Bolívia – A multidão invísivel vai às urnas

Quem conversa com Andres Fermin Guzman por telefone demora a acreditar que ele é realmente boliviano. Além de falar português fluente e sem nenhum resquício de sotaque, possui celular brasileiro e sabe de cor...

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Quem conversa com Andres Fermin Guzman por telefone demora a acreditar que ele é realmente boliviano. Além de falar português fluente e sem nenhum resquício de sotaque, possui celular brasileiro e sabe de cor nomes de dirigentes dos principais partidos políticos de esquerda daqui. “É que sou casado com uma brasileira e venho muito a São Paulo”, explica. Grosso modo, pode-se dizer que Andres é o mais brasileiro dos políticos bolivianos. Natural do distrito de Pando, na fronteira com o Acre, é senador da república, vice-presidente da Comissão de Assuntos Internacionais da casa e um dos principais dirigentes do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales. Suas afinidades eletivas o credenciaram junto ao presidente boliviano para cumprir uma missão estrategicamente vital: conquistar o Brasil. Se não o país todo, pelo menos os votos dos milhares de imigrantes que vivem em solo brasileiro e que no último dia 6 puderam votar pela primeira vez. Essa reportagem foi fechada antes da abertura das urnas, mas deve chegar às bancas depois do processo eleitoral.

Cerca de dois milhões de bolivianos da diáspora estão aptos a votar mundo afora. O número é bastante representativo, uma vez que a população da Bolívia é de 8,5 milhões de habitantes. Essa massa ganhou o direito ao sufrágio graças à nova Constituição do país, aprovada no começo do ano. O investimento no Brasil teve como foco central a cidade de São Paulo. Em nenhuma outra do mundo vivem tantos bolivianos. "Não sabemos com precisão quantos vivem no Brasil, já que muitos estão em processo de regularização. Mas estimamos que sejam 130 mil, sendo a grande maioria em São Paulo", informa Álvaro Araoz, primeiro-secretário da embaixada boliviana em Brasília.

Para votar na eleição foi necessário levar apenas RG ou outro documento com foto, e 25 mil pessoas se credenciaram na cidade de São Paulo. Em suas vindas para a pauliceia, o senador Guzman assinou protocolos de colaboração mútua com PT e PC do B. Os dois partidos mobilizaram suas bases e disponibilizaram estruturas para o MAS. No caso dos comunistas, o acordo foi além. Durante reunião em Pando, Evo convidou pessoalmente o pagodeiro comunista Netinho de Paula para ser seu garoto-propaganda, missão aceita prontamente. “Apoiamos o Evo com ou sem protocolo de intenções. O acordo que fizemos com o MAS é o mesmo que fechamos com outros partidos de esquerda, como o Partido Comunista da China e partidos de esquerda da Itália. Isso não está vinculado apoio mútuo nas eleições brasileiras”, diz Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT.

A estreia nas urnas dos bolivianos que vivem em São Paulo chamou a atenção para a situação de penúria em que vive a maioria deles. Entre os maiores redutos estão os bairros do Brás, Bom Retiro, Mooca e Canindé, onde eles enfrentam uma rotina espartana, para dizer o mínimo, operando máquinas de costura a soldos mínimos e, não raro, em situação análoga à escravidão. Mas a olho nu também é fácil encontrá-los, especialmente na Praça da República, no centro, onde tocam a tradicional zampona ou vendem artesanato para sobreviver. Nos últimos anos, muitos migraram para a região do Vale do Itajaí, no sul, um conhecido polo têxtil. O processo eleitoral foi um impulso importante para que as autoridades dos dois países acelerassem o processo de regularização e reconhecimento dessa massa invisível. Fórum preparou quatro perfis que ilustram como vivem, o que querem e como votam nossos hermanos.

La madre y su hijo
Todos os domingos Socorro Nunes compra um cartão telefônico internacional e liga para a casa de sua mãe, em Cochabamba, para falar com o filho, Nuno*, de 5 anos. Ele tinha apenas dois quando ela decidiu vir ao Brasil. "Toda semana ele me pergunta: ‘Mamãe, quando você vai voltar?‘. E eu respondo: ‘em breve…‘". Socorro pretende retornar ano que vem, quando Nuno entrará na escola. "Tenho que estar ali com ele, aproveitar esse momento de sua vida". Mas com 26 anos de idade e sem profissão definida, ela teme ser obrigada a esperar um pouco mais. “No meu país os salários são muito baixos e as economias não são suficientes. Por isso tantos compatriotas seguem para o exterior – um de meus irmãos mora na Espanha e outro na Argentina. Quero dar o melhor a meu filho, dar o que minha mãe não pode me dar. Não desperdiço nenhum momento. Aproveito meus dias enquanto ainda estou jovem e bem de saúde", esclarece.

