Avaria em central nuclear reacende debate sobre segurança na Alemanha

Segundo as notícias diculgadas, tratou-se de um curto-circuito num transformador, que originou que o dispositivo de segurança desligasse automaticamente o reator. Várias empresas foram privadas de um momento para o outro de fornecimento de...

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Segundo as notícias diculgadas, tratou-se de um curto-circuito num transformador, que originou que o dispositivo de segurança desligasse automaticamente o reator. Várias empresas foram privadas de um momento para o outro de fornecimento de energia e na cidade de Hamburgo, que embora seja uma cidade-estado independente fica como que enquistada em Schleswig-Holstein e também é servida pela central nuclear de Krümmel, o tráfego de automóvel entrou em desordem quando deixaram de funcionar cerca de 1500 semáforos.

Ora, se o fato de se verificar uma avaria numa central nuclear é em si mesmo extremamente preocupante, o mais perturbador no caso é que se trata já da segunda vez em que uma situação deste gênero sucede na mesma central nuclear. Na Alemanha existem neste momento 17 reatores nucleares, mas esta central de Krümmel tem antecedentes inquietantes. Em 2007 verificou-se um incêndio em um transformador, que originou também o desligar de urgência do reator. A central nuclear esteve desde então desactvada, em obras de manutenção e reparação e tinha acabado de entrar há poucos dias novamente em funcionamento, tendo tido logo esta avaria e sendo mais uma vez posta fora da rede, para reparações, dizendo-se agora que entrará em funcionamento em abril-maio do próximo ano.

O titular da licença de exploração é o consórcio Vattenfall, uma empresa pública sueca, detida integralmente pelo Estado. O reator nuclear de Krümmel é um investimento conjunto da Vatenfall e do consórcio alemão de Dusseldorf E.ON, sendo no entanto a Vatenfall o responsável por toda a técnica da central. Além desta, a Vattenfall explora ainda uma outra central, em parceria com a E.ON, em Brunsbüttel (Schleswig-Hollstein), que também já teve vários problemas e está desligada, em reparações, desde 2007.

O caso está provocando uma discussão política acesa. Por um lado, o ministro federal do ambiente Sigmar Gabriel, do SPD, veio imediatamente a público, pretendendo que sejam desligados os reatores antigos que estão em funcionamento, incluindo ainda o de Krümmel. Gabriel pretende também que as eventuais renovações de licenças de exploração para as centrais nucleares que estejam próximas de concluir os respectivos períodos de exploração não sejam concedidas, por medida de segurança, para que estas instalações sejam retiradas de funcionamento uma após a outra. Numa entrevista concedida ao jornal Hamburger Abendblatt, Sigmar Gabriel expressou dúvidas muito sérias sobre a segurança das centrais nucleares na Alemanha. "A existência de avarias é a normalidade", diz Gabriel. A afirmação da indústria de energia nuclear alemã, de que na Alemanha se encontram os reatores mais seguros, é falsa. Também nos reatores alemães ocorrem avarias, diz o ministro. Gabriel propõe assim que seja centralizada a responsabilidade pela vigilância e inspeção das centrais nucleares, retirando-a aos Estados federados onde as mesmas se encontram localizadas.

A Vattenfall vai reagindo aos poucos, procurando controlar a informação e apresentá-la ao público da forma que melhor lhe convém. Primeiro, o responsável pela central apresentou a demissão com o fundamento de que sob a sua gestão teria sido esquecida a montagem de uma moderníssima instalação de segurança no transformador em causa. Depois, o chefe para a Europa da Vattenfall deslocou-se propositadamente à Alemanha para se informar das circunstâncias ocorridas e prestar esclarecimentos. Segundo Tuomo Hatakka, a Vattenfall vai examinar todos os procedimentos técnicos e organisatórios utilizados na central. Até agora ainda não foi possível apresentar nenhuma conclusão sobre as causas da avaria, tendo sido constituído pela Vattenfall um investigador especial para o caso.

Acusações de campanha?
Contra as declarações e posições de Gabriel têm-se levantado protestos sobretudo de políticos de partidos localizados à direita do SPD, a CDU e a CSU, bem como dos representantes de interesses ligados ao sector da energia nuclear. A crítica que é feita ao ministro parte da posição de que as atitudes de Sigmar Gabriel são simples campanha eleitoral do SPD para as próximas eleições de setembro.

