Ciro Gomes vem aí?

Durante o governo FHC, o bairro onde ele mora em São Paulo foi apelidado de "República de Higienópolis". Quis o destino que o tucano, que é carioca, escolhesse um apartamento bem na rua Rio...

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Durante o governo FHC, o bairro onde ele mora em São Paulo foi apelidado de "República de Higienópolis". Quis o destino que o tucano, que é carioca, escolhesse um apartamento bem na rua Rio de Janeiro para estabelecer sua morada. Na mesma nobílissima região vivem também Aloysio Nunes Ferreira, pré-candidato tucano ao governo paulista, seu rival Paulo Renato Souza, o deputado José Aníbal e David Zylbersztajn, entre outros. Agora, no entanto, haverá um estranho no ninho. O ex-pessedebista e hoje socialista Ciro Gomes já está preparando sua mudança para o bairro que aponta para a possibilidade cada vez mais viva de se candidatar ao governo paulista em 2010.
Ainda não se sabe se ele vai morar na rua Ceará, esquina com a Pernambuco, ou se será vizinho de FHC na Rio de Janeiro. Certo mesmo é que está excitadíssimo com a possibilidade de ser o candidato de Lula ao Palácio dos Bandeirantes. Nada estimula mais o ex-governador cearense do que a chance de poder bater na elite do tucanato dentro da casa deles. No entanto, vai ter de se preparar também para apanhar. "Não sei se Ciro gosta de São Paulo. Nunca vi alguém bater tanto no estado como ele, que vivia usando a expressão ‘Paulistério’”, dispara Freire, o futuro vizinho ex-senador por Pernambuco e que vai tentar uma vaga na Câmara por São Paulo pelo seu PPS. De quebra, trará para o estado o comando político da legenda, que ano que vem servirá como satélite de Serra.
Rivalidades e rancores à parte, o fato é que a candidatura paulista de Ciro Gomes deixou de ser um balão de ensaio para se transformar na grande cartada de Lula no estado. O presidente sabe que seu partido não conta com quadros fortes para enfrentar o PSDB em seu maior reduto. A meta não é só ganhar, é enfraquecer Serra em sua base e proporcionar a Dilma um bom palanque.
A "Operação Ciro" foi acionada para valer há dois meses pelo comando nacional do PT, que só esqueceu de um pequeno detalhe: combinar com os russos, como diria Garrincha. Ciro, como se sabe, é do PSB, mesmo partido de Luiza Erundina, ex-prefeita da capital e única socialista que aparece com dois dígitos nas pