Bombardeio de “aviso”, suborno e business no Paquistão

Com o maior ataque com mísseis teleguiados feito por drones (aeronaves não tripuladas utilizadas para ataques militares) até o momento, no Paquistão, os EUA enviaram mensagem clara sobre sua renovada determinação de destruir os talibãs e...

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Com o maior ataque com mísseis teleguiados feito por drones (aeronaves não tripuladas utilizadas para ataques militares) até o momento, no Paquistão, os EUA enviaram mensagem clara sobre sua renovada determinação de destruir os talibãs e os santuários da al-Qaeda nas áreas de fronteira entre Paquistão e Afeganistão.

Funcionários do governo do Paquistão dizem que nove aviões-robôs teleguiados dispararam 19 mísseis na noite de 3ª-feira sobre a vila de Dattakhel, na área de Degan no Waziristão Norte, saídos da província de Khost, no Afeganistão, matando 31 pessoas e ferindo muitas outras.

Oficiais da segurança que falaram ao Asia Times Online (Atol) dizem que o principal alvo parece ter sido o líder dos talibãs afegãos, Sirajuddin Haqqani. “O volume extraordinário do ataque, com fogo cerrado de uma coluna de aviões-robôs, é resultado de recente trabalho dos serviços de inteligência ao longo de regiões de fronteira” – disse a Atol um oficial da segurança, que pediu para não ser identificado.

“Os americanos estão subornando pesadamente o pessoal das tribos [afegãs], para recolher informação sobre militantes e seus esconderijos na fronteira com o Paquistão. Esperam-se para os próximos dias negócios similares nas agências em Orakzai, Khyber Agency, Bajaur e Mohmand” – disse a mesma fonte.

Conforme relatos que Asia Times Online não conseguiu confirmar, os EUA já teriam pago cerca de US$ 12 milhões entre os homens da tribo Shinwari em seis distritos da província afegã de Nangarhar. Esperam assim obter informação detalhada sobre a Brigada Tora Bora, dos Talibã, cujas bases estendem-se do distrito Khogyani de Nangarhar até as montanhas Tora Bora e por toda a fronteira até o vale na agência Khyber; Parachinar na agência Kurram; e na agência Orakzai. A tribo Shinwari vive dos dois lados da linha Durand que separa Afeganistão e Paquistão e mantém relações comerciais ativas e extensivas em toda a área.

Abordagem semelhante tem sido adotada também com outras tribos afegãs ao longo das fronteiras, sobretudo para identificar militantes antiocidentais, alvos principais da operação.

Ao longo dos últimos cinco anos, o serviço secreto paquistanês e a CIA têm tentado construir uma rede de informantes nas áreas tribais do Paquistão, mas os informantes têm sido sistematicamente identificados e mortos pelos militantes. Por isso, agora, CIA e ISI têm procurado informantes que tenham laços familiares ou comerciais dos dois lados da fronteira.

O ataque com aviões-robôs teleguiados e o trabalho da inteligência são parte da abordagem “linha dois” dos EUA, que também prevê presença militar cada vez maior em território paquistanês.

Na 4ª-feira, três soldados estadunidenses foram mortos e outros dois feridos em ataque a bomba em Lower Dir. O ataque, no qual um soldado paquistanês e três meninas foram mortos, além de centenas de feridos, marca o primeiro ataque direto do talibã contra militares dos EUA em território paquistanês. A bomba explodiu junto a um comboio de segurança que acompanhava um ônibus escolar que levava alunos para o reinício das aulas, depois de a escola ter sido destruída por outro ataque de militantes locais.

O exército paquistanês está pesadamente engajado na luta contra os guerrilheiros talibãs em Bajaur, localizada numa das principais linhas de suprimento para os talibãs afegãos nas províncias de Kunar e Nuristão. Em novembro último, o talibã praticamente assumiu controle completo sobre o Nuristão e obrigou as forças dos EUA a evacuar as três principais bases militares na província.

A embaixada dos EUA em Islamabad declarou que os três soldados mortos trabalhavam no treinamento do Corpo de Guardas de Fronteira do Exército Paquistanês. Até agora, só se sabia de cursos de treinamento para contraguerrilha em Peshawar, capital da província Fronteira Noroeste, e em Buner na mesma província.

Por implicação, estando os soldados tão distantes dos centros de treinamento para os quais estão designados, é razoável supor que estivessem supervisionando as operações do Corpo de Guardas da Fronteira nas agências de Lower Dir ou Bajaur, onde há duro combate contra militantes Talibã e da al-Qaeda – com pesadas baixas dos dois lados, nos últimos dias.

Os EUA estão pondo em operação essa sua “linha dois” de ação, em conjunção com a iniciativa, também em andamento, de buscar diálogo com alguns elementos dos talibãs. É processo que ainda terá de avançar muito. De fato, o movimento da ONU, de remover cinco ex-comandantes dos talibãs afegãos de sua lista negra de terroristas pouco significa, uma vez que os cinco já se haviam separado dos talibãs em 2001, imediatamente depois da queda do regime.

A ONU anunciou que aqueles cinco estão agora liberados para viajar e seus bens foram descongelados. Os cinco foram membros do governo dos talibã e tornaram-se proscritos em 2001. São eles: Abdul Wakil Mutawakil, ex-ministro das Relações Exteriores do governo dos Talibã; Faiz Mohammad Faizan, ex-subsecretário do ministério do Comércio; Shams-us-Safa, ex-funcionário do ministério das Relações Exteriores; Mohammad Musa, ex-assessor do ministério do Planejamento; e Abdul Hakim, ex-assessor do ministério das Fronteiras.

Desses, o mais interessante é Abdul Hakim, o qual, depois de fugir do Afeganistão, convocou, com vários outros ex-governadores provinciais do mesmo governo talibã que acabava de ser deposto, uma conferência de imprensa, no Paquistão, na qual anunciaram a formação do grupo Jamiat Khuddamul Koran. Esse grupo, com o apoio do serviço secreto paquistanês, condenou o líder talibã Mullah Omar por oferecer santuário a Osama bin Laden e sua al-Qaeda no Afeganistão.

O grupo Jamiat Khuddamul Koran desapareceu de cena alguns meses depois; e Abdul Hakim reapareceu em Cabul, capital do Afeganistão, onde se tornou parceiro leal do presidente Hamid Karzai. A maioria dos demais membros do grupo uniram-se depois aos talibãs na luta contra a presença de soldados estrangeiros no Afeganistão.

Said Salim Shahzad é jornalista, diretor da sucursal de Asia Times Online no Paquistão. Recebe e-mails em saleem_shahzad2002@yahoo.com

O artigo original, em inglês, pode ser lido em:
http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/LB05Df01.html



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1 comment

  1. s

    enquanto os aviões-robôs são destaques nas notícias… as mortes de inocentes lá embaixo ficam, literalmente, em segundo plano.

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