Aprender na floresta, às margens do rio

Ao chegar à comunidade dos tumbiras, em Iranduba, nosso primeiro contato foi com a estudante Elaine Ramos Garrido, de 15 anos. Ela estava atendendo na pequenina bodega de madeira localizada exatamente em frente à...

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Ao chegar à comunidade dos tumbiras, em Iranduba, nosso primeiro contato foi com a estudante Elaine Ramos Garrido, de 15 anos. Ela estava atendendo na pequenina bodega de madeira localizada exatamente em frente à escola local. Imagino que aquele seja o único ponto comercial dali. Aliás, esse tipo de comércio exclusivo é muito comum nas comunidades ribeirinhas. Em geral, costumam vender de 30 a 50 produtos essenciais, pacote de fósforos, tubo de pasta de dentes e refrigerante gelado. O calor imenso dessa região amazônica torna qualquer coisa gelada fundamental para o bem-estar. Para quem não leu a primeira reportagem desta série, publicada na edição anterior, vale lembrar que a intenção é a de contar histórias de uma viagem de dez dias e nove noites de barco pelas comunidades ribeirinhas do rio Negro, no denominado arquipélago das Anavilhanas. E ao mesmo tempo refletir sobre temas que certamente serão discutidos no Fórum Social Mundial, a ser realizado em Belém de 27 de janeiro a 1o de fevereiro.
Elaine está na 6a série e é sobrinha da professora Isolena da Silva Garrido, 34 anos. Foi Elaine quem primeiro nos apresentou a escola. Uma construção de madeira coberta de telha de amianto (foto ao lado) e sapé, sem janelas, completamente aberta e com vista para o Negro. Claro que isso encantou o repórter. Mas como nem tudo é tão simples, Elaine nos devolveu à realidade no minuto seguinte. “É muito ruim quando chove. A gente fica sem aula. E o sol também atrapalha bastante. Às vezes não dá para enxergar o que a professora passa na lousa.” Até por isso um novo prédio está em construção.
Para que o leitor não se engane, essa foi a única escola nesse padrão que encontramos pelo caminho. Todas as outras eram de alvenaria e relativamente bem equipadas. Mas se as construções são razoáveis, não se pode dizer o mesmo do cotidiano vivido pelos educadores locais. O depoimento de Isolena é significativo das muitas conversas que tivemos com outros professores pelo caminho. Ela leciona da 1ª a 9ª série em turmas multisseriadas. A primeira turma é de alunos da 1ª a 5ª série. São 23 e todos na mesma sala. Na outra turma, de 6ª a 9ª, 17.
Isolena é nascida e criada na comunidade. Terminou o ensino médio e depois fez o magistério. Neste ano de 2008 está completando a faculdade. “Não fosse daqui, dificilmente aceitaria essa rotina pelo salário que ganho.” É verdade. As comunidades que ainda não conseguiram formar professores têm muita dificuldade. Uma delas é que, por conta das distâncias que percorrem, os professores acabam chegando às segundas no fim da tarde ou da noite. E vão embora às sextas pela manhã. Por conta disso, as aulas de segunda e sexta acabam sendo perdidas. É o caso da comunidade Costa do Arara, onde vivem 64 famílias. Passamos pelo local exatamente numa segunda-feira e as pessoas esperavam o último barco para ver se a professora chegava para a aula da noite.
Na Costa do Arara, a luz ainda não chegou, como em muitas outras comunidades, e o motor que ilumina o local é o que foi comprado com os recursos da educação. Ele fica ligado para um pouco além do horário das aulas, o que faz com que cada família tenha de contribuir com recursos para a compra de dez litros de diesel por mês.

Mesmo sem receber, ela dá as aulas
Mas, retomando o depoimento de Isolena, apesar de ter apenas 34 anos já trabalha há 14 como professora e recebe salário bruto de R$ 540. “Faz oito anos que não tenho aumento. E não recebo pelo período da noite por questões burocráticas, mas assim mesmo continuo dando essas aulas, porque sei que o mais importante é dar oportunidade para outras pessoas.” As aulas da noite que Isolena ministra voluntariamente é para o pessoal da EJA (educação de jovens e adultos). Os alunos, quase todos, são pais que voltaram a estudar.
Na nossa visita, foi fácil verificar que Isolena tem compromissos reais com a educação da sua localidade. Enquanto conversávamos, muitas pessoas se aproximavam para elogiá-la. Um casal, por exemplo, fez questão de dizer que não consegue entender como Isolena ainda dá aulas à noite sem receber. A esposa foi ainda mais direta: “Ela tem que vir pelo meio do mato até chegar aqui e no caminho tem cobras e tudo é escuro. Nós colocamos um lampião na porta de casa só para iluminar a passagem para ela. E a gente fica sempre atento para a hora que ela passa depois da aula. E ela tem os filhos dela, mas mesmo assim vem dar aulas para a comunidade sem ganhar.” Mas a mesma Isolena que se dedica para formar cidadãos, tem opinião polêmica em relação à preservação da floresta. “Nós somos um povo que lutamos muito para sobreviver e essa luta sempre passou pela exploração da madeira. Hoje, como a nossa região virou uma área de proteção ambiental, nos sobrou a miséria e o fato de não ter trabalho. Sei que só há uma saí­da para que a gente saia dessa situação, que o povo daqui tenha oportunidade de estudar. Mas enquanto isso não acontece o povo tem que ter o direito de viver, mesmo que isso implique cortar árvores.” Isolena é crítica à ação do Ibama. Aliás, não só ela. E por isso vamos tratar dessa questão na próxima edição. Para pontuar o que chama de situação crítica em relação ao mundo do trabalho, Isolena apresenta um dado tão desolador quanto impactante: “Os únicos assalariados aqui na nossa comunidade somos eu e os aposentados”. E finaliza: “enquanto isso não muda, nós continuamos sendo ladrões do que é nosso para sobreviver”, diz referindo-se à extração da madeira.

A íntegra dessa matéria está na edição impressa. Reserve com seu jornaleiro!

 



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1 comment

  1. Carlos

    Será que isso é verdade conheço professores que ganham bem mais que isso pode ser que ela esteja mentindo.

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