Amazônia sustentável

O Fórum Social Mundial, como espaço de diferentes iniciativas, integra diferentes Fóruns, que realizam seus encontros também nos eventos do FSM. Em Belém, em janeiro deste ano, eles debateram diversos temas, tais como a...

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O Fórum Social Mundial, como espaço de diferentes iniciativas, integra diferentes Fóruns, que realizam seus encontros também nos eventos do FSM. Em Belém, em janeiro deste ano, eles debateram diversos temas, tais como a mercantilização da educação, a justiça ambiental, a segurança alimentar, o trabalho escravo, os direitos humanos, a cultura da paz, a soberania popular, o modelo energético, o desmatamento etc. Mas nenhum deles teve tanto destaque como a questão amazônica. O Fórum Pan-Amazônico ocupou todo o dia 28 de janeiro discutindo a região, considerada inseparável do resto do mundo.
De certa forma, a Amazônia é responsável pelo equilíbrio do próprio planeta. Neste Fórum ficou claro que o crescimento econômico não pode prescindir da defesa do meio ambiente. Concepções diferentes e até antagônicas de projetos e planos para a região estavam na pauta, como o acesso, uso e controle dos recursos naturais que são hoje objeto de disputas acirradas. O FSM de Belém mostrou a centralidade da questão ambiental na definição dos modelos de desenvolvimento e da organização social, não só para o Brasil, mas para o mundo.
Ficou evidente que as elites brasileiras não precisaram de dinheiro para se apropriar da terra na Amazônia, fazendo-o por meio de artifícios legais, expulsando os indígenas, impondo um modelo econômico predatório e concentrador de renda. Por isso o capitalismo brasileiro é tão cruel. Nesse contexto foi dito que o principal problema local continua sendo a grilagem, que desembocou no modelo de desenvolvimento atual, que tem o desmatamento e as queimadas como suas consequências. Mas a Amazônia tem outros desafios, como o trabalho escravo, a exploração da mulher e a pobreza. O aumento das atividades econômicas na região não se traduziu em benefícios duradouros para a população dali.
Os amazônidas estão lutando por um desenvolvimento justo e não predatório da região. Segundo a “Carta Compromisso” do Fórum Amazônia Sustentável, lançado em novembro de 2007, também em Belém, “a Amazônia representa uma oportunidade única para que se alcance um modelo de desenvolvimento inovador e sustentável, com os devidos cuidados no uso dos recursos naturais, sem desperdícios e em benefício de todos, garantindo condições dignas de vida para suas populações, a valorização do seu patrimônio cultural e a conservação do patrimônio biológico”.
O desafio é mudar a rota do desenvolvimento e caminhar em direção à sustentabilidade. E para que a sustentabilidade aponte a um outro mundo possível é necessário que consideremos não só o ecológico, mas também o social. A sustentabilidade ecológica diz respeito ao meio ambiente, à demografia, recursos naturais e ecossistemas. Ela se refere à base física do processo de desenvolvimento e à capacidade da natureza de suportar a ação humana, com vistas à sua reprodução, e aos limites das taxas de crescimento populacional. Já a sustentabilidade social refere-se à cultura, à política, à manutenção da diversidade e das identidades. Ela está diretamente relacionada com a qualidade de vida das pessoas, da justiça distributiva e com o processo de construção da cidadania e da participação das pessoas no processo de desenvolvimento.
Marx dizia que o capitalismo não esgota apenas o trabalhador. Ele esgota também o planeta. O modelo capitalista é que está em questão. É ele que está esgotando tanto as pessoas quanto o planeta. A questão ambiental depende da consciência ecológica e esta, da educação. Por isso, precisamos educar para a sustentabilidade, que é, também, educar para o uso de fontes renováveis de energia, para economizar energia e rever nosso modo de vida, portanto, educar para o consumo sustentável. Mas seria falso se insistíssemos apenas na mudança de comportamento dos indivíduos, deixando em paz o sistema. A mudança das pessoas e do sistema é um processo único.
A educação deve formar cidadãos para a participação. Mas, para educar para e pela cidadania, ela precisa ensinar, também, como funciona o sistema financeiro, os bancos, as empresas, como funciona um paraíso fiscal, quem ganha e quem perde nas relações comerciais internacionais, como se usam os recursos naturais, como funcionam as organizações internacionais etc. Para alcançarmos a sustentabilidade precisamos ir além da necessária educação ambiental. Nesse sentido, a escola cidadã não é só aquela que dá exemplo de cidadania e de sustentabilidade, mas aquela que ensina, pelos seus conteúdos, pelo seu currículo escolar, como funciona o mundo social, político e econômico. O desafio é mudar o sistema de vida na Terra, o sistema capitalista.
Enfim, a definição que dermos à Amazônia servirá como diretriz para o tipo de Brasil que queremos, para que tipo de mundo queremos. Por isso é tão importante a sustentabilidade da Amazônia. A região está oferecendo uma chance sem precedentes para o mundo e, particularmente, para o Brasil. Ele pode inserir-se de forma protagônica numa nova ordem planetária.
No próximo número falaremos do FSM como espaço de incubação de novas iniciativas. F

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