Ela saiu da Bolívia sozinha e sem conhecer ninguém no Brasil. As primeiras semanas foram muito difíceis e só não desistiu porque veio determinada a trabalhar. Socorro não conhecia o dinheiro brasileiro, não sabia falar o idioma e ficava assustada com o tom de voz das pessoas porque, segundo ela, os bolivianos "não falam forte". Com frequência, se perdia nas ruas de São Paulo. "Na Bolívia, se você quer ir para a cidade, para o terminal, qualquer ônibus te leva. Aqui, precisa de números, nomes", explica, misturando espanhol e português. Chegou em São Paulo sabendo que teria uma ocupação. "Como todo boliviano, trabalho na costura. Faço de tudo: calças, camisas, casacos, menos calcinhas." Seu expediente vai das 7 às 22h, com uma hora de descanso no almoço e outra no jantar. "Meu chefe não é tão mau", diz. Em sua oficina, garante, “só há bolivianos trabalhando”. E é com eles que divide também a moradia.

Mas para a jovem comer, morar e trabalhar no mesmo lugar é melhor, já que assim não precisa ter despesas com aluguel. Socorro confirma, sem revelar maiores detalhes, que ganha de R$ 0,30 a R$ 1 por hora, o que resulta num ganho entre R$ 400 e R$ 500 mensais. "Eu já troquei uma vez de trabalho porque não ganhava muito. Se eu trabalho mais, tenho que ganhar mais e vice-versa. Vim para esse país para ganhar e não para perder. Escolhi o Brasil porque é mais perto. Já voltei para a Bolívia e minha mãe e meu filho já vieram para cá. São três dias de viagem para chegar lá, mas estou acostumada a ficar sentada em frente à máquina de costura. Viajei num ônibus clandestino”.

Mesmo com a saudade "demasiada" que sente de casa, Socorro revela: tem medo de se apaixonar por alguém e acabar tropeçando no caminho. Quando voltou à Bolívia, Socorro, segundo sua própria avaliação, diz ter encontrado um país péssimo. "Eu não votaria no Evo Morales. Eu não vou votar em ninguém, vou votar em branco", afirma, esclarecendo que só se cadastrou porque o comprovante de voto a desobrigará de pagar certas taxas, como na fronteira. Socorro está ilegal no Brasil, mas aposta que ainda em novembro vai conseguir regularizar sua situação. Com o dinheiro que conseguiu economizar comprou muita coisa que queria e agora chegou a vez de priorizar seus estudos. "Quero ser cabeleireira. Já tenho tudo lá", confessa. E já faz planos: chegando em Cochabamba vai listar os seus possíveis clientes e contar com a ajuda dos conhecidos para sua divulgação. Ela não vê a hora de fazer a cabeça dos bolivianos.

Ambição na fronteira Assim como grande parte dos bolivianos, ao chegar no Brasil, há quatro anos, Guillermo Camani*, hoje com 26, foi empregado na costura. Mas, como poucos, atualmente trabalha por conta própria. Durante a semana, dedica-se à venda de cartões telefônicos internacionais. Entre a madrugada e a manhã, das 4 às 8h, fixa ponto na rua Oriente, local que concentra muitos bolivianos. No fim de semana participa de duas feiras, uma no sábado, outra no domingo. Nesses dias, no entanto, junto com os cartões vende outras mercadorias.

Na barraca de Guillermo é possível encontrar artesanatos bolivianos, alguns biscoitos típicos, adesivos, revistas e fotos de Evo Morales. Os clientes, garante o comerciante, são em sua maioria os próprios conterrâneos. A rotina pesada, segundo ele, compensa. "Aqui no Brasil tenho dinheiro, trabalho e minha pequena empresa. Eu não paro porque sou muito conhecido, recebo pedidos por atacado, então tenho que ficar nessa correria para fornecer. Daí você investe mais porque se não guardar dinheiro nunca vai ver que sua loja está crescendo. Antes, Guillermo ficava sozinho na barraca e era o responsável por organizá-la, vender os produtos e dar atenção aos clientes, mas agora "contratou" duas funcionárias, também bolivianas, para ajudá-lo nos dias de feira.

