Ah, se não fosse o Plínio!

Muito se falou sobre a enchente que destruiu um dos mais belos patrimônios históricos e culturais do Brasil: São Luiz do Paraitinga. Não vou repetir. Mas fico me lembrando das coisas boas do povo de...

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Muito se falou sobre a enchente que destruiu um dos mais belos patrimônios históricos e culturais do Brasil: São Luiz do Paraitinga. Não vou repetir.

Mas fico me lembrando das coisas boas do povo de lá. Triste, revoltado com vontade de chorar, via e lia sobre toda a destruição, havia muito prejuízo. Porém, o que não só eu, mas o que muita gente considera mais importante estava a salvo: ninguém morreu – depois se soube que um homem que tentava desobstruir uma estrada de terra foi soterrado por uma avalanche.

O “ninguém morreu” aí vai além das importantíssimas vidas humanas, cada pessoa ali traz em si um patrimônio importante: o patrimônio imaterial de São Luiz – seu povo e sua cultura – é maior do que as construções. Certo, é lamentável demais toda a perda. Mas esse patrimônio humano e imaterial estava a salvo, graças à ação de rapazes de companhias de rafting que agiram desde o primeiro momento com seus botes a remo.

Já tinham salvado muita gente quando os bombeiros chegaram. E pior: chegaram mal estruturados, com apenas um bote inflável motorizado que demorou horas para ser inflado e depois viram que ele não tinha combustível. Segundo me foi dito, fizeram apenas duas viagens. Quando consegui chegar à entrada da cidade, na segunda-feira todos falavam do heroísmo dos rapazes do rafting.

Fui impedido de levar, com amigos e um morador, comida e roupa para pessoas que se abrigaram numa pousada. A defesa civil alegava que um poste à beira da única ponte que permitia o acesso à cidade estava para cair. E poderia cair na nossa cabeça. Simplesmente proibia até os moradores de entrarem ali. O que me irritava é que autoridades passavam pela ponte a toda hora. Pensei: será que poste não cai na cabeça de autoridade?

Depois vi matérias nos jornais e na TV, dizendo que o governo do estado estava presente lá desde o início da tragédia. Dava até para pensar: “Ah, se não fosse ele…”. Escrevi para jornais, mas eles não publicam nada que possa prejudicar a imagem de certos políticos. Eu me lembrava do pessoal falando que se dependesse da ação do governo estadual poderiam ter morrido até quatrocentas pessoas, e murmurando entre os dentes que os representantes do estado que foram para lá fizeram muitas trapalhadas. Quando vinha um grupo, sussurravam: “Lá vêm os Trapalhões”.

Lembrei-me então dos tempos em que o carnaval de São Luiz recomeçava. Era final da década de 1970. Saíamos em pequenos blocos e nos divertíamos. Eu e minha namorada participávamos do bloco Peida n’água, que saía da chácara do nosso amigo Américo, onde nos hospedávamos quando a cidade não tinha nenhuma infra-estrutura hoteleira. Escolhíamos o tema no sábado de manhã, compúnhamos a marchinha imediatamente e saíamos em um pequeno grupo com pouco mais de dez pessoas em direção ao centro da cidade, a cerca de seiscentos metros. No caminho, iam se juntando pessoas com instrumentos musicais ou sem nada, algumas fantasiadas, e se juntavam ao bloco, assimilando a música, tocando, cantando e dançando. Quando chegávamos à praça já éramos muitos.

No início dos anos 80 muita gente queria ir a São Luiz no Carnaval (nada que se compare à multidão que passou a ir festejar lá), mas a cidade continuava não tendo condições de hospedagem. Então, o Américo e a Rose limparam uma área da chácara e a transformaram num acampamento para amigos. Foram montadas mais de dez barracas de amigos de São Paulo e do Rio.

Entre os que foram lá naquele ano, estava o Plínio, sócio do teatro Lira Paulistana, de São Paulo. Ele pensou: “Vou dar despesas, então tenho que colaborar”. E resolveu levar um monte de frutas. Banana, manga, caqui, pera… Tudo isso tinha de monte na chácara. No meio de um monte de cachos de banana pendurados na cozinha, de vez em quando alguém pegava uma para comer e brincava: “Ah, se não fosse o Plínio!”. Como isso se repetiu direto, o tema do nosso bloco naquele ano foi justamente essa história. Compusemos a marchinha e saímos rua afora. A cidade inteira cantou “ah, se não fosse o Plínio!”.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 82. Nas bancas.



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1 comment

  1. chicoquintanilha

    boa materia! MAIS VAMOS FAZER A CIDADE TODA CANTAR DE NOVO,HOMENAGEANDO; CARMEM MIRANDA COM ACABOU O CAQUI MARCHINHA DE CARNAVAL MUITO BOA….. http://www.youtube.com/watch?v=4uQMJR1y860 PARABENS PELO O TRABALHO DE VCS… AQUELE ABRAÇO>>

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