Catadoras de recicláveis do DF discutem questões de gênero

 Elas pulam cedo da cama, cuidam dos filhos e da casa. Depois, partem para uma jornada de até dez horas diárias. A maioria delas vive em moradias precárias, em áreas com pouco ou nenhum...

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 Elas pulam cedo da cama, cuidam dos filhos e da casa. Depois, partem para uma jornada de até dez horas diárias. A maioria delas vive em moradias precárias, em áreas com pouco ou nenhum equipamento urbano, como creches, escolas ou hospitais; a maioria é responsável pela família e têm orgulho do trabalho que garante o sustento de sua família.

A atividade que desenvolvem facilita a lida nos lixões e contribui para diminuir o impacto dos resíduos sólidos despejados no ambiente. Elas não têm, no entanto, seu trabalho reconhecido. Além disso, são vítimas de preconceitos. Essas mulheres são catadoras de materiais recicláveis e, no Distrito Federal, estão se organizando para transformarem suas condições de vida e trabalho.

À frente do processo de organização está Maria Conceição Nascimento Brito, 43 anos, diretora financeira da Central das Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis do Distrito Federal e Entorno (Centcoop), que congrega 18 cooperativas e associações e reúne 3,5 mil catadores. A Fundação Banco do Brasil já realizou investimentos sociais da ordem de R$ 800 mil na Centcoop. Os recursos foram utilizados na estruturação, montagem da infra-estrutura dos cooperados, aquisição de equipamentos, insumos e apoio administrativo.

Mobilização 

Calma e delicada, Ceiça, como é mais conhecida Maria da Conceição, chegou em Brasília há 15 anos, vinda de São Sebastião do Tocantins (TO). Lá, estudou até o segundo ano do magistério e chegou a dar aulas, mas largou a vida de professora para ser doméstica na capital. Com cinco filhos, no entanto, ficava difícil deixar as crianças sozinhas. "Larguei meu emprego e fui trabalhar no lixão. Criei os meninos com meu trabalho", diz com orgulho.

Ceiça conta que a idéia de mobilizar as companheiras no Distrito Federal em torno da questão de gênero surgiu durante sua participação no I Encontro Nacional de Mulheres Catadoras, evento que na última semana de setembro reuniu 300 participantes, no balneário Praia do Leste, no Paraná. "Sempre busquei fortalecer o trabalho coletivo das cooperativas e das associações, mas não tinha despertado, ainda, para a importância de organizar a base das mulheres", revela.

A iniciativa deu resultado e agora as catadoras estão se reunindo semanalmente no escritório da Centcoop para articular ações de mobilização das bases de cooperadas e associadas. "Já na primeira reunião tinha 22 companheiras e todas estão dispostas a lutar", conta, entusiasmada Jaqueline Sousa da Silva, 21 anos, há cinco presidente da Cooperativa de Recicladores de Taguatinga (Reciclo).

Reciclo 

A jovem brasiliense, que estudou até a 8ª série, impressiona por seu carisma e discurso articulado. "Eu tinha 16 anos e, como era a que tinha mais estudos, os catadores me escolheram para a presidência da entidade", lembra. Mãe de Yuri, 2 anos, e de Yasmin, 2 meses, Jaqueline, filhos e companheiro moram em um barraco de madeira, numa área de ocupação irregular. Ela sabe bem as dificuldades da mulher na área de recicláveis e, em sua gestão, a Reciclo conquistou creche e cozinha comunitária. "A creche atende cerca de 20 bebês. São muitas as mães catadoras e, antes, tínhamos que levar as crianças com a gente para o trabalho. Ainda não temos parceiros nesta iniciativa e é a cooperativa que arca com todas as despesas", explica.

O grupo de catadoras busca, neste momento, articular parcerias para fazer capacitações, a exemplo do que Ceiça vivenciou no I Encontro Nacional de Mulheres Catadoras. Liderança feminina, auto-estima, trabalho infantil, direitos humanos e da mulher, economia solidária, cadeia da reciclagem e meio ambiente são alguns dos temas de interesse das catadoras. "Queremos fazer oficinas sobre saúde da mulher, mostrar o calendário de vacinação das crianças, falar sobre a importância da freqüência à escola para as bases das cooperativas", antecipa Jaqueline.

Movimento

O I Encontro Nacional das Mulheres Catadoras, promovido pelo Movimento Nacional das Catadoras de Material Reciclável (MNCR) e o Fórum Estadual Lixo e Cidadania reuniu, entre 26 e 28 de setembro, 300 catadoras de diferentes regiões do Brasil, além de duas representantes de Bogotá, na Colômbia. Durante os três dias, pela primeira vez as catadoras trocaram experiências e participaram de palestras e oficinas sobre temas relativos ao universo da mulher.

Para a socióloga Eliana Maria dos Santos, secretária da Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Paraná, que no encontro falou sobre gênero e despertar feminino, a experiência foi única. "Elas sentem necessidade de se organizar, sabem bem o que querem e estão politizadas", analisa.
Eliana relata que, nos debates, as catadoras expressaram uma clara preocupação com a valorização das atividades que desempenham, as condições de trabalho, a divisão das atividades na cadeia da reciclagem por gênero e uma maior participação da mulher nas lideranças de cooperativas e associações. A auto-estima delas também impressionou a socióloga. "Saíram do encontro se sentindo vitoriosas e com vontade de multiplicar a experiência", conta.

(Originalmente publicado no site da Fundação Banco do Brasil)



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