Apesar das conquistas, sua vida não é tão boa quanto gostaria. "Eu pago R$ 200 de aluguel, pago minhas contas de água, luz, tudo. Só Deus sabe como eu moro." Além disso, ainda não arrumou nenhuma namorada e como todos os seus seis irmãos já estão casados, uma certa apreensão começa a lhe bater. "Brasileira ou boliviana, tanto faz. Eu aceito o que Deus mandar." Por enquanto, não pretende voltar para casa, em Santa Cruz de La Sierra. Tem planos de daqui a uns dois anos abrir uma pequena rede de exportação, uma loja no Brasil, outra na Bolívia, com produtos dos dois países. Guillermo trabalhava como segurança privado e conta que veio para cá de férias, já sabendo das condições de empregabilidade que existiam. Acabou ficando. "A maior dificuldade que tive quando cheguei foi o idioma", revela com um forte resquício do espanhol. Já adaptado, diz que gosta de tudo no Brasil: a comida, o clima, as pessoas. "Não tem do que falar mal", conclui.

Apesar de preferir omitir o verdadeiro nome por receio da repercussão da matéria, ele diz que já está legalizado no país. “Tenho documento brasileiro, CPF, tudo certo. Até me cadastrei para participar das próximas eleições. É importante votar por causa da democracia, da liberdade de expressão, das diversas opiniões". Guillermo, que se diz eleitor de Evo Morales, argumenta que seu país melhorou e as mudanças devem-se ao atual presidente. "O governo está dando dinheiro para que as crianças possam estudar mais, para as pessoas de idade, as que estão doentes e para as mulheres que estão grávidas. Ele demonstrou muito trabalho e eu pretendo apoiá-lo".

Um mineiro da Bolívia Ivan Jesus Alarcon fala um português quase perfeito e ainda se permite incluir gírias brasileiras ao longo da conversa. Credita este feito aos três anos que morou em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde também aprendeu que o mineiro é "gente boa". Aos 30 anos, acumula uma trajetória de idas e vindas dentro do Brasil. Ao chegar da Bolívia, há cinco anos, se instalou em São Paulo e logo começou a trabalhar numa oficina de costura. Não gostou da cidade, que acha muito movimentada e corrida, tampouco do trabalho, e sentiu muita dificuldade com o idioma. "Eu queria fazer um intercâmbio de culturas, mas não podia, pelo fato de as pessoas não entenderem nada do que eu falava e vice-versa", lembra. Ficou aqui só cinco meses e partiu para Belo Horizonte convidado por um amigo que, metido em confusões, corria o "risco de apanhar".

Por lá conheceu a mulher, uma brasileira, e tiveram uma filha, Rhandrya Leticia, que completa 3 anos em dezembro. "Minha filha tem um nome indígena daqui do Brasil. O Brasil tem uma cultura muito escondida que o brasileiro não conhece. Quando eu fui a Ouro Preto, a Diamantina, eu pude descobrir", conta. Em Minas Gerais, Ivan continuou trabalhando com roupas, mas dessa vez, mais ligado às vendas. Hoje se divide entre três trabalhos: de segunda à sexta faz pilotagem – a primeira peça de roupa que vai ser distribuída nas oficinas –, também durante a semana dá aulas de espanhol, no fim de semana se divide entre o restaurante boliviano e a salteñaria, além disso pratica música. "No domingo eu vou para casa, às 19h, dormir porque segunda eu acordo às 7h30. Eu só consigo isso por força de vontade".

Como sua situação financeira melhorou muito e ele conseguiu fazer um curso de aperfeiçoamento em modelagem, vai voltar para Belo Horizonte em maio para ficar perto da esposa e da filha. Aliás, por causa de Rhandrya, conquistou a documentação permanente e hoje está legalizado no país. Mesmo assim, Ivan não vai votar nas próximas eleições porque não teve tempo para fazer o credenciamento. "Eu pesquisaria um candidato bom porque muita gente fala que o Evo está fazendo coisas boas, mas não é só falar, tem que ver mesmo. Votando, você está criando um futuro para seu país". E acrescenta que antes eram quatro partidos políticos no governo e que todos roubavam, comprando voto em troca de comida. "Não era nada democrático."