Assim, o presidente do grupo parlamentar da CSU no Parlamento de Berlim, Peter Ramsauer afirma que a política deve levar a sério as preocupações da população, mas manter a cabeça fria. Segundo Ramsauer, o caso Krümmel prova que a técnica do desligamento automático do reactor funciona. As centrais nucleares são os equipamentos mais bem vigiados na Alemanha. A conclusão é que Sigmar Gabriel instrumentaliza todos os pequenos erros numa central nuclear para efeitos de campanha eleitoral. Ramsauer conclui que o seu partido não vai permitir que o SPD retire vantagens eleitorais desta circunstância.

Também a ministra do ambiente do estado de Baden-Württemberg, Tanja Gönner, ataca Gabriel, afirmando que está apenas fazendo campanha eleitoral e que usa o tema porque não tem mais nenhum tema para usar, recusando a proposta de centralizar a responsabilidade pela vigilância e inspeção das centrais nucleares, retirando-a aos Estados federados.

Reação semelhante teve o presidente do lobby Forum da Energia Nuclear Alemã, Walter Hohlefelder. Segundo Hohlefelder, o desligar automático do reator em consequência do incêndio no transformador, como aconteceu em 2007, foi classificado segundo a escala de segurança em sete graus da Agência Internacional da Energia Atómica (IAEA) na grau mais baixo, grau 0, o que corresponde a um acontecimento sem ou com pequeno significado do ponto de vista da segurança técnica. Segundo Hohlefelder, o mesmo se espera para a avaria de 4 de julho de 2009, sendo portanto absurdas as pretensões do ministro do ambiente, em querer colocar fora de funcionamento esta e outras centrais nucleares e de querer retirar a responsabilidade pela vigilância e inspecção aos estados federado: tudo, segundo Hohlefelder, é mera campanha eleitoral a favor do SPD, sem qualquer substância.

Problemas dentro do próprio reator
Mas o problema da central de Krümmel não se fica apenas pelo transformador.

Por um lado, a Vattenfall, através de Tuomo Hatakka, já teve de admitir que, para além do problema do transformador, foram também detectados problemas dentro do próprio reator. Sabe-se já que pelo menos uma das barras de urânio tem defeitos. Vai ser aberta a blindagem de cobertura do núcleo do reactor para procurar a barra ou as barras defeituosas, entre as 80.000 existentes.

E que a situação não foi tão inofensiva como a Vattenfall a quer apresentar deduz-se ainda do facto de que a administração da central nuclear comunicou à polícia a ocorrência do acidente 18 minutos depois de ele terminar, ou seja depois do transformador desligar – mas não comunicou o fato, como deveria ter feito, à repartição competente de Schleswig-Holstein para a vigilância e inspecção da energia nuclear. Esse facto já foi admitido por Tuomo Hatakka. O próprio ministro-presidente de Schleswig-Holstein, Peter Harry Carstensen, que acaba por ser o primeiro responsável pela segurança da população que vive nas imediações da central nuclear, censurou a Vattenfall e Hatakka pelo ocorrido e chegou mesmo a ameaçar com o desligar definitivo do reactor. Também o presidente da câmara de Hamburgo, Ole von Beust, teve uma reação idêntica, acrescentando ainda que em alternativa poderia ser retirada à Vatenfall a licença e entregue a outra entidade.

Por outro lado, continua sem se compreender: a) como é que uma central que esteve fora de serviço durante dois anos por causa de um incêndio no transformador, e, segundo se afirma, sujeita a uma revisão geral, poucos dias depois de entrar em funcionamento volta a ter que ser desligada por causa de um curto-circuito no transformador; b) como é o que o responsável da central se esqueceu durante dois anos de instalar um equipamento de segurança moderno para o transformador; c) como é que afinal só agora se descobre, depois de dois anos de reparações, que não há só problemas no transformador, mas que também no núcleo do reator existem barras de urânio defeituosas. Tudo isto, repete-se, alguns dias depois de a central voltar a entrar em funcionamento, após os dois anos em que esteve parada em consequência do incêndio do transformador em 2007.

Vattenfall: sinônimo de avarias
Do ponto de vista da opinião pública, a Vattenfall tornou-se quase num sinônimo de consórcio cujos reactores são sujeitos a avarias. Mesmo na Suécia ainda é recordado um incidente grave com um reactor em Forsmark, que o consórcio, e parcialmente em cooperação com a inspeção estadual da energia nuclear, procurou encobrir e depois apresentar como inofensivo. Já então a Vattenfall não informou os respectivos serviços estaduais da ocorrência e um relatório interno concluiu em 2007 que havia já de há longos anos uma degradação da cultura de segurança nas centrais nucleares suecas da Vattenfall, que um dia conduziria a uma catástrofe. Apesar do conhecimento destes factos, não se lhes deu na altura na Alemanha a devida atenção. E mesmo agora fazem-se algumas ameaças políticas, é certo, mas atitudes concretas ainda não foram tomadas. Pelo contrário, se existem vozes críticas, também não faltam políticos que não só estejam dispostos a continuar a entregar a gestão da central de Krümmel à Vattenfall, como também nada dizem contra uma eventual prorrogação dos períodos previstos de funcionamento. E sabendo-se que o consórcio alemão E.ON é o parceiro da Vattenfall, não é de estranhar que este consórcio tenha todo o interesse na prorrogação do período de exploração da central.

Maximização de lucros
É neste autêntico jogo de interesses entre os imperativos de maximização de lucros praticados pelas empresas de energia que exploram as centrais nucleares e as necessidades da segurança dos reatores que a questão pode ser melhor compreendida. As 17 centrais nucleares neste momento em funcionamento na Alemanha têm os fins dos seus tempos de exploração estimados para o período entre 2009 e 2021. O reator de Krümmel entrou em laboração em 1984 e segundo a lei da energia atômica alemã calcula-se que terminará o seu funcionamento em 2019. Daí que se movimentem, neste momento, interesses no sentido, por um lado, da prorrogação dos períodos de exploração, o que implica naturalmente que as condições de segurança das centrais o permitiriam. Por outro lado, pondera-se quem decide sobre esta questão, se as autoridades dos estados federados, que têm tido até agora a seu cargo a vigilância e inspecção das centrais, se um serviço centralizado, como quer agora Gabriel, sozinho ou acompanhado dos estados federados, mas sempre com a sua intervenção.

Ora, como é óbvio do ponto de vista da maximização dos lucros, a Vattenfall quererá continuar a explorar a central até ao fim, realizando para tal o mínimo de investimentos possíveis, para retirar da exploração o máximo de lucros. Portanto, a Vattenfall vai fazendo reparações nas instalações da central nuclear quando esta avaria, esquece-se, como foi aqui o caso, de montar equipamentos de segurança adicionais, vai procurando ocultar as avarias ou apresentá-las como inofensivas, vai fazendo investigações aos procedimentos técnicos, vai tentando sossegar a opinião pública, mas verdadeiras medidas de fundo, tais como substituição completa dos equipamentos, não faz – isso não seria rentável, dado que o prazo de exploração se vai aproximando do fim. E, com esta política de procedimentos, vai mantendo a licença de exploração, embora a idoneidade em termos de garantias de segurança do consórcio para explorar equipamentos com riscos associados tão elevados como são os riscos inerentes à exploração de uma central nuclear esteja seriamente colocada em dúvida.

É por todas estas razões que a atitude do ministro do ambiente Sigmar Gabriel em trazer o assunto para a opinião pública foi importante. Pode até ser, como o acusam os adversários políticos, que a sua motivação tenha sido alimentar a campanha eleitoral do SPD, em queda nas intenções de voto perante a CDU de Angela Merkel. Mas também é um facto que foi esta segunda ocorrência com o reactor de Krümmel que lhe deu um reforço de autoridade para levantar o problema agora, com a agressividade com que o tem feito. Em qualquer circunstância, a atitude de Gabriel é objectivamente positiva. Quaisquer que sejam as suas motivações, abordou uma questão que era importante que fosse abordada. Talvez já o pudesse, e mesmo o devesse, ter feito antes, é certo. Mas pegou no tema agora e, como se costuma dizer, mais vale tarde que nunca.

João Alexandrino Freitas, de Tübingen para o Esquerda.net



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