Cafeicultores peruanos cultivam educação na selva

JUNÍN, Peru, 29 de dezembro (Tierramérica).- “Sem café, não há futuro”, dizem produtores de Selva Alta, na central região peruana de Junín, que promovem e dirigem escolas próximas de suas propriedades, para que seus...

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JUNÍN, Peru, 29 de dezembro (Tierramérica).- “Sem café, não há futuro”, dizem produtores de Selva Alta, na central região peruana de Junín, que promovem e dirigem escolas próximas de suas propriedades, para que seus filhos não deixem de estudar. A produção de café ganhou grande impacto social no Peru nos últimos anos, quando e tornou o principal produto agrícola de exportação, o sustento de mais de 160 mil famílias das zonas cafeeiras de Selva Alta e fonte de emprego para dois milhões de pessoas que participam da cadeia produtiva.

Da produção peruana de café, 90% é vendida no exterior. Em 2007, as exportações somaram US$ 415 milhões e, segundo projeções da Junta Nacional do Café, principal sindicato de pequenos produtores, chegariam a US$ 600 milhões este ano, dez vezes mais do que os valores de 1993.

Entretanto, nem tudo o que brilha é ouro no setor cafeeiro. O boom atrai mais famílias e complica o já difícil acesso de crianças e jovens à educação nas regiões cafeeiras de dez departamentos peruanos, por falta de meios de transporte e estradas ou simplesmente porque não há escolas nem material didático.

Estudante, não há caminho

“Minha propriedade fica ao lado de San Pablo de Quimotari, no distrito de Pangoa”, diz ao Terramérica a jovem Norma Huaringa, filha de produtores da província de Satipo, em Junín. “Ali estudei o primário, e tinha de andar meia hora da minha casa até a escola todos os dias. Completei o primário e estudei (o secundário) no colégio do distrito, mas também tinha de ir da minha chácara até o povoado de moto e, às vezes, andando”, conta.

A história é apenas uma pincelada do quadro nas províncias de Chanchamayo e Satipo. Basta uma visita para encontrar no trajeto crianças e jovens andando rapidamente para chegarem à escola ou voltarem para casa. Às vezes, as caminhadas duram mais de uma hora, em caminhos abertos na selva, onde os menores estão expostos a perigos tão diversos como mordidas de cobra, abuso sexual ou um escorregão na margem de um rio.

As crianças vivem na chácara e vão a escolas que às vezes ficam a mais de um quilômetro, e quando chega a idade de ir para o colégio são levados ao povoado e aí começam outros problemas”, diz ao Terramérica a gerente da Cooperativa Cafeeira Pangoa, Esperanza Dionísio. “Alguns são trazidos de motocicletas, para serem melhor controlados, porque estão propensos ao vício das drogas e às gangues, coisas que já estão ocorrendo na região”, acrescenta.

Escassos recursos
O Ministério da Educação conduz a política do setor com instâncias descentralizadas, com as Direções Regionais de Educação (DRE) e as Unidades de Gestão Local, encarregadas de administrar e avaliar as instituições educacionais locais. Na Selva Central ficam 33% das instituições educacionais de Junín, quase 1.300 entre públicas e privadas, que incluem ensino inicial, primário, secundário e superior, segundo o Breviário Estatístico Educacional 2007-2008, elaborado pela DRE desta região. Destas escolas, 95% estão em zonas rurais, afirma o professor Jaime Soriano, da área estatística de Satipo.

A demanda por escolas e colégios cresceu muito, afirma Soriano. “Em 2006, foram criadas mais de 74 instituições educacionais nos diferentes níveis. Apesar disto, ainda há necessidade porque os problemas sociais da década de 80 fizeram com que as pessoas partissem desta região, e agora retornam com suas famílias”. Entre 1980 e 2000, o Peru viveu a guerra interna contra a insurgência maoísta do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Túpac Amaru. Hoje, há muito poucas escolas rurais com infra-estrutura adequada, segundo Soriano. Os livros úteis são escassos, pois o “orçamento do Estado é limitado”.

O ministro da Educação, José Antonio Chang, anunciou, em outubro, um aumento, para o próximo ano, de 4,3% do orçamento da área em 2008. Porém, este valor passa pouco dos 3% do produto interno bruto e não cumpre com o aumento progressivo estabelecido na Lei Geral de Educação.

Pouca escola e pouca comida

Na comunidade nativa yánesha de Alto Yurinaki, parte da província de Chanchamayo, a escola 64441 conta com 28 alunos, agrupados em duas salas de aula, cada um com uma professora. “Este ano, o Estado nos deu poucos livros e não foram recolhidos porque os trâmites são muito caros”, conta a professora Nancy Medina. “Somos um pouco esquecidos, não contamos com giz nem materiais educativos porque, talvez, desconheçam nossa realidade, somente a cidade tem prioridade”, ressalta. Há outro motivo para a má educação em zonas cafeeiras.

A cesta familiar dos nativos da comunidade, e de quase toda a população rural, está baseada em produtos de subsistência, como banana, mandioca, cará e milho. Poucos podem ter acesso a uma dieta balanceada, com vários tipos de carne e leite todos os dias. Segundo o Censo Nacional de Talla, feito em 2005 com alunos de seis a nove anos, 83% dos estudantes de Junín com desnutrição crônica moram em Huancayo, Chanchamayoi, Satipo, Jauja e Tarma. Satipo fica entre as três províncias com mais desnutrição crônica, diz o estudo.

Mãos à obra

Como resposta, os cafeicultores empreenderam a tarefa de promover a educação de seus filhos. Nos Centros Educacionais de Gestão Comunitária os pais pagam o salário dos professores e alguns gastos com infra-estrutura, às vezes com apoio de autoridades locais, enquanto o Estado cuida de designar o pessoal, aprovar a escola e entregar algum material. “O papel dos pais é abnegado, porque se preocupam com os móveis e a estrutura das escolas e assumem o gasto, apesar de seus poucos recursos”, conta Soriano.

A Cooperativa Agrária Ecológica Alto Palomar, em San Luis de Shuaro, Chanchamayo, instalou, há quase quatro anos, um centro diurno de educação infantil dirigido por seus sócios, pequenos cafeicultores, e com apoio da cooperação internacional. Nesse local há meninos e meninas de três a cinco anos. As escolas estão bem próximas da Cooperativa, encravada na zona de cultivo do grão. De segunda a sexta-feiras há aula, recreação e alimentação para as crianças, o que permite que as mães trabalhem em suas terras, sejam ou não sócias da entidade.

“A cooperativa procura otimizar a qualidade e a produção do café, mas também a qualidade humana de seus sócios. A partir de um remoto lugar, damos um primeiro passo para melhorar a educação”, disse ao Terramérica a presidente da Cooperativa, Marta Janampa. Busca-se que “as demais organizações cafeeiras repitam a experiência do centro diurno ou das escolas comunitárias”, diz o assessor da Cooperativa, Feliz Marin. No entanto, é preciso comprometer as autoridades, “porque muitas cooperativas cafeeiras e muitos produtores estão fazendo o papel que o governo deveria fazer”, ressalta.

Em Satipo funcionam 66 escolas comunitárias, 46 em territórios de comunidades nativas. Em 1986, a Cooperativa Cafeeira Pangoa implementou um colégio cooperativo, conta Dionísio. A educação pública era deficiente, os preços do café eram bons e os pais podiam pagar o estudo dos filhos no colégio. Mas, com a queda no preço do café a partir de 1998, a experiência ficou insustentável e “tivemos de vender o colégio”, recorda Marin.

Com informações de Tierramérica.



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