Bancos Comunitários protegem mercados locais, explica Paul Singer

Para o titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), Paul Singer, os bancos comunitários estão imunes à crise internacional. Enquanto as instituições convencionais passam por problemas de falta de confiança, iniciativas protagonizadas pela...

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Para o titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), Paul Singer, os bancos comunitários estão imunes à crise internacional. Enquanto as instituições convencionais passam por problemas de falta de confiança, iniciativas protagonizadas pela sociedade civil chegam a contar até com moedas alternativas, capazes de proteger o mercado interno.

Singer explica ainda qual é a posição dos bancos centrais no mundo diante desse tipo de iniciativa, e o interesse do órgão regulador do sistema financeira brasileiro.

Leia a íntegra

Fórum – Em meio à crise financeira internacional, os bancos comunitários correm risco?
Paul Singer –
Os bancos comunitários não correm risco algum. As instituições convencionais querem dar lucro e não estão preocupadas em proteger o dinheiro dos depositantes. A única maneira efetiva de fazer isso seria estatizá-los. Os comunitários são como as cooperativas de crédito em que os depositantes são donos e sabem disso. Por isso, têm interesse em saber o que acontece com o dinheiro. Os bancos comunitários e cooperativas de crédito estão imunes porque os depositantes são donos do banco e têm interesse em saber o que acontece com o dinheiro.
Atualmente, os bancos [comerciais] não estão emprestando. Nos bancos comunitários, sim, porque o crédito mutuo, empresta-se para vizinho ou outro sócio. A garantia são as pessoas, não há garantia real, mas o crédito é religiosamente pago. Isso é uma verdade para todas as experiências, desde o banco do [Mohammad] Yunnus em Bangladesh até outras, em diferentes localidades. A inadimplência sempre fica próxima a zero ainda que gente pobre também sofra acidentes, doenças e outros percalços. A diferença é que se pode emprestar mais caso acredite-se que, com isso, o credor poderá devolver o valor. Já o banco capitalista tem regras rígidas que o impedem de dar novos créditos.

Fórum – O sr. acredita que os bancos convencionais podem aprender alguma coisa do modelo de crédito dos bancos comunitários?
Singer –
(pausa) Se os bancos convencionais aceitarem transformar os depositantes em acionistas e lhes passarem o poder… Os depositantes não têm interesse no lucro do banco, querem apenas proteger da inflação, o que banco não garante. É a contradição entre a intermediação financeira, que é um serviço publico, e o lucro privado. Ela existe no sistema desde o século XIX.

Fórum – Por que a Senaes vem apostando nas moedas sociais como forma de promover o crédito solidário?
Singer –
As moedas sociais são um instrumento de pagamento com múltiplas finalidades. A experiência do Banco Palmas, em Fortaleza, multiplicada pelo país com apoio da Senaes é feito para proteger o mercado para os fornecedores que moram lá dentro. A Palma só é aceita ali, no Conjunto Palmeiras, bairro com 30 mil habitantes. Aliás, aceito e com desconto. O dinheiro que vem da aposentadoria rural, de quem recebe o Bolsa Família e dos empregos informais. Antes, eles depositavam em um banco fora dali, porque não rende para as instituições convencionais ter uma agência no bairro. As compras eram feitas em grandes redes de varejo. E assim por diante.
Eles perceberam que poderiam usar a moeda social para criar um mercado social protegido. É algo que se faz no mundo inteiro há um bom tempo e que foi reinventado no Palmeira. O melhor é que realizaram bem, de modo democrático. Têm uma associação de moradores, baseada em muita confiança mútua.

Fórum – Quando se pensa em microcrédito para pobres, a primeira referência é o Grammen Bank, que não usa moeda alternativa. Onde foram experimentadas estratégias de proteção do mercado local como as que o sr. menciona?
Singer –
O microcrédito que o Yunnus inventou é distinto, voltado para mulheres pobres. No caso das moedas, é uma idéia que ressurge em vários pontos a partir dos anos 80. Estudei o assunto porque o Banco Central fez um seminário e propôs moeda social como tema. Em períodos de crise com muito desemprego, desde século XIX, uma localidade que depende de duas ou três empresas, não tem como sobreviver caso elas fechem as portas. O Lets, Local Exchange Trade System, é uma experiência realizada em Vancouver, na costa oeste do Canadá. Com a saída de uma base aérea e de uma indústria nos anos 80, os anos do neoliberalismo tresloucado em que empresas iam para Ásia, parte dos habitantes da ilha ficaram sem fontes de renda.
Começaram a trabalhar para criar fonte de renda. Na Argentina, foram criados os clubes de troca, que uniram economia solidária com moeda social. Dá samba.

Fórum – Como os bancos centrais do mundo vêem a questão?
Singer –
Os anos 30 foram famosos pelo enorme desemprego e a crise. Surgiram moeda sociais em todos lugares que fizeram milagres. Comunidades inteiras reviveram usando esse tipo de moeda na Suíça, Áustria, Estados Unidos. À época, os bancos centrais intervieram para proibir, porque são a autoridade monetária, a única autorizada a emitir moeda. Então houve repressão na Europa. Levou anos para a moeda social mostrar sua utilidade. No fim do século XX, nos anos 80 e 90, a política passou a ser a de fomentar essas iniciativas. Na Austrália e na Inglaterra, foram criados estímulos, sendo até possível pagar impostos e gastar em trabalho terceirizado em moeda social. Houve uma mudança muito grande.

Fórum – E o Banco Central do Brasil?
Singer –
Nessa quadra o Banco Central tem bom senso. Em vez de matar no nascedouro experiências interessantes, a instituição é a principal apoiador financeiro para as medidas. Houve esse imenso seminário em Belo Horizonte para falar a respeito, o que mostra que há uma atitude positiva.
Um economista belga chamado Bernard Lietaer escreveu um livro muito bom chamado O Futuro do dinheiro. Não tem tradução em português. Ele sustenta que, no futuro, teremos moedas comunitárias e não nacionais, sujeitas a crises. De algum modo, ele previa a crise com o sistema financeiro inerentemente especulativo que significa um desastre depois do outro. Ele é a favor de uma moeda não entesourada. É uma idéia que vem de [John Maynard] Keynes, de que a moeda guardada não produz riqueza, nem pelos ricos. Então, gastar não só é um direito como uma obrigação. Se ganha mais do que gasta, está eliminando empregos.

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Paul Singer foi entrevistado para a realização da reportagem: A crise não chegou a esses bancos



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