A voz que ecoa da cratera

Um fenômeno de co­municação está pres­tes a acontecer na maior cidade do Brasil. No entanto, você não verá tal notícia na abertura do Jornal Nacional ou nas primeiras páginas dos principais jornais do país....

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Um fenômeno de co­municação está pres­tes a acontecer na maior cidade do Brasil. No entanto, você não verá tal notícia na abertura do Jornal Nacional ou nas primeiras páginas dos principais jornais do país. O processo de regularização de rádios comunitárias na cidade de São Paulo está em vias de ser concretizado e deverá ser autorizado o funcionamento de 40 emissoras, dando voz às comunidades dos quatro cantos da metrópole. A de Heliópolis, na Zona Sul – segunda maior favela da América Latina, com 125 mil moradores – largou na frente e obteve a primeira autorização de funcionamento, concedida pelo Poder Executivo em março deste ano. Cada região da periferia tem suas peculiaridades e demandas sociais próprias, amplamente discutidas nos microfones das rádios. Porém, dentre estas que deverão ser legalizadas, uma localizada no bairro de Vargem Grande, na região de Parelheiros, extremo sul, chama atenção pela importância de sua existência.
A rádio Cratera FM, além de divulgar notícias locais, trabalha com a conscientização ambiental para os moradores, que pode resultar não só na melhoria da qualidade da água que mais de 1 milhão de paulistanos consome como também na preservação de uma área com importância arqueológica e geológica mundial. A cratera de Colônia, como é conhecida na região, constitui uma enorme cavidade com 3,34 quilômetros de diâmetro e aproximadamente 450 metros de profundidade, e foi formada pela queda de um meteorito há cerca de 40 milhões de anos. Estima-se que o impacto tenha sido equivalente à potência de 15 milhões de toneladas de dinamite. A enorme depressão formada, atualmente próxima dos 100 metros de profundidade, foi preenchida com sedimentos de rochas e transformou-se numa espécie de monumento geológico.
A da cidade de São Paulo apresenta as melhores condições em toda a América do Sul para pesquisas sobre variações climáticas, registradas nas diversas camadas de sedimentos ali depositadas. “Atualmente, além de patrimônio natural tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), o local deverá ser reconhecido pela ONU como patrimônio geológico mundial”, esclarece Victor Fernandez Velázquez, professor de Ciências da Natureza da USP-Leste, que vem estudando a região há mais de quatro anos.
Mas o papel da Cratera FM, 107,5 MHz, não se limita em informar à população a respeito da importância científica do local. Alertas também são feitos aos moradores sobre o despejo de lixo e esgoto, sejam eles residenciais ou industriais.
A cratera foi povoada por um grande loteamento, o condomínio Vargem Grande, onde 45 mil pessoas convivem com um Centro de Detenção Provisória (CDP), que até 2002 foi uma unidade da extinta Febem. A maioria mora de forma irregular, já que a área é de preservação de mananciais.
“A cratera atua como uma minibacia, que coleta água tanto da chuva quanto dos esgotos. E tem uma saída, chamada ribeirão Vermelho, que cai no braço de Itaquaquecetuba que, por sua vez, alimenta a represa Billings”, explica Velázquez. A represa Billings é o maior manancial em área urbana do mundo e fornece água a 1,6 milhão de pessoas na Grande São Paulo. Outro problema grave é a contaminação do lençol freático, já que a queda do meteorito formou um sedimento mais solto, comparado à areia de praia, na profundidade do terreno. “A água limpa da chuva e o esgoto penetram facilmente ali e também vão para o lençol freático. Não adianta tombar e criar lei específica para o local se o poder público não resolve o problema do saneamento básico na região”, diz.
Negligenciado pelos governantes, o papel de conscientização partiu das lideranças comunitárias do local, que fundaram a Associação Comunitária Habitacional Vargem Grande (AChave) no começo da década de 90. Sebastião Camargo, ex-presidente por 12 anos da associação, comanda há dez anos o programa Ecologia com educação ambiental, todos os dias, das 8 às 10h da manhã. “O que eu mais falo na rádio é que nós estamos gastando mais do que o planeta pode oferecer. E o negócio não é só colocar placa. O mais difícil é a conscientização do ser humano”, diz.
Ele explica que a rádio caiu como uma luva para as principais campanhas que a liderança comunitária na época queria passar aos moradores. “Comprar papel é caro, mas a gente entregava uns jornaizinhos para chamar o pessoal para as assembléias. Depois, por meio da rádio ficou melhor, porque a informação chega lá pra dona de casa lavando roupa, na cozinha, no banheiro. Chega na obra onde o trabalhador está lá, sabendo das novidades do bairro.” O locutor, de 66 anos, impressiona quando começa a explicar sobre a importância geológica da cratera e sobre a preservação ambiental do local. “Devo ter uns 50 certificados de cursos, grande parte pela Secretaria do Meio Ambiente aqui de São Paulo. Fiz curso de legislação ambiental, de meteoritos, no planetário, de mananciais, de como ser líder, de negociadores, de locução, de rádio comunitária, e outros”, explica. “Hoje discuto sobre legislação ambiental, por exemplo, com qualquer um”, assegura.
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