A tarefa de trabalhar o legado de Chico Mendes

Vinte anos após a morte do líder seringueiro, sua filha Elenira Mendes conta que o pai anteviu a importância que a questão ambiental teria no mundo de hoje. Elenira Mendes, filha de Chico com...

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Vinte anos após a morte do líder seringueiro, sua filha Elenira Mendes conta que o pai anteviu a importância que a questão ambiental teria no mundo de hoje.

Elenira Mendes, filha de Chico com Ilzamar, passou toda sua infância e parte da adolescência distante das idéias do pai. “Era muito resistente a tudo isso, porque a única lembrança que tenho dele foi sendo assassinado, morrendo, caindo no chão nos meus braços, essa é a única lembrança”, recorda. “Até que eu tive acesso a uma foto minha em que atrás ele deixou uma dedicatória, na qual dizia que eu era a ‘vanguarda da esperança‘ e dizia que eu daria continuidade à luta que ele não conseguiria vencer.”
Elenira conta que aquilo foi como um choque para ela, e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de um legado. “Talvez ele olhasse para mim e visse esse referencial de que a filha e os filhos dele dessem continuidade a esse movimento, que era preciso novas lideranças surgissem. E por que não os jovens, os filhos dele?”. A partir desse momento , Elenira começou a se envolver e, em 2006, participou da criação do Instituto Chico Mendes, com a missão de preservar e disseminar os ideais de Chico Mendes e fortalecer a luta dos povos da floresta. Confira abaixo a entrevista que Elenira concedeu à Fórum.

Fórum – Qual o grande legado do seu pai para os dias atuais?
Elenira Mendes –
A importância da preservação do movimento em defesa da Amazônia, do movimento dos seringueiros. Isso percorreu todo o mundo. Esse foi um grande legado, hoje as pessoas reconhecem na área ambiental a importância que teve a luta de Chico Mendes, de sua luta como seringueiro, uma pessoa que não tinha o estudo científico, mas tinha o saber da floresta. Reconhecem também a importância de ele ter percebido que as florestas deveriam continuar em pé, preservadas, para que hoje a gente não estivesse discutindo tanto sobre aquecimento global e mudanças climáticas. Tudo isso, há mais de 20 anos,já era avisado por um grupo de seringueiros que nem ao menos sabiam escrever seu nome, mas que diziam da importância de se preservar a floresta.

Fórum – Mas, além da questão ambiental, ele também inovou em termos de luta política, de organização dos trabalhadores, não?
Elenira –
Com certeza vai além da questão ambiental. O próprio movimento em defesa do direito dos seringueiros mostra isso. Ele foi uma pessoa que, apesar de não ter muito conhecimento, surgiu como uma liderança, na época, de defesa da Amazônia. Vejo-o em três, como o Chico sindicalista, o Chico ambientalista, e o Chico político, ele atuou muito bem nessas três áreas. O movimento dele foi muito além do ambiental. Ele soube administrar muito bem essas três fases na vida dele, que aconteceram automaticamente.

Fórum – Como a figura dele influenciou sua formação?
Elenira –
Passei muito tempo da minha infância e da minha adolescência, até o período dos meus 18 anos, muito resistente a tudo isso, porque a única lembrança que tenho do meu pai foi dele sendo assassinado, morrendo, caindo no chão nos meus braços, essa é a única lembrança. Resisti muito a me envolver nisso tudo. Até que tive acesso a uma foto minha em que atrás ele deixou uma dedicatória, em que ele dizia que eu era a vanguarda da esperança. “Elenira dará continuidade à luta que seu pai não conseguirá vencer”, dizia. A partir desse momento, foi como se eu tivesse sentido um choque mesmo, era importante que eu, como filha, visse todo esse movimento, toda essa luta dele de uma outra forma. Precisava me envolver e dar continuidade a todo esse legado, porque ele sabia que ia morrer. Tinha consciência disso, mas também tinha consciência de que era importante passar isso pra outras pessoa. Ele viu em mim, talvez quando estivesse escrevendo isto, esse referencial de que a filha e os filhos dele dariam continuidade a esse movimento. A partir desse momento comecei a me envolver, e em 2006, criei o Instituto Chico Mendes com a missão de preservar e disseminar os ideais dele e fortalecer a luta dos povos da floresta.

