Não é só a economia. Os meios de comunicação, o que se chama de “partidos midiáticos”, são um componente decisivo no sistema de poder. E esse governo fez duas coisas que talvez feriram muito mais esse sistema do que os temas econômicos.

Uma foi a tentativa de democratizar os meios de comunicação, com uma lei dos meios de comunicação que termina com os grandes monopólios como o do Clarín. Isso não despertou a ira só dos donos desses meios, mas dos grupos mafiosos que existem ao redor disso, e eles juraram de morte o governo de Cristina Kirchner.

Segundo ponto: nos anos 2004, 2005, dizia-se “Bem, Kirchner não vai tomar grandes medidas econômicas, mas avançar no tema dos direitos humanos”, ou seja, cuidar da questão dos militares genocidas, que não são cinco pessoas, são várias centenas ou milhares de assassinos. Então se pensou em julgar os genocidas, mas na Argentina há um aparato repressivo mafioso, público e privado. Na realidade, os grupos privados de segurança são mais numerosos hoje que a polícia e o exército. Diz-se que há quase 150 mil pessoas ligadas a esses grupos que são refúgio de ex-militares, de toda a polícia que torturou e matou.

Esse processo contra os militares genocidas acabou por colocar o governo em rota de choque com esse aparato terrível, que não é somente um aparato armado de segurança, porque quando você vê um segurança privado, vai ver que está vinculado a um grupo financeiro, a uma empresa, a um meio de comunicação, a um juiz. Assim, eles se voltaram de maneira virulenta contra o governo. E, além disso tudo, há uma espécie de sujeito oculto em muitos de nossos países e na Argentina também, que se chama de “partido judicial”. Há 10%, 20% de juízes honestos e 80% de juízes que estão vinculados a drogas, prostituição, contrabando, é uma corrupção absoluta.

O caso do Banco Central

Um governo como o dos Kirchner, que não queria ser grande coisa, era um governo suavemente reformista, teve que aprofundar medidas e, ao fazer isso, enfrentou esse sistema de poder, estando hoje numa luta de vida ou morte entre um governo que terminou por não conseguir apoio das massas e uma direita que se lançou para tomar o poder antes das próximas eleições presidenciais de 2011. Creio que na Argentina está em marcha um golpe branco; o governo, por um lado, está encurralado, esses políticos da direita têm maioria no Parlamento, embora briguem entre si. A única coisa que os une é derrubar o governo, mas se eles conseguirem, não têm a menor ideia do que fazer, porque essa direita quer é um programa econômico ultraneoliberal de concentração de renda espantosa.

O caso do presidente do Banco Central (BC) argentino, por exemplo, mostra a habilidade deste governo, porque Martin Redrado é uma pessoa terrível, um ultraneoliberal, que esteve no governo Menem. Kirchner o colocou pensando “Desse modo posso dar um bom sinal ao setor financeiro”. E isso foi colocar um Cavalo de Tróia dentro de seu próprio dispositivo de poder. Esse imbróglio do BC, o que estava em discussão? O governo pretendia pagar uma parte das dívidas com as reservas, que estavam em torno de US$ 50 bilhões, e o que a direita diz? “Não, não se pode tocar as reservas, elas são sagradas.” Então se discute: “Não vamos pagar?”. Responde a direita: “Não, não é isso, tem que se pagar, mas não com reservas”. Então com o que se paga? Com recursos fiscais, ou seja, tem que se segurar os salários de trabalhadores e empregados do setor público. Isso era o que a direita queria.

Os idiotas a serviço do mercado

Tivemos um presidente que chamávamos Luis 32, que era [Fernando] De La Rua, porque era duas vezes mais imbecil que Luis 16. Então [Julio, vice-presidente argentino e opositor de Cristina Kirchner] Cobos agora é chamado de Luis 64, porque é duas vezes mais idiota que De La Rua e quatro vezes mais estúpido que Luis 16. Como esse é um país trágico, suponho que podemos chegar a Luis 128 se seguirmos assim… Então esse idiota [Cobos] vai assumir a presidência e já há programa econômico para ele. Já temos informações de alguns, e são terríveis. Não há mais o que privatizar, as grandes privatizações já foram feitas. De onde se pode tirar recursos agora? Apropriando-se dos US$ 50 bi das reservas, isso se daria como um grande golpe de mercado.

Meu ponto de vista é que esse programa econômico real da direita não se pode aplicar sem repressão. Estamos diante de uma situação muito grave na Argentina, e a tudo isso se soma que os EUA estão em uma ofensiva na América Latina, muito agressivos, com um golpe em Honduras, investidas na Colômbia, uma Quarta Frota dando voltas, tem seu aparato operando como há muito tempo não operava, a CIA, mobilizando políticos, máfias, grupos de forças armadas… Esses políticos idiotas da Argentina são um instrumento perfeito para os Estados Unidos.

