Bem vindo ao eixo Luladinejad

Os presidentes são Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil e Mahmoud Ahmadinejad do Irã. O que é isso? Será algum neo-eixo do mal? Claro que não: Luladinejad é um novo eixo de negócios...

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Os presidentes são Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil e Mahmoud Ahmadinejad do Irã. O que é isso? Será algum neo-eixo do mal? Claro que não: Luladinejad é um novo eixo de negócios planetários.

Ahmadinejad estava para chegar, em visita ao Parlamento brasileiro, na 2ª-feira; à sua espera, praticamente sozinho, só o presidente Lula. O abraço de Lula foi inesperado, espontâneo, caloroso; bem se pode supor que Ahmadinejad não esperasse aquele tipo de manifestação. Para quem assistiu ao abraço, a coisa foi clara como sinal gráfico.

Ahmadinejad viajou a negócios; levou comitiva de 200 empresários iranianos. No longo prazo, o Brasil deseja exportar para o Irã não só carne e grãos e açúcar, mas também caminhões e ônibus. E o Irã quer investir pesadamente na indústria do petróleo, petroquímica, agro-business, minério e construções. Em março ou abril de 2010, o presidente Lula visitará o Irã, levando também sua importante caravana de empresários.

Lula e Ahmadinejad assinaram tratados de energia, comércio e pesquisa agrícola, no mais recente desdobramento do que se está convertendo em cálido abraço entre a América Latina e o Oriente Médio.

O xis da questão, é claro, foi a energia nuclear. O presidente Barack Obama dos EUA admitiu, na reunião do G20 em Londres, esse ano, que Lula “é o cara” –, opinião que as pesquisas de opinião confirmam. O presidente do Brasil é hoje o líder político mais popular entre os seus eleitores, com índices de aprovação de 79%; Obama já caiu para menos de 50%. Portanto… O que “o cara” pensa e diz? “O cara” já disse que o Brasil apoia “o direito do Irã de pleno acesso à energia nuclear para fins pacíficos.”

Hoje, quando Lula fala, os líderes mundiais ouvem atentamente; e o presidente brasileiro não economizou palavras: “aconselhou” claramente quem o ouvisse, sobre como agir em relação ao Irã.

“Eu disse a Obama, disse a Sarkozy, disse a Angela Merkel que nada ganharemos empurrando o Irã para as cordas. É preciso abrir espaços de conversação.” Aí, não fala só o presidente do Brasil. Nessas palavras falam os BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China). Sempre medindo cuidadosamente cada passo, Lula, em seguida, defendeu o direito “de Israel, que precisa viver com segurança, em Estado estável”.

A fórmula-chave do discurso de Lula sobre o dossiê nuclear iraniano é “a não-proliferação nuclear e o desarmamento nuclear devem andar lado a lado”. Para o Brasil e para os demais BRICs cabe à Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) avaliar e decidir sobre a questão nuclear iraniana; não ao Conselho de Segurança da ONU.

O Brasil, que possui a sétima maior reserva de urânio do mundo, enriquece seu próprio urânio para seu próprio programa nuclear; e ninguém acusa o Brasil de estar construindo bombas atômicas. A política externa brasileira sempre foi ativamente contra a ideia de imporem-se sanções unilaterais conta o Irã. Nas palavras de Lula: “É simples: os direitos que defendemos para nós, defendemos para todos.”

Ahmadinejad, que várias vezes referiu-se a Lula como “meu amigo”, adotou o mesmo tom. Admitiu, em programa de televisão, que Irã e Brasil “podem formar parcerias para construir usinas nucleares.” Ou, como estampava manchete de jornal iraniano, dia seguinte: “Possível cooperação nuclear com o Brasil”.

O jogo continua

O rápido tour de Ahmadinejad por cinco países de África e América do Sul – com a Venezuela de Hugo Chávez e a Bolívia de Evo Morales incluídas no circuito – significa que Teerã está vendo a América Latina como importante via comercial e de negócios, que poderá servir como importante linha de fuga, no caso de mais sanções comerciais ocidentais. Para a liderança política iraniana – o Guia Supremo, o Corpo dos Guardas Revolucionários e o partido político de Ahmadinejad –, o Brasil passou a ser v isto como parceiro comercial e parceiro estratégico.

Aí se vê em ação o diálogo sul-sul, ao estilo do mundo multipolar. Do ponto de vista do Irã, o Brasil é mediador possível e aceitável, nas duras negociações de vários problemas intratáveis com os EUA e Europa. O Brasil, por sua vez, aspira a ter assento permanente no Conselho de Segurança (aspiração que conta com o apoio do Irã); quanto maior a influência do “soft power” no Oriente Médio, melhor, também, para o Brasil.