Fórum – Hoje o instituto é sua atividade principal?
Elenira –
Sou formada em Administração e pós-graduada em Gestão de Recursos Ambientais e tenho trabalhado com educação ambiental, com jovens. Um dos focos principais é trabalhar com os jovens.

Fórum – É uma forma também de formar novos líderes?
Elenira –
Sim, de formar novos líderes, passar para esses jovens a importância da história de Chico Mendes, a importância de se manter vivo esse legado, de sermos um agente de mudança em nossa sociedade, em nosso local de trabalho, na escola, na comunidade. O poder que nós, jovens, temos de influenciar na sociedade.

Fórum – Você enxerga muita gente que se apropria de forma indevida da imagem de seu pai?
Elenira –
Hoje meu pai não é mais só um homem do Acre, de Xapuri, mas é um homem do mundo. Claro que algumas pessoas se apropriam indevidamente, mas não queria me ater a isso. Queria falar sobre a importância que teve a história dele. Hoje, ele é conhecido mundialmente quando se refere a meio ambiente, sobre a importância de 20 anos depois ter se difundido a luta e o legado que ele deixou. Agora, o Acre está desenvolvido, procurando cada vez mais melhorar, adaptar os ideais do movimento, que havia. Isso pra mim é o mais importante hoje.

Fórum – Na última disputa eleitoral, teve essa questão do gado, que era algo que seu pai combatia muito, porque a expansão devastando os seringais. Essa questão voltou. Como você vê hoje isso em Xapuri?
Elenira –
Xapuri esta vivendo um momento político delicado. Passamos quatro anos com um prefeito [Vanderley Viana é ex-cunhado de Darly] que era o mesmo da época em que meu pai foi assassinado, foram quatro anos de muito sofrimento na cidade. A cidade se encontra completamente destruída. Mas por quê? Porque infelizmente tivemos uma gestão passada de um companheiro do meu pai, Julio Barbosa, que teve dois mandatos e no último ele não administrou muito bem a cidade. Houve várias coisas que não cabe a mim julgar, e que trouxe uma revolta da população muito grande, o que elegeu o Vanderley como prefeito e todo mundo pagou o preço. Mas teve as eleições e o PT saiu vitorioso nas urnas, e vamos esperar que a gente possa viver um novo momento em Xapuri, porque precisamos muito. Uma cidade que foi considerara princesinha do Acre, hoje é a cidade mais feia do estado. Não dá para trabalhar turismo na cidade, não dá para ela crescer, se desenvolver, com a gestão que nós estávamos vivendo.

Fórum – Existe a possibilidade de você colaborar de alguma forma com essa administração nova que vai entrar ano que vem?
Elenira –
Eu sempre colaborei com o município de Xapuri, meu trabalho foi sempre voltado para o município, independente de ter sido o Vanderlei nesses últimos quatro anos. O que eu fiz, sempre procurei voltar para Xapuri, trabalhei uns tempos com a juventude, porque ela estava totalmente abandonada. Independente de política, de posição partidária, o meu empenho é sempre em ajudar a comunidade de Xapuri. Vou continuar colaborando e já estou colaborando.

Fórum – Mas participando de alguma secretaria?
Elenira –
Não, isso é descartado. Acho que posso fazer muito mais junto do Instituto Chico Mendes do que em secretaria.

Fórum – Hoje, depois de tudo o que foi apurado e investigado, você acha que os assassinos de seu pai foram só aqueles, o Darly Alves da Silva e seu filho Darci Alves Pereira, ou tem mais gente envolvida que nunca vai poder ser condenada porque não existem provas?
Elenira –
Com certeza. Não acredito, nunca acreditei e nunca vou acreditar que o Darly e o Darci foram os únicos responsáveis pelo assassinato do meu pai. Com certeza muitas pessoas grandes da época fizeram parte, e que jamais serão condenadas pela justiça do homem. Essa é uma questão muito delicada, mas tenho certeza que não só o Darly e o Darci fizeram parte desse complô que tirou a vida do meu pai.

 



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