Baú do FSM: O futuro do Fórum

Desde a primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos se destaca nos debates sobre o evento e como ele deveria operar. Pedindo democracia radical e respeito...

121 0

Desde a primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos se destaca nos debates sobre o evento e como ele deveria operar. Pedindo democracia radical e respeito à diversidade de idéias, culturas e religiões, Boaventura é referência não apenas nos discursos, mas no acompanhamento do trabalho conjunto de redes de movimentos.

Nascido em Coimbra em 1940, é formado em Direito e dirige o Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade da cidade. Por esta formação, o intelectual trata de questões diversas, desde formas de tornar mais democrático o Judiciário até o multilateralismo e o acompanhamento da evolução dos movimentos sociais.

Devido à sua versatilidade, ele esteve presente nos principais momentos de debate sobre o futuro do Fórum. O comitê organizador indiano teve de enfrentar alguns desafios que refletem, em maior ou menor grau, questionamentos postos desde a primeira edição do evento. Da recusa em receber financiamento direto de instituições norte-americanas (apenas 2% dos recursos deste FSM vieram dos EUA) à organização do evento paralelo Mumbai Resistency, os próximos passos do movimento serão mais complexos. “Estamos passando de um momento de consenso para alguns dissensos”, constata Boaventura.

O espírito de Porto Alegre 
O primeiro dado sobre o Fórum em Mumbai é que o espírito de Porto Alegre pode ser reproduzido em outras partes do mundo. Isto nos dá uma grande segurança de que o FSM é realmente mundial e pode ser cada vez mais. Se é reproduzível em Mumbai, é possível de se fazer também na África e em outras partes. A segunda idéia é que o espírito é mantido, mas ao mesmo tempo muda, porque os interesses dos países, das diversas regiões do planeta são diferentes. Aqui se vê muito fortemente, por exemplo, questões fundamentais nesta parte do mundo e que não eram tão importantes nos eventos passados, sobretudo na primeira edição do Fórum em Porto Alegre. Uma delas é que estamos na Ásia do Sul, e é na Ásia Ocidental que o militarismo americano está a agir com mais agressividade, no Iraque e no Afeganistão. É natural que as pessoas estejam muito preocupadas com a questão da guerra e revoltadas com o militarismo e, portanto, que haja muita ênfase na luta contra a guerra. Além disso, é uma parte do mundo onde a guerra religiosa tem ocorrido em grande intensidade. Em Mumbai, há um ano houve um massacre, resultado de conflitos religiosos. O que eles chamam de comunalismo – que nós chamamos de fundamentalismo – é uma visão religiosa, mas articulada com a política. Por fim, a questão da discriminação pelas castas. Dos 100 mil participantes, 30 mil eram dalits. Eles estão politicamente organizados no momento e perceberam que o FSM seria uma janela para ventilar e dar a conhecer sua luta globalmente. Estas são mudanças que resultam da própria ida do Fórum para outros lugares. E, naturalmente, à medida que o FSM vai amadurecendo, novas questões estão a surgir.

Autocrítica sem divisionismo
Participei de vários debates em que se discutiu a política do Fórum e seu futuro. À medida que esta idéia amadurece, as pessoas se perguntam se ela é sustentável, se vai evoluir, qual o seu grau de democracia interna. Esta autocrítica, digamos, não ocorria nas primeiras edições do Fórum e suspeito que deva continuar a aumentar. O único problema é se vamos continuar a poder falar como fizemos por diversas vezes aqui, ou se isso vai se transformar numa fonte de faccionalismo e divisionismo, em que, ao invés de discutir, vamos começar a nos denunciar uns aos outros. Espero que seja o primeiro caso.

Um FSM popular 
A grande questão para os movimentos sociais e as classes que estão à margem da sociedade, os mais excluídos, é sua organização política. Em todas as edições do Fórum, houve uma presença forte dos camponeses sem terra, por meio do MST. O mesmo ocorreu com grupos indígenas. Foi possível, porque estavam politicamente organizados. Se não estiverem, é muito difícil contar com a participação. Na Índia, embora festejemos quem veio, trata-se de um país de um bilhão de pessoas. Quantos grupos não foram excluídos pura e simplesmente porque não têm dinheiro?