O Irã absolutamente não está "isolado" – como a propaganda ocidental vive a repetir. Por exemplo, o país está ativamente empenhado em preservar seus direitos no Mar Cáspio, tem negócios de compra e venda de energia com a China e, já há algum tempo, está trocando seus dólares por euros.

No centro de incansável campanha para demonizar Ahmadinejad como “o novo Hitler” – depois de os EUA terem demitido Saddam Hussein –, seria ingenuidade esperar que a mídia ocidental empresarial-corporativa prestasse atenção ao que Ahmadinejad realmente disse no Brasil: que o Irã está realmente interessado em comprar no exterior o urânio enriquecido de que necessita; mas que não admitirá que o fornecedor imponha qualquer tipo de restrição ou determine os termos do negócio. Comentando o mais recente ‘plano’ da IAEA, segundo o qual o Irã enviaria seu urânio para ser enriquecido na Rússia e França, para que, depois, o mesmo urânio possa ser usado num reator para finalidades médico-terapêuticas, em Teerã, o que Ahmadinejad realmente disse foi “nenhum país independente jamais aceitaria tal proposta”.

Contudo, a questão-chave a ser debatida nos termos do acordo pensado pelo diretor-geral da IAEA, Mohamed ElBaradei e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança plus Alemanha, e o Iran, ainda é o volume do urânio enriquecido que seria mandado à Rússia, depois à França e afinal seria devolvido ao Irã, para ser usado como combustível nuclear. O Irã não aceitou esses termos e suspeita de que esse não seja, nem negócio equitativo para todos os envolvidos, nem negócio seguro para o Irã.

No Brasil, Ahmadinejad falou muito claramente, na conferência de imprensa. Disse ele: “Temos meios para enriquecer urânio a 20% e temos o direito legal de fazê-lo. Mas, para criar uma atmosfera de cooperação, estamos dispostos a discutir a possibilidade de comprar combustível nuclear.”

Ainda antes de o eixo Luladinejad ser fotografado, a mídia empresarial corporativa norte-americana já operava em modo “histeria máxima”. O Los Angeles Times "advertiu" o presidente Lula de que bastaria conversar com Ahmadinejad, e o Brasil correria o risco de “perder prestígio na arena global”. O New York Times "noticiou" que o encontro “esfriaria as relações entre Brasil e EUA, e comprometeria a reputação do Brasil como potência global.” Esse pessoal não entende o espírito da coisa.

Obama, por sua vez, escreveu carta a Lula lembrando-o da profunda desconfiança que o Irã inspira a Washington. Lula anunciou que telefonará a Obama. Lula receber lições de moral de Washington seria completo absurdo, se se sabe que, no início do ano passado, os EUA reativaram a 4ª Frota (a marinha de guerra dos EUA que cobre as águas do Caribe, da América Central e da América do Sul), que planejam erguer novas bases na Colômbia e que não condenaram com a ênfase que se deveria esperar o golpe militar de junho em Honduras.

Fato é que todo o Oriente Médio está buscando a mediação do Brasil. O ex-corretor moldoviano, Avigdor Lieberman, atual ministro dos Negócios Exteriores de Israel, esteve há quatro meses no Brasil e na Argentina. Semana passada, foi o presidente de Israel, Shimon Peres. E Abbas, da Autoridade Palestina, também lá esteve. Tradução: o Brasil, como um dos atores-chave que emergem hoje no sul global ao lado de outros BRICs, está sendo visto como país que tem a oferecer diplomacia global muito mais equilibrada do que a velha diplomacia dos velhos pesos-pesados EUA e Europa.

Trabalhar à maneira eficiente do Brasil exige competência e swing. Por exemplo, em sua fala semanal pelo rádio, semana passada, o presidente Lula propôs que se organize um jogo de futebol entre a equipe do Brasil (favorita para vencer a próxima Copa do Mundo) e um combinado de jogadores israelenses e palestinos. Boa ideia. E se a ONU aproveitasse a ideia do presidente do Brasil e patrocinasse um torneio de futebol entre os cinco da ONU (EUA, Rússia, China, França e Inglaterra)… plus Alemanha, plus Brasil e plus Irã?

Lembram-se da Guerra Fria, quando se promoviam torneios de ping-pong para começar a quebrar o gelo entre EUA e China? Em outras palavras: o presidente Lula acertou outra vez: parece que, sim, é chegada a hora de batermos bola política realmente a sério.

Tradução de Caia Fittipaldi. Foto Marcello Casal Jr./ABr.

Pepe Escobar é autor de Globalism: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War (Nimble Books, 2007) e Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge.
Acaba de lançar Obama does Globalistan (Nimble Books, 2009).
Recebe e-mails em pepeasia@yahoo.com .

O artigo original, em inglês, pode ser lido em:
http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/KK26Ak02.html



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