Avatar, o filme

Valeu a pena James Cameron esperar 15 anos para concluir Avatar, pois além da tecnologia avançada para fazer o que ele queria, o momento político e social é também o adequado para a mensagem...

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Valeu a pena James Cameron esperar 15 anos para concluir Avatar, pois além da tecnologia avançada para fazer o que ele queria, o momento político e social é também o adequado para a mensagem do filme. “Estamos querendo nos livrar da imagem de ugly americans perante os outros países”, disse-me recentemente um grande amigo americano, após a injeção de ânimo causada pela eleição de Obama.

O termo ugly american designa o esteriótipo do americano nacionalista, falastrão, que adota um comportamento grosseiro especialmente quando viaja, demonstrando não somente desconhecer outras culturas, como também desdenhá-las e desrespeitá-las. Geralmente, vem representado pela figura do turista destruidor de paraísos ou soldados cegos sob comando republicano. Em Avatar esse esteriótipo vem como a segunda figura e como os “capitalistas selvagens”. Ora, Cameron acertou mais uma vez na vanguarda de recursos de última geração e nos trouxe uma narrativa pertinente ao novo despertar americano (e de outras grandes nações, por que não?).

Eu não sei o que alguns críticos de cinema têm contra James Cameron. Ele deve ter comprado muita briga por aí, espalham que ele é muito arrogante. Fofocas pessoais à parte, Cameron é um dos melhores diretores da sua geração e muitos de seus filmes são sucessos estrondosos, e você com certeza já viu um ou conhece alguém que viu. E gostou! Por exemplo, O Exterminador do Futuro, O Segredo do Abismo, Alien e, só pra citar o campeão de prêmios e arrecadação, Titanic!

O estilo de Cameron é sempre eloqüente, um tanto exagerado e segue a narrativa clássica hollywoodiana: mocinhos e bandidos bem definidos, com discursos cujas mensagens denotam ideias que resvalam no clichê (vide David Bordwell). Muitos outros diretores fazem o mesmo, como Steven Spielberg ou Mel Gibson, e ainda assim os filmes, pelo menos em minha opinião, não deixam de ser bons. Sejamos francos, hoje em dia não há mais espectadores bobinhos que acreditam em tudo o que o cinema diz, e conseguem curtir um filme, mesmo que o enredo soe como uma tremenda marmelada. Também espectadores já não mais saem correndo do cinema quando vêm um trem vindo em direção à câmera, pensando que o mesmo vai passar por cima deles (como aconteceu nos primeiros dias do cinematógrafo)! Se bem que com a geração 3D até temos essa sensação. Na sala de cinema eu ouvi muito mais “ohs!” e risinhos do que manifestações de medo.

Bem, voltando ao estilo de Cameron podemos destacar o que estudiosos já citaram: a cor azul e suas nuances parece ser uma constante em seus filmes, assim como o elemento água. A edição é sempre excelente. Cameron gosta de closes fechados em cenas de ação e closes de pés, rodas ou base de máquinas. Os personagens sempre usam algum tipo de câmera ou filmagem e o sono ou os sonhos são frequentemente usados como portal para uma outra realidade. E, claro, o destaque para personagens femininas de caráter forte.

Entre outras coisas (só para entender um pouco mais a cabeça de Cameron), você sabia que ele adora anime? E que foi depois de ver Star Wars que resolveu fazer cinema? E que criou a stereo imaging camera ou fusion camera e vem usando há tempos high definition video system, recursos sem os quais nenhum diretor que queira fazer imagens digitais consegue viver sem? É um perfeccionista e trabalhador árduo, arranca mesmo o couro de quem trabalha com ele. Em Avatar, contratou um lingüista para criar a língua dos Na’vi e colocou os atores para fazerem trilhas em mata fechada no Havaí durante vários dias, para eles sentirem um maior contato com a natureza e aprenderem a se movimentar por entre árvores e raízes.

Quanto à narrativa de Avatar, só quero dizer que é um tema pertinente ao momento, tanto para o mundo quanto para os americanos, mesmo que ela venha com alguns clichês.

