Bushland, capital: Abu Ghraib

“Procedimento Operacional Padrão”, o novo documentário de Errol Morris, chega às telas brasileiras estrategicamente neste final de semana, às vésperas da disputa que decidirá o sucessor de George W. Bush. Depois de vencer o...

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“Procedimento Operacional Padrão”, o novo documentário de Errol Morris, chega às telas brasileiras estrategicamente neste final de semana, às vésperas da disputa que decidirá o sucessor de George W. Bush. Depois de vencer o Oscar ao dissecar, em “Sob a neblina da guerra” (2003), os principais equívocos da política externa dos EUA no pós-guerra, Morris concentra o foco desta vez no mais covarde episódio da corrente guerra do Iraque: as fotos de militares humilhando e torturando presos iraquianos na prisão de Abu Ghraib.

Um dos maiores triunfos do filme é esta precisa delimitação de tema. Menos é mais. Morris detalha os fatos e explica as causas do escândalo militar de Abu Ghraib.

A antiga e gigantesca câmera de horrores de Saddam Hussein, situada a cerca de 40 km de Bagdá, se tornou a central de interrogatórios das tropas americanas no Iraque. Com o ex-ditador ainda em fuga, o comando das operações pressionou os subalternos por informações a qualquer preço, trazendo os métodos desumanos aplicados em Guantánamo e no Afeganistão. Jovens despreparados ultrapassaram novas barreiras visando “quebrar” a resistência dos detidos. Deu no que deu.

O dispositivo documental de Morris se repete aqui sem maiores novidades. A narrativa se constrói a partir de entrevistas (algumas pagas) com a maior parte dos soldados envolvidos, das fotos e mesmo de um vídeo que registraram as violações aos direitos humanos e da reencenação de alguns episódios. A hiper-estilizada dramatização das agressões não cumpre desta vez o papel problematizador de outros de seus filmes, notadamente “A Tênue Linha da Morte” (1988).

Nenhuma voz se ergue ou descontrola durante as entrevistas. O depoimento mais enraivecido é colhido da general Janis Karpinski, a comandante das prisões militares no Iraque incluindo Abu Ghraib, que não tinha qualquer experiência prévia de gestão penitenciária e foi afastada na esteira da revelação das atrocidades pelo repórter Seymour M. Hersh de “The New Yorker” em abril de 2004. Karpinski logo de saída vincula a escalada das crueldades ao método vale-tudo importado pelo general Geoffrey Miller, ex-chefe de Guantánamo, e pelo tenente-general Ricardo S. Sanchez, comandante supremo no Iraque.

Morris nos mostra como, a partir das fotos, foi reconstituída a cadeia temporal dos eventos. O filme desenvolve-se então dissecando cada um dos principais episódios fotografados. O sereno depoimento de seis dos sete soldados revela a participação de cada um naquela espiral de horror.

Apenas um deles não teve seu depoimento autorizado, não por coincidência o que parece liderar a gang: o cabo Charles A. Graner, que cumpre uma pena de dez anos. É fácil reconhecê-lo em várias das imagens, com o mais velho dos soldados. Graner namorava simultaneamente duas das protagonistas daquele circo de crueldades: a soldado raso Lynndie England, a quem engravidou e abandonou, e, sem que ela soubesse, a cabo Megan Ambuhl, com quem se casou.

Lynddie, então com 21 anos, surge na tela inchada e depressiva, tentando justificar sua participação por cegueira amorosa. É ela a presença feminina mais constante, por exemplo na chocante imagem do prisioneiro forçado a se masturbar. Megan, por sua vez, se sente injustiçada por pretensamente ter sido apenas uma testemunha.

A terceira envolvida, a cabo Sabrina Harman, busca nas cartas que enviou regularmente à namorada nos EUA a prova de que fotografou tudo para ter “provas” das torturas. Ao comentar a foto dela própria sorrindo e fazendo sinal de positivo com o polegar ao lado do cadáver de um prisioneiro assassinado por espancamento, justifica-se dizendo jamais saber o que fazer diante das câmeras. Cada depoente masculino tem também sua personalíssima explicação.

O inquérito catalisado pela denúncia contrapôs duas classificações aos episódios. Procedimento operacional padrão versus atos criminosos. A pirâmide de presos nus simulando atos sexuais é um exemplo do segundo. Um exemplo do primeiro? O prisioneiro encapuzado, com um cobertor no corpo, de pé num caixote e com fios pretensamente eletrificados amarrados nas mãos e na genitália.

Os sete soldados subalternos receberam variadas penas, incluindo prisões de seis meses a dez anos (só Megan escapou). Nenhum superior foi criminalmente punido. “Foi um bando de crianças que se tornou o bode expiatório”, conclui um investigador entrevistado. Ou “sem foto, sem crime”, como dizem Philip Gourevitch e Errol Morris na versão expandida em livro do filme. Assim foi a era Bush.

(Originalmente publicado no site É tudo Verdade)

Confira o trailer



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1 comment

  1. Joelma

    Essas imagens mostram que mais doque nunca Castro Alves continua certo. “Existe um povo que a bandeira empresta para cobrir tanta infâmia e covardia! e deixa-a transformar-se nesta festa em mando impuro e bacante fria! meu deus!meu deus!mas que bandeira é esta que impudente na gávea tripudia? Silêncio,musa,chora e chora tanto que o pavilhõ se lave em seu pranto“ “Dizei-me senhor deus dos desgraçados se é verdade ou se é mentira tanto horror perante os céus“

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