Cansei, cansamos

editorial de Agosto Por   A Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB/SP) e entidades empresariais lançaram, no dia 26 de julho, um “movimento cívico”...

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editorial de Agosto

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A Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB/SP) e entidades empresariais lançaram, no dia 26 de julho, um “movimento cívico” com o mote “Cansei”, contra a corrupção e a crise aérea. São protestos contra “tudo que há de errado”, sem explicar de forma clara qual é a pauta de reivindicações. Tudo com ampla divulgação na mídia. Sintoma da conquista da democracia, que permite a livre organização e a manifestação de pensamento. Até mesmo se a finalidade for muito pouco democrática.
Não nos alinhamos a tão iluminado movimento, mas existem outros temas que também cansam Fórum. Desigualdade social, pobreza, violência policial contra comunidades pobres, sexismo, racismo. A guerra do Iraque, a ocupação do Afeganistão e outras ingerências de grandes potências que não têm perspectivas de solução efetiva.
São questões que parecem não incomodar nem mobilizar os sentimentos cívicos do empresariado, nem ter o conveniente apoio da grande imprensa. Até uma tragédia do porte do acidente do Airbus da TAM serve como mote para uma classe que sempre financiou – e assim vai continuar – projetos, idéias e candidatos a cargos públicos que resguardassem os seus interesses, a despeito de todo o caos social, que, de tão cotidiano que é para a maioria da população, parece natural, hereditário e imutável. Não é.
E os “militantes” cívicos sabem disso. Alheios à realidade que os cerca, protestam contra impostos, encargos trabalhistas, previdenciários e até mesmo por conta de discretas realocações de verbas públicas em prol de quem nunca teve sequer seus direitos básicos assegurados. Direitos que de tão básicos chegam a ser ínfimos, mas adquirem ares de grandiosidade em um país com uma história de desigualdade social pornográfica como a nossa.
Essa desigualdade nunca cansou os doutores de gravata que latem ferozes contra a corrupção que muitos deles, de seus familiares, de seus pais ou avós cansaram de alimentar, com o beneplácito ou a cumplicidade de governos ditatoriais ou pseudo-democráticos.
Isso nunca cansou. Quem se locupleta, não se cansa. Reclama de atrasos nos vôos, mas nunca olha para os dois ou três ônibus lotados que sua empregada toma para chegar ao trabalho e ganhar um salário mínimo. Se ela se atrasa, talvez nem uma greve justifique sua falha. E ela não se cansa. Porque não tem o direito de se cansar.
Não vivemos hoje em um mar de rosas e estamos longe de qualquer ideal de uma sociedade igualitária. Mas olhando para trás sabemos que o único caminho que nos permite avançar como um país que de fato pretenda ser mais justo é a democracia.
E talvez esse seja o verdadeiro valor que cansa esses senhores.



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