Fundo socialista 
Penso que não se resolvem estes problemas sem duas medidas. Primeiro, que haja organização política em nível local. As classes mais populares do Norte e Nordeste do Brasil têm que se organizar politicamente. Em segundo lugar, temos que criar um fundo socialista dentro do Fórum, com recursos de movimentos sociais e organizações não-governamentais que têm dinheiro para aqueles que não têm. É uma proposta que tenho feito, ainda sem êxito até agora, mas que tem de se institucionalizar. O grande problema não é incluir apenas para que mais gente venha, mas aprofundar a inclusão, com participação ativa, democratização interna do Fórum etc.

Novas utopias
A utopia do Fórum, de que outro mundo é possível, é algo extremamente vago acerca de seu conteúdo positivo, mas muito concreto sobre seu conteúdo negativo – é contra o neoliberalismo, a guerra, as formas de opressão, exploração e discriminação. A utopia se define desta forma. Obviamente, os movimentos sociais e Ongs não podem viver de uma utopia negativa e sempre foi assim nos movimentos de esquerda no passado. Podemos dizer que o Fórum Social Mundial é a primeira Internacional dos povos. Houve várias Internacionais no passado, mas de partidos. Esta é de organizações e movimentos. Enquanto a de partidos tinha a possibilidade de definir uma concepção do socialismo (que era definida como o grande horizonte da emancipação), o FSM, porque quer continuar a incluir esta grande diversidade de projetos, não pode ter este nível de concepção. Os movimentos e organizações estão com planos de ação muito concretos.

Diálogo entre movimentos 
Não tivemos, como estamos a ter, um diálogo entre os movimentos. É algo novo que está emergindo. Infelizmente, o diálogo tem primeiro de ser feito internamente. O movimento indígena no Brasil está bastante fragmentado, relativamente unido no Equador, na Colômbia. Dentro do movimento feminista há muitas correntes. O diálogo tem que ocorrer dentro dos e entre os movimentos. Isso quer dizer começar a conversar e deixar de se denunciar, que é o que tem havido muito na confrontação. As mulheres dizem aos trabalhadores: “vocês consideram que a classe é importante, mas que a questão das mulheres e da discriminação sexual não o é”, enquanto os outros dizem o contrário. Com isso não vamos longe. Para haver essa aproximação, o caminho é o que chamo de procedimento da tradução, quer dizer, criar mais inteligibilidade. Como eu traduzo minhas lutas nas lutas dos outros, o que há de comum entre elas. As opressões vêm sempre juntas. Muitos de nós somos vítimas em um nível e opressores em outro. É isso que os movimentos têm de reconhecer. As mulheres por exemplo são vítimas, mas são opressoras enquanto o movimento continuar a ser dominado por mulheres das elites, como ocorre na Índia. Portanto, as mulheres dalits não se sentem representadas pelo movimento. Este é o reconhecimento necessário para permitir que tenhamos agendas mais ricas, mais complexas para que se possa fazer esta intermediação. Isto é a realização de utopias.

Referendo eletrônico
Sou a favor de que se faça no próximo Fórum uma consulta eletrônica sobre propostas concretas onde há consenso. Nesta altura, as propostas não são mais das lideranças, dos movimentos, mas referendadas por 100 mil pessoas, o que dá uma força internacional muito superior. É neste sentido que se caminha, sem querer discutir muito se o futuro é o socialismo, ou que tipo de socialismo. Para muitos é o socialismo, para outros é a emancipação social, a paz, uma religião que seja uma espiritualidade de irmandade (e não uma religião fechada). E há muito espaço para toda esta diversidade. Poderíamos manter a forma do consenso entre as organizações (sem votação), como ocorre hoje, e os participantes votariam individualmente num ambiente de criação coletiva de memória e de idéias, digamos assim. Não são cidadãos isolados em frente ao computador em suas casas, mas gente que tem os terminais de computadores e que vão conversar com outros participantes sobre seus votos. Como estamos todos registrados através do recenseamento que é o cartão de identificação, acho que seria uma idéia extraordinária no próximo Fórum.