Sua família está na Bolívia, com exceção de uma irmã que também mora aqui. Os outros quatro irmãos chegaram a vir para cá, mas não gostaram. Hoje, fazendo uma avaliação do tempo em que está aqui, Ivan confirma que seus compatriotas sofrem discriminação por não falar português e por serem fechados. Mas sente o preconceito "quando falam, por exemplo, que o boliviano bebe muito, enche a cara, fica jogado na rua, mas isso não são todos". Integrado ao modo de vida brasileiro, esclarece que já não passa mais por isso. Mas garante que o brasileiro tem um conceito distorcido de que a droga só sai da Bolívia e da Colômbia. "E de nenhum lugar mais", ironiza à moda da casa.

Sonhos juvenis Maria José Lopes* poderia muito bem ser uma dessas personagens retratadas nas novelas – como América, que expôs parte do drama dos brasileiros que atravessam a fronteira dos Estados Unidos. A jovem agrega a maioria das características comuns aos imigrantes: sonhadora, saiu de La Paz, capital da Bolívia com apenas 21 anos, depois de concluir os estudos, para conquistar sua independência, melhorar de vida e ingressar na universidade. Por isso, passado apenas um ano e meio da sua chegada ao Brasil diz que ainda tem muitas metas para atingir por aqui antes de voltar para casa. Mesmo porque, apesar da saudade natural de quem deixa para trás familiares e amigos, Maria José, diferentemente de outros compatriotas, afirma gostar da sua vida no novo país. "Fiquei e gostei. As pessoas me receberam bem aqui", conta. Retribui o acolhimento esforçando-se na pronúncia do português.

"Tenho um propósito. Eu quero ser engenheira de produção empresarial. São cinco anos de estudo. É preciso sacrificar-se para conseguir isso", diz, na esperança de que as portas se abram para ela no Brasil. O sacrifício a que se refere é a rotina diária a que se submete na oficina de costura em que trabalha, no Jardim Brasil, bairro da Zona Norte de São Paulo. Como overloquista – tipo de costura e acabamento das bordas de roupas para que não se desfiem –, ela inicia a jornada às 7h30 e só termina às 22h, parando somente para o almoço e o lanche, sendo que essa carga pode aumentar caso a demanda também aumente. Como em todas as outras confecções que empregam os bolivianos num regime considerado de semi-escravidão, os chefes são responsáveis por oferecer alimentação e moradia, por isso, eles trabalham, comem e dormem na mesma casa. No pouquíssimo tempo que lhe sobra, Maria José assiste TV, ouve rádio e ainda ajuda na cozinha. "Gosto muito de cozinhar e cozinho muito bem. Também queria fazer faculdade de gastronomia para aprender comidas internacionais", acrescenta.

Cansada de ficar em casa, começou a frequentar a tradicional Feira Kantuta, no Pari, que reúne, aos domingos, bolivianos em busca de pratos e músicas típicas do país, além de ser um momento para distração e um ponto de encontro para paqueras. Maria José é uma das atendentes das várias salteñarias dispostas ao redor da praça. Indica, sempre que solicitada, a empanada de queijo ou a salteña de frango. Assim, consegue juntar mais um pouco de dinheiro às suas economias. "Quando tenho um dinheirinho de sobra eu mando para a minha mãe. Meus pais não trabalham mais, são de idade, mas minha mãe tem uma pensão", recorda. Na Bolívia também ficaram quatro de seus irmãos – o quinto já mora no Brasil há oito anos com mulher e filho brasileiros. Com orgulho, conta que o mais novo já está na universidade cursando engenharia de sistemas, que o outro é formado em engenharia agrônoma e que o terceiro gosta mesmo é de jogar futebol.

Para a jovem, a situação do seu país mudou muito desde que Evo Morales assumiu a presidência. "Ele está fazendo coisas melhores, está conseguindo fazer o que propôs. Já não há mais corrupção, o governo paga um salário fixo para cada ministro, para o vice-presidente, nem mais para um, nem menos para outro", esclarece. E acrescenta outras melhorias: "Estão dando bônus para os alunos de 1ª e 2ª séries para incentivá-los a estudar mais, bônus para as mulheres grávidas", indicando o voto a favor da reeleição. Aliás, Maria José afirma que foi a primeira a se cadastrar para a votação porque a abertura do credenciamento coincidiu com o momento em que estava fazendo a sua documentação. A jovem ainda está em situação irregular no país porque, segundo ela, a 4ª e última via necessária dos documentos ainda não foi liberada. "Daqui a um ano devo conseguir e daí ingresso na universidade. Tenho muitos sonhos. Sonhar não custa nada."

*Nomes fictícios.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 81. Nas bancas.



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