Ciclovia ou respeito?

Num trânsito cada vez mais caótico como o da cidade de São Paulo, nem o poder público nem os motoristas aprenderam a respeitar quem opta pelo transporte não-motorizado.

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Num trânsito cada vez mais caótico como o da cidade de São Paulo, nem o poder público nem os motoristas aprenderam a respeitar quem opta pelo transporte não-motorizado.

Por Marília Melhado

Numa ensolarada tarde de um sábado de fevereiro, o governador de São Paulo e presidenciável José Serra anda de bicicleta pela marginal Pinheiros. A pedalada foi um pretexto para fazer bonito na inauguração de uma ciclovia inacabada com extensão de 14 quilômetros, reivindicação antiga dos ciclistas. Há anos era discutida, mas nunca finalizada. A oito meses das eleições de 2010, porém, ela enfim nasceu. Ou quase. Apesar de extensa, a ciclovia tem apenas dois acessos, o que limita seu uso apenas para o lazer e a prática esportiva. Quem quiser chegar ao trabalho pedalando por toda a Marginal, terá que torcer para a finalização do projeto. Para acessar o espaço, nada de pedalar: é preciso subir escadas carregando a bicicleta e atravessar uma passarela sobre a Marginal Pinheiros.

Mesmo com os problemas, há quem acredite que a obra valeu a pena. Cansado de ouvir negativas em relação à construção de novas ciclovias na cidade, o analista de sistemas André Pasqualini percebeu que o ciclista precisa ocupar espaços, mesmo inacabados. “Eu fui a favor de que o governo abrisse a ciclovia de qualquer jeito, porque depois é mais fácil para as pessoas pressionarem por melhorias”, acredita ele.

Um colega de André, entretanto, discorda. Thiago Benicchio, do blog Apocalipse Motorizado, reclama que está cansado de promessas cumpridas pela metade. “Nas vésperas das últimas eleições, também foi inaugurada uma ciclovia às pressas. Ou melhor, parte de uma na Radial Leste. Até hoje ela não foi terminada”, lembra ele. “As ciclovias são importantes, mas estou cansado de esperar uma política séria. Estou cheio de coisas pela metade”, pontua Benicchio.

O problema da invisibilidade Há seis anos, o analista de sistemas Marco Antônio Gonzáles Jr. pedala de casa até o trabalho todos os dias. Sua casa fica na Vila Mariana, na zona sul, e o trabalho, a dez quilômetros, na zona oeste, na sempre congestionada Marginal Tietê. “Com chuva ou sol, com ou sem congestionamento, todos os dias chego no trabalho em vinte minutos”, garante Gonzáles Jr.

Com tanta experiência, Marco está preparado para quase todo imprevisto. Mas, de vez em quando, o trânsito de São Paulo não perdoa. Ele, que sempre pedala rápido por entre carros, precisou desacelerar um dia por causa de uma batida com um motociclista. “A minha mão estava dolorida e por isso andei mais devagar. Enquanto pedia passagem para os motoristas, percebia certa intolerância contra quem não anda rápido, não está alucinado”, afirma. A raiz do problema, ele acredita, é a falta de respeito e planejamento para quem não está de carro. “Os ciclistas parecem invisíveis. E muitas vezes, os pedestres também são negligenciados”.

Do outro lado do hemisfério, o norueguês Silvert Nesbø concorda com Marco. Silvert pedalou de Lisboa, em Portugal, até Oslo, na Noruega, em dois meses. Apesar de a Europa ser um dos destinos mais propícios e civilizados para se aventurar de bicicleta, Silvert conta que passou por apuros no trânsito em Portugal e na Espanha. “Quando eu tive que entrar em avenidas e estradas movimentadas nesses dois países, fiquei com bastante medo. Na maioria dos lugares, não tinha ciclovias e os motoristas tomavam muito pouco cuidado com as bicicletas”, lembra ele.

Para o ciclista Thiago Benicchio, uma maneira simples de promover a tolerância no trânsito seria sinalizar melhor as vias. “É importante que as ruas tenham placas, por exemplo, que alertem ao motorista sobre a existência de um fluxo de bicicletas ali. Isso o relembra de que a rua é compartilhada e não disputada”, explica ele.

São muitos, porém frágeis
A massagista Marcia Prado estava acostumada a pedalar no trânsito caótico de São Paulo. Percorria toda a cidade para atender pacientes em domicílio. Mas, há pouco mais de um ano, num acidente na avenida Paulista, Marcia foi atropelada por um ônibus. A morte precoce e repentina foi um baque para os amigos cicloativistas. “Marcia virou (nosso) símbolo da luta por cidades humanas, virou nome de rota cicloturística para alcançarmos outras cidades e a certeza de que somos muitos, mas continuamos frágeis”, escreveu Benicchio em seu blog.

De acordo com o último levantamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), na cidade de São Paulo, entre janeiro e outubro de 2008, a cada cinco dias um ciclista foi morto em acidentes com veículos motorizados. Para a cicloativista e videorrepórter Renata Falzoni, a morte de um cidadão “não-motorizado” é uma das consequências da omissão do Estado em não orientar o motorista sobre a necessidade de partilhar pacificamente o espaço com pedestres e ciclistas.

Ela exemplifica que até bem pouco tempo atrás, não existia na tabela de registro de infrações do fiscal de trânsito uma opção para multar o motorista que desrespeita o pedestre na faixa. “Isso só existe há seis meses. E até hoje o fiscal não tem no seu prontuário como multar um motorista que tira fina de um ciclista. Ou seja, está na legislação, mas não está no prontuário do ‘marronzinho‘”, analisa. Ela ressalta ainda que a cidade é sinalizada e fiscalizada apenas para favorecer a fluidez de veículos motorizados e não para garantir a vida dos pedestres e ciclistas. “As ruas têm que ser destinadas para todos os cidadãos”, ressalta ela.

Quando questionado sobre qual seria o trânsito perfeito, o ciclista André Pasqualini concorda com Renata, mas vai além. “No meu mundo ideal, o carro tem direitos, mas não mais do que os outros veículos. Ele respeita as leis e cria um ambiente pacífico em que as pessoas podem escolher como se transportar, sem medo de serem machucadas”.

Encontro para pedalar
Para se sentirem mais seguros em meio ao caos e promover o uso da magrela, ciclistas encontraram formas para sair da invisibilidade, como os encontros de adeptos, conhecidos como bicicletadas. A ideia nasceu na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, mas já se espalhou pelo mundo e hoje tem grupos formados na América Latina e Europa. Por blogs, redes de relacionamento como twitter e Orkut, e pelo site oficial (http://www.bicicletada.org) internautas formam grupos e saem pedalando pelas ruas das cidades. Em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, as bicicletadas acontecem na última sexta-feira do mês num ponto movimentado da cidade.

Acidentes com bicicletas e pedestres em São Paulo
No primeiro semestre de 2008 e 2009, o número de acidentes com bicicletas diminuiu de 37 para 29. Por outro lado, o número de acidentes com pedestres aumentou. Segundo dados da CET-SP, em 2008 foram registrados 329 casos. Em 2009, o primeiro semestre registrou um aumento de 4,5%, um total de 344 ocorrências.



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