Quatro divergências
De início, ao começar o trabalho de verificação das questões de maior consenso e dissenso dentro do Fórum, percebe-se que as convergências têm muito a ver com as utopias negativas a que me referi. Vejo três ou quatro grandes divergências, além das idéias acerca do futuro da sociedade.

A primeira é o papel do mercado. Há aqueles que acreditam que o mercado é fundamentalmente negativo e que devíamos substitui-lo por formas não orientadas para o lucro, baseadas em princípios de reciprocidade. Outros pensam que mercado tem um papel que pode ser positivo, se regulado e com limites claros, de modo que não se reduza a sociedade ao mercado. A segunda divergência é em relação aos organismos multilaterais – a ONU, OMC, FMI e o Banco Mundial. Há aqueles que acreditam que seja possível reformá-los e os que acreditam que eles estão para além de reformas, que é preciso substitui-los por instituições mais democráticas. Há ainda uma série de posições intermediárias, como reformas realmente profundas na ONU, por exemplo.

Outra que aparece muito claramente é a relação entre partidos e movimentos sociais, entre aqueles que pensam que qualquer contato irá corromper os movimentos e aqueles que discordam. Os partidos têm agendas, horizontes que querem realizar muito rapidamente e vão tentar cooptar e manipular os movimentos e aqueles que acreditam em uma articulação. Aqui houve várias discussões sobre essa relação. Por último, a questão do Estado. Se ele é um inimigo com o qual não podemos nunca tratar – que é posição dos anarquistas, que se sentem marginalizados neste Fórum mas mesmo assim têm vindo participar – ou se pode por vezes ser inimigo, por vezes aliado. A verdade é que, e alguns denunciam isso, tem crescido a participação de representantes de governos no Fórum, individualmente ou em painéis. Em Porto Alegre, foram criadas as mesas de diálogo e controvérsia exatamente para trazer parlamentares, representantes políticos etc. Agora, vejo ministros, representantes de governos de estados da Índia, parlamentares europeus e americanos. Há aqui uma linha de fronteira que muitos acham perigosa porque, segundo eles, o Fórum é o lugar das Ongs e dos movimentos populares.

Propostas de ação 
As convergências deviam levar a propostas de ação rapidamente, como a abolição dos paraísos fiscais, a Taxa Tobin, o perdão da dívida, a não-privatização da água, a soberania alimentar. Há propostas muito concretas em relação a estas questões. O diálogo aqui passa pelos movimentos, que estão fracionados, e deve chamar a atenção deles para algumas questões transversais, os temas aglutinadores. É evidente que , depois do 11 de setembro, a paz e a luta contra a guerra têm quem ser universais, o que ainda não acontece.

Futuro do Fórum 
Estamos passando de um momento de consenso para alguns dissensos. O problema é saber se vamos manter esses dissensos construtivamente. A autocrítica é fundamental, mas a autodestruição é possível. A esquerda tem em sua memória exemplos em que a primeira levou à última. Acredito que é possível viver com o dissenso e avançar mais rapidamente nas áreas de consenso, deixando a liberdade aos diferentes movimentos para ter suas propostas de ação onde há dissenso. Como o Fórum em si mesmo não faz uma declaração, não patrocina nenhuma ação, pode viver com o dissenso. Penso que será uma constante ocorrer em outros países como foi aqui o Mumbai Resistency, fóruns de alternativos. Há pessoas interessadas em uma globalização alternativa, mas diferente do que pensam ser a do FSM. Por exemplo, não querem que as Ong’s tenham o papel importante que têm no Fórum, com mais destaque para os movimentos sociais. Alguns pensam que o FSM devia ter feito algumas declarações gerais (por exemplo, não fez uma declaração contra a guerra). Mas há o princípio de não haver votos no nível das organizações dos conselhos e não fazer declarações. Até agora, isso se manteve e penso que seja uma coisa positiva.