Crise e decadência do capitalismo

A crise que está se aprofundando no mundo não é somente um tema econômico. Nesses dois anos se criou uma bomba financeira mais grave do que a que havia há quatro anos. O tema energético, dentro das regras, das normas de acumulação capitalista, não tem solução. Tampouco toda a cultura do capitalismo, cujo núcleo é sua capacidade de inovação, o que chamaríamos o sistema tecnológico do capitalismo. Então, a maioria pensante da humanidade, que não está louca como a elite, tem a perspectiva de sobreviver, e para sobreviver têm que inovar e essa inovação é a criação da contra-sociedade face à sociedade que está se despedaçando e que ameaça se destruir e destruir o planeta inteiro junto consigo.

Temos um precedente histórico terrível, que Marx já citava em seu Manifesto e em outros escritos de juventude: o terrível Império Romano. O Império Romano, que é uma obsessão para os ocidentais, em sua decadência arrastou todo o mundo romano consigo, mas a superação do Império só se produziu muitos séculos depois. Corremos o risco de estar numa situação similar, em que a decadência do capitalismo pode arrastar o planeta inteiro para o desastre.

Multipolarização ou despolarização?

O capitalismo está em uma larga marcha do que eu chamaria de construção de uma unidade imperial mundial. O pobre Karl [Marx], que era um homem muito prudente, e de tão prudente terminou muito mal sua vida, dizia que havia possibilidade de um super imperialismo mundial, e foi terrivelmente atacado por isso. Na verdade, ele colocava isso como uma possibilidade, mas uma possibilidade que, como a História mostrou, efetivamente se concretizou. A grande marcha do capitalismo, isso que os que se opõem entendem por imperialismo, começa a aparecer depois da Segunda Guerra Mundial, com um polo único de capitalismo mundial, e quando a tentativa de socialismo se destrói, esse passa a ser o único polo planetário. Ele se estrutura, ao mesmo tempo em que começa a aparecer também a própria decadência geral do capitalismo, o seu parasitismo.

O que estamos presenciando não é a substituição de um polo por vários polos, isso seria voltar um passo na História. Estamos presenciando um processo que chamo de despolarização. Porque quando a Bolívia se torna independente dos Estados Unidos e, por exemplo, há uma grande licitação para exploração mineral, vencida pela Índia, não se pode dizer que a Bolívia deixou de ser um país colonizado pelos Estados Unidos e agora é uma colônia da Índia. Isso seria uma loucura. A Bolívia é muito mais autônoma, conquistou níveis de liberdade e isso está acontecendo no mundo todo. Ou seja, não há multipolaridade. Há polos que vão aparecendo, mas são muito frouxos, o que existe são espaços de autonomia que estão crescendo no mundo. Caminhamos não para um mundo multipolar, mas sim para um mundo crescentemente despolarizado.

Estados-nação

Por um lado, há muitos Estados-nação que se tornaram inviáveis pelo próprio processo de globalização. Mas o processo de globalização acelerou o processo de unipolaridade, ou seja, um Estado, que é o estado norte-americano, assumiu uma massa de poder como nunca antes havia existido na humanidade. O início da globalização ou o que se chama globalização, se caracteriza por um crescente poder do super Estado norte-americano. Os EUA, para se ter uma ideia, gastam hoje, no setor de Defesa, quase 70% do que se gasta no mundo com despesas militares. É um Estado terrivelmente grande, gigantesco, mas ao mesmo tempo é decadente, este é o fenômeno.
O fim do Estado-nação, que apregoavam os neoliberais, era uma utopia idiota, porque era imaginar que podia existir uma espécie de capitalismo mundial sem Estado. E o capitalismo é indissociável da utilização da força bruta como recurso em última instância para que os pobres não se rebelem. Não há capitalismo sem Estado, e diria mais: se somos historiadores rigorosos, vamos descobrir que antes de existir a empresa capitalista privada, a indústria têxtil, por exemplo, havia a indústria militar que trabalhava para o Estado. O modelo da fábrica que se começa a utilizar na segunda metade do século XVIII em todo o Ocidente, e sobretudo na Inglaterra, é cópia exata da fábrica militar que começou a existir um pouco antes do século XVII. O Estado está na própria raiz do capitalismo, não há capitalismo sem Estado. Então era uma loucura dos neoliberais que imaginavam um capitalismo sem Estado, isso é absolutamente impossível.

O que temos visto é primeiro um processo de hiperconcentração do poder em um grande estado global, os Estados Unidos, e vemos a decadência desse poder; e da decadência desse poder começa a surgir a liberdade do homem sem necessidade, muitas vezes, de Estado. Quando Evo Morales fala de socialismo comunitário, ele está se referindo a um Estado que regule cada vez menos, e que cada vez mais a comunidade tenha mais autonomia. Isso não tem nada a ver com os neoliberais, essa é a antítese completa do neoliberalismo.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 84. Nas bancas.



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