A coletividade agora se preocupa com a destruição do planeta, e fazemos uma revisão do passado. As lendas antigas do fim do mundo saltaram de nossos inconscientes adormecidos. Digo lendas antigas, pois podemos ver através de estudiosos como Carl Gustav Jung e Joseph Campbell e suas compilações de estórias e mitos de várias culturas, que essas narrativas falam sobre um povo antigo conectado à terra, ou de como fomos assim no passado e teríamos perdido essa conexão com a natureza. As escrituras sagradas de quase todas as culturas, por exemplo, têm suas diferentes versões do mito do paraíso perdido.

Desde a estória de Adão e Eva até as lendas indígenas das Américas (no Brasil apresentadas a nós pelos irmãos Vilas Boas e primorosamente analisada por Roberto Gambini), passando pela moderna The story of Ovo (estória de Peter Gabriel e Mark Fisher apresentada no Millenium Dome Show em Greenwhich), se reconta esse mito de um tempo em que éramos conectados com a terra e tudo o que nela vive. Estamos de novo nessa fase, o ciclo parece se repetir: ligação, corte, tentativa de recuperar a ligação. De acordo com os citados estudos do inconsciente coletivo, essas lendas funcionam como um alerta, como símbolo da nossa relação com o planeta.

Avatar vem da palavra em sânscrito avatâra, sendo que ava significa ao longe, e târa como sendo ele cruza/percorre. No Hinduísmo um avatar está mais comumente relacionado às várias encarnações de Vishnu, o deus da infinita bondade, que de tempos em tempos vem ajudar a humanidade em momentos difíceis. Encarnado sob diferentes formas, de acordo com a necessidade do momento, num total de 10 encarnações, ele teria cumprido 9, incluindo a de Buddha. A última encarnação, vindoura, seria a de um messias com uma espada de fogo, montado em um cavalo branco, que viria para salvar os corretos e punir os perversos. Esse conceito de avatar tem se adaptado a várias culturas e se nos apresenta como a incorporação de um conceito arquetípico, ou seja, a idéia de uma deidade ou entidade superior, um Self, abarcado na imagem e forma adequadas à função que se espera dele.

Vemos que Cameron coloca como deidade para encarnar no corpo avatar, o próprio ser humano, ou mais precisamente sua consciência. E estes novos seres, a princípio espiões num paraíso natural estrangeiro, cujas terras interessam a capitalistas e governantes selvagens e sedentos de um novo mineral potente, se tornam parte da vida local e, após experimentarem na pele o que é realmente viver conectado com a natureza e perspectiva nativa, mudam de lado. E agem como cavaleiros montados em animais estranhos com suas armas aéreas punindo os ímpios e salvando os justos.

Ao nomear o planeta-paraíso de Pandora poderíamos logo pensar no mito da cunhada de Prometeu, que abriu uma caixa em que Zeus colocara todos os males do mundo, deixando a esperança presa por último. Porém, o nome Pandora na versão de Cameron parece estar mais intimamente ligada à evolução do mito de Pandora em direção às concepções das deusas Gaia e Deméter, como manifestações da Mãe Terra, aquela que tudo dá. De qualquer modo, o planeta-paraíso cameroniano nos lembra a Mãe Natureza, que é soberana em dádivas e faz tudo o que é possível para restabelecer o equilíbrio perdido, mesmo que seja através de catástrofes, não tomando partido de ninguém – palavras essas proferidas inclusive pela personagem principal do filme, Neytiri.

Avatar é um filme lindo tecnicamente falando e simpático tematicamente. Não se impressione com pessoas auto-intituladas “cult” que exigem que toda narrativa seja contada de modo obscuro, inescrutável e entediante. Assim como não se deve analisar Madonna pelos mesmos critérios que se analisa Maria Callas, dê uma chance a James Camreon. Você já conhece seu estilo, então não espere outra coisa. Cameron merece ser visto nem que seja pelo seu vanguardismo em cinema digital e sua eloqüência.

Texto publicado originalmente no Amálgama. Leia outra visão sobre o filme aqui.



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1 comment

  1. Andy

    Ótimo texto! Totalmente eloquente e breve, e a autora conseguiu trazer conceitos muito especificos e esclare-los de maneira básica, para que até mesmo um completo leigo no assunto conseguisse entender. está de parabéns. “sintese do filme“,tese(filme),anti-tese(criticos) e sintese (essa)… Chamem como melhor lhes convir (aliás, esse comentário sim é um poço vazio, convenhamos), não se escreve uma critica tão perspicaz sem trazer alguns conceitos e desenvolver o discurso de forma objetiva, com “espirito“ subjetivo.

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