Afeganistão: o bombardeamento em Kunduz

É que foram precisamente tropas alemãs estacionadas no Afeganistão que estiveram na origem do bombardeamento, de que resultou a morte, segundo as primeiras notícias, de 90 pessoas, mas segundo últimos dados, publicados pelo Washington...

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É que foram precisamente tropas alemãs estacionadas no Afeganistão que estiveram na origem do bombardeamento, de que resultou a morte, segundo as primeiras notícias, de 90 pessoas, mas segundo últimos dados, publicados pelo Washington Post, de 125 pessoas. Neste número encontram-se incluídos talibãs e civis, estando ainda por apurar o número exacto de civis mortos.

Segundo aquilo que, para já, foi transmitido à comunicação social, passou-se o seguinte: como já foi noticiado, um grupo de combatentes talibã desviou dois camiões-tanque de gasolina, que se destinariam às forças armadas alemãs. Alguns quilómetros mais à frente, os camiões ficaram atolados num lamaçal. Os talibã foram então a uma aldeia próxima buscar camponeses, para virem com os tractores ajudar a desatolar os camiões.

Entretanto, as forças armadas alemãs tinham um informador no terreno, que, por telefone, lhes terá indicado o que se estava a passar e a posição exacta dos camiões. Segundo o comando alemão, o informador ter-se-á apenas referido à presença de combatentes talibã. O comandante da base alemã requisitou ao comando da ISAF uma intervenção aérea, fornecendo as coordenadas exactas do lugar em que se encontravam os camiões atolados. Em resposta a este apelo, foi enviado um primeiro bombardeiro, que confirmou a situação, mas regressou imediatamente por escassez de combustível. O comando alemão requisitou então o envio de dois aviões de combate. Seguidamente, por ordem do comandante alemão, os aviões de combate da ISAF lançaram duas bombas contra os camiões, destruíndo-os e matando quem se encontrava à volta deles.
Na Alemanha multiplicam-se agora as perguntas sobre as causas desta tragédia. As forças armadas alemãs, a Bundeswehr, e o ministro da Defesa, Franz Josef Jung, da CDU, defendem a legitimidade da intervenção, considerando que nada existe que possa ser censurado às forçãs alemãs no Afeganistão, que requisitaram a intervenção e ordenaram o ataque. Depois, contra o resultado das investigações já realizadas, recusam-se a aceitar o número de vítimas indicado pela NATO e publicado pelo Washington Post, 125, dizendo que seriam entre 50 e 60, e todas combatentes talibã. Este ministro afirma portanto que não houve vítimas civis, o que levou já o Die Linke a classificar as suas informações como política governamental de desinformação e a querer levar o assunto ao parlamento alemão. Os Verdes exigem uma explicação formal da chanceler Angela Merkel, em nome do governo federal.

Também os esclarecimentos do caso apresentados pelo ministro da Defesa alemão são inconsistentes. O Sr. Jung, apoiando a posição do responsável militar alemão, chega ao ponto de afirmar que se tratou até de uma manobra defensiva, porque havia o receio de que os talibã estivessem a planear usar os camiões de gasolina para um ataque contra as forças alemãs. Como se os taliban não estivessem equipados com armamento moderno e para atingir a base alemã fossem agora tentar atirar camiões de combustível contra ela! E pergunta-se também que informações terá o sr. Jung sobre os planos estratégicos dos talibã, para poder avançar uma hipótese destas com tanta autoridade, uma vez que, que se saiba, os talibã não o mantêm ao corrente daquilo que planeiam.

Porém, o certo é que as explicações do Sr. Jung e da Bundeswehr não merecem credibilidade, nem na Alemanha, nem por parte dos seus aliados. O caso tem tanta relevância que o próprio comandante da ISAF, general Stanley McChrystal, numa medida excepcional, já se dirigiu pela televisão ao povo afegão, para tentar acalmar os ânimos, prometendo o esclarecimento completo da situação.

Entretanto, do inquérito realizado até agora pela NATO já resultou que as forças alemãs violaram pelo menos uma regra fundamental: justamente para evitar casos como este, nunca ordenar um ataque com base em informações de apenas uma fonte, como aqui sucedeu. E o Ministério Público de Potsdam, cidade onde se encontra sediado o comando das chefias das intervenções militares alemãs no estrangeiro, está a examinar a possibilidade de levantar um processo-crime por homicídio contra o comandante alemão que requisitou a intervenção e ordenou o ataque.

Também países da União Europeia como a França, Itália e Luxemburgo já condenaram o ocorrido. O ministro dos negócios estrangeiros francês Bernard Kouchner chamou-lhe um "grande erro", os ministros dos negócios estrangeiros de Itália e do Luxemburgo, respectivamente Franco Frattini e Jean Asselborn, falam de "acções que nunca deveriam ter acontecido.

A chanceler Angela Merkel prometeu ontem um rápido esclarecimento do ocorrido. Aguardam-se os ulteriores desenvolvimentos do caso.

Com informações do Esquerda.net.



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