Divisão européia
Em áreas do mundo onde os partidos de esquerda têm uma grande tradição e alguma força, como acontece na Europa e na Índia, trazem para os movimentos algumas de suas fraturas, como a idéia de controle, a luta por cotas, a preocupação de estar presente nos lugares públicos, em coletivas de imprensa, para que nas declarações estejam suas palavras de ordem etc. Há toda uma cultura política que é transferida para dentro do Fórum. Se analisarmos nesse nível, a tendência de divisões vai existir, mas resta saber se haverá alguma força aglutinadora suficientemente forte para evitá-las. O FSM na Índia mostrou que há uma energia muito grande e que ele pode continuar a responder de uma maneira magnífica às aspirações dos diferentes movimentos e dar a conhecer suas lutas. Veja, por exemplo, esse carnaval político de marchas das diferentes organizações que nunca tiveram oportunidade de mostrar a todo o mundo o que vale ou o que são e o que fizeram aqui.

Conhecimento revolucionário isoladoOs líderes de movimentos sociais e Ongs põem em questão o sentido de suas lutas, sua utilidade. Para responder a isso, é preciso fazer uma reflexão teórica. É completamente errado dizer que os ativistas não querem teoria. Não querem as que estão disponíveis, mas outras. Por outro lado, as ciências sociais, as artes, a filosofia são extremamente elitistas no mundo de hoje. As universidades e academias de artes estão separadas das pessoas, os filósofos estão fechados na torre de marfim. Esse isolamento está a levar a uma restrição da criatividade. Por isso não há idéias novas. Os debates nas ciências sociais são absolutamente irrelevantes quando se olha o que vai acontecendo no mundo, as guerras, a desnutrição, a discriminação. Há um esforço das sociedades capitalistas de isolar o conhecimento potencialmente revolucionário dos movimentos sociais em universidades e centros de pesquisa.

Universidade popularO projeto de universidade que temos é juntar, para transformar a ambos. Os cientistas sociais e artistas têm de aprender a juntar arte, ciência, filosofia com a vida, enquanto os ativistas precisam de idéias, de objetos artísticos que possam criar uma nova estética para sua luta. As redes de organizações e movimentos seriam uma das formas. Em um ambiente de reflexão precisamos descobrir pontos de encontros entre diferentes movimentos sociais e entre eles e cientistas sociais, filósofos e artistas para que passam a refletir o que cada um pode aprender com o outro e, eventualmente, ensinar. Precisamos de muita experiência comparada. Um líder dos sindicatos das Filipinas perguntava: “Mas o que é o movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros)?”. É claro que não é preciso nenhum seminário para explicar isto, uma frase responde a pergunta, mas ela mostra que precisamos de uma reflexão mais continuada. Para explicar o que é, por que é importante e por que o sindicato precisa discutir, qual a importância de desenvolver uma agenda comum.

Caos no FórumÉ evidente que muita gente fica para ver esta dimensão (para quem vem da Europa ou mesmo da América Latina), este barulho ensurdecedor das marchas, dos tambores horas a fio a desfilar. Penso que é uma afirmação da festa que é preciso manter. Os movimentos operários no século XIX tinham um caráter até lúdico, mas foram se transformando até se tornarem mortalmente sérios. E mais, os níveis de ruído e de caos são distintos aqui. Não estamos habituados a esta dimensão e por isso achamos que é demais. Quiçá se os indianos forem a um Fórum em outra parte do mundo e tenham uma outra concepção do que é caos. Temos de nos construir multiculturalmente.

Matéria publicada na edição 15 da revista Fórum, em maio de 2004, aqui.



No artigo

x