“A sociedade já decidiu essa questão”

O ministro da Comunicação Social Franklin Martins, ex-líder estudantil e militante à época da ditadura, fala sobre a herança do autoritarismo e sentencia: “O povo brasileiro conheceu foi a ditadura, ‘ditabranda’ não conheceu, não”...

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O ministro da Comunicação Social Franklin Martins, ex-líder estudantil e militante à época da ditadura, fala sobre a herança do autoritarismo e sentencia: “O povo brasileiro conheceu foi a ditadura, ‘ditabranda’ não conheceu, não”

José Cruz/ABrJosé Cruz/ABr

Fórum – Qual o principal fardo que a atual democracia carrega da ditadura militar?
Franklin Martins –
Ela não deixou legado, deixou lições. Que não se deve conformar com agressões à democracia como a que foi feita pelos militares e pelos setores de direita, que em 20 anos escreveram o período mais negro da história do Brasil. Por outro lado, a ditadura ensinou ao povo brasileiro que só lutando se resolvem esses problemas, que só não aceitando a ditadura você constrói a democracia. Acho que o Brasil hoje é um país muito mais democrático do que era antes de 1964 e isso porque a resistência à ditadura se deu de diferentes formas, em momentos distintos, com maior intensidade em algumas horas, menor em outras, mas de forma permanente.

Fórum – Quando se deu o golpe, houve forças políticas que apoiaram, incentivaram e inclusive financiaram a ditadura. Isso existiu no próprio jornalismo. Houve uma mudança de consciência desses setores da sociedade, ou eles foram derrotados?
Martins –
Em 1964, havia um setor da direita da política brasileira que acreditava que ia fazer o que sempre tinha feito: batia na porta dos quartéis, os militares saíam, davam o golpe e depois entregavam o poder aos civis de direita. Só que não aconteceu isso, os militares não entregaram o poder de volta, se instalaram e passaram a ser o centro do poder. Isso fez com que muitas forças políticas e empresariais fossem tomando distância em relação a eles e progressivamente se afastando do regime; muitas vezes, até passando à oposição. Essa situação aconteceu no caso dos jornais, que apoiaram abertamente o golpe, pediram o golpe, e depois passaram a adotar uma distância em relação à ditadura, o que foi positivo, porque ajudou a isolar a ditadura e, portanto, permitiu com que fosse menos complicado derrubá-la.
O processo de luta contra o regime é um processo de somar forças. Eu não sou daqueles que ficam cobrando quem apoiou o golpe nesse ou naquele momento. Se o sujeito depois de 5, 10, 15 anos, viu que estava errado, ótimo. O importante era afastar a ditadura. Mas quem ficou grudado na ditadura por muito tempo não tem condições de dar lição de democracia para quem lutou desde o primeiro momento.

Fórum – O senhor acha que a anistia deve ser revista?
Martins –
Não quero dar declarações como se fosse uma pessoa qualquer, evidentemente isso afeta a política de governo. A política de governo é que a interpretação da lei da anistia deve ser feita pelo Poder Judiciário. Não vou me pronunciar como interpretaria, porque como ministro estaria parecendo que é uma posição oficial. O que posso dizer é que eu lutei contra a ditadura do primeiro ao último momento. Cometi erros, acertei muita coisa, mas só não cometi dois erros: o mais grave de todos, não apoiei a ditadura um segundo, e isso é algo do qual muito me orgulho; o segundo erro que não cometi é que não me omiti nunca, mesmo em condições dificílimas. Cometi erros políticos, podia ter lutado melhor, com mais competência, eficiência aqui ou ali, nesse ou naquele momento. Mas só quem não luta não erra.
Hoje, não vivo mais na clandestinidade, e vivi cinco anos e meio na clandestinidade durante a ditadura. Agora posso falar de tudo o que eu fiz. Aqueles que torturaram, sequestraram, mataram, esses vivem na clandestinidade até hoje. Eles não podem falar do que fizeram, têm vergonha, não conseguem defender. Não podem falar para os filhos ou netos. Viverão eternamente na clandestinidade. Seja qual for a decisão do Judiciário, eu acho que a sociedade brasileira já decidiu essa questão.

Fórum – Como o senhor vê a classificação da ditadura como “ditabranda” em recente editorial da Folha?
Martins –
Acho que foi um momento muito infeliz da Folha de S. Paulo. O povo brasileiro conheceu foi a ditadura, “ditabranda” não conheceu, não.

Fórum – Hoje, onde podemos identificar os resquícios da ditadura?
Martins –
As duas grandes chagas do Brasil foram a escravidão e a ditadura. A escravidão fez com que boa parte da elite e o Estado brasileiro vissem o trabalhador – porque os escravos eram os trabalhadores daquela época – como alguém que não era um ser humano. E isso passou pela nossa cultura. Nós temos superado muito disso, mas ainda existe. Existem setores e instituições no Brasil que têm marcas desde a escravidão, e que no período da ditadura ajudou a dar fôlego. O fundamental para isso é entender que todo cidadão tem que ter os seus direitos respeitados, não pode ser acusado sem provas, sua saúde física e mental tem que ser garantida. Evidentemente que há problemas, mas avançamos muito. F



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