Ato contra o genocídio da juventude pobre e negra

Hoje, sexta-feira, 2 de outubro, às 18h, em frente ao Espaço Unibanco de Cinema, na rua Augusta, 1475, próximo à esquina com a avenida Paulista, pedimos para que tragam velas, tambores, fotos e camisetas das vítimas históricas dos "Crimes...

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Hoje, sexta-feira, 2 de outubro, às 18h, em frente ao Espaço Unibanco de Cinema, na rua Augusta, 1475, próximo à esquina com a avenida Paulista, pedimos para que tragam velas, tambores, fotos e camisetas das vítimas históricas dos "Crimes de Maio de 2006", ocorridos em São Paulo.

Aqui estamos mais um dia. E a história se repetindo como farsa trágica. Nós seguimos sem ter nada o quê comemorar…

Nós, familiares, amigos e amigas das vítimas dos ataques da polícia durante uma das maiores chacinas da história brasileira, os "Crimes de Maio" de 2006, não fomos ouvidos durante a produção do filme hollywoodiano que hoje é lançado sobre a nossa história: "Salve Geral". Não fomos consultados nem convidados para mais essa festa "que os homens armaram pra nos convencer‘… Viemos contar nossa história real, que também daria um filme.

Há pouco mais de três anos, o chamado "estado democrático de direito", por meio de seus agentes policiais e pára-militares, promoveu um dos mais vergonhosos escândalos da história brasileira.

Durante o mês de maio de 2006, em uma suposta resposta ao que se chamou na imprensa de "ataques do PCC", foram assassinadas no mínimo 493 pessoas. Sendo que a imensa maioria delas – mais de 400 jovens executados sumariamente pela polícia militar do estado de São Paulo.

Somos centenas de mães, familiares e amigos que tivemos nossos entes queridos assassinados covardemente e até hoje seguimos sem qualquer satisfação por parte do estado: os casos permanecem arquivados sem investigação correta para busca da verdade dos fatos, sem Julgamentos dos verdadeiros culpados (os agentes do estado) sem qualquer proteção, indenização ou reparação. Um estado que ainda insiste em nos sequestrar também o sentimento de justiça.

O desprezo pela memória e pela história fez ainda que o dia de estreia deste filme "Salve Geral", feito com base na nossa dor e que deverá concorrer ao Oscar ano que vem, coincidisse também com outra data que é um marco emblemático da injustiça e da violência do estado contra seus próprios cidadãos pobres, indígenas e negros em particular.

Há exatos 17 anos, no dia 2 de outubro de 1992, os agentes policiais do estado de São Paulo protagonizaram outra matança em série, desta vez na Casa de Detenção de São Paulo, covardemente contra pessoas sob a sua custódia: seres humanos sem qualquer possibilidade de defesa. Um episódio sangrento que ficou conhecido como "Massacre do Carandiru" e que teve ao menos 111 pessoas assassinadas por agentes policiais, segundo os números oficiais. Outro crime que permanece sem investigações corretas, sem julgamento ou condenação dos verdadeiros culpados – a começar pela alta cúpula (na época o governador era Luiz Antônio Fleury Filho). Sem qualquer reparação para as vítimas e seus familiares. Foi outro episódio em que, no entanto, a indústria cultural conseguiu fazer mais dinheiro com a dor das vítimas: produzindo filmes espetaculares, séries televisivas, livros e outras mercadorias descartáveis. A verdade e a justiça mais uma vez não compareceram na estréia.

Relembramos hoje, portanto, que em apenas dois episódios sangrentos só em São Paulo, houve mais de 600 vítimas pobres e negras. Isso para não falar das violências e execuções sumárias cotidianas que atingem sobretudo as periferias urbanas de todo país: uma pesquisa divulgada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Observatórios de Favelas, no dia 21 de julho de 2009, afirma que se as estatísticas permanecerem como estão, mais de 33.5 mil jovens terão sido executados no Brasil no curto período de 2006 a 2012. Os estudos apontam também que os jovens negros apresentam risco quase três vezes maiores de serem executados em comparação com os brancos.

Tantos casos e números que são ainda mais impressionantes do que todos os absurdos cometidos durante a ditadura miilitar brasileira, só que agora seus agentes matam em nome da "democracia" e da "segurança". Casos com contornos de crueldade que só mudam o endereço de região para região do país: a Chacina da Candelária e de Vigário Geral no Rio de Janeiro (1993) o Massacre de Corumbiara em Rondônia (1995) o Massacre de Eldorado dos Carajás (1996) a Chacina da Baixada Fluminense (2005) a chacina do Complexo do Alemão (2007) a chacina de Canabrava, de Plataforma e a matança generalizada em Salvador, na Bahia (2006-2009) entre outros tantos casos no dia-dia do povo pobre brasileiro. A imensa maioria deles sem investigação correta, muito menos punição dos verdadeiros responsáveis.

Nomes e números que jamais conseguirão traduzir o sentimento de perda e de dor irreparável das famílias. Repetimos, somente em São Paulo, durante estes dois episódios de matança estatal (o "Massacre do Carandiru" e mais recentemente os "Crimes de Maio de 2006"), foram mais de 600 famílias destruídas.

"Nós não queremos saber de ficção, queremos saber da realidade!"
Débora, mãe de vítima dos ataques da polícia em maio de 2006.

Assinam esta convocatória:

ASSOCIAÇÃO AMPARO DE FAMILIARES E VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA
"MÃES DE MAIO" DA BAIXADA SANTISTA 

JUSTIÇA GLOBAL – RJ

MOVIMENTO NACIONAL POPULAÇÃO DE RUA – Seção SP (MNPR-SP)

MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM-TERRA DE SP (MST-SP)

REDE DE COMUNIDADES E MOVIMENTOS CONTRA VIOLÊNCIA – RJ 

SETTAPORT – SANTOS-SP

SINDICATO DOS BANCÁRIOS DE SANTOS-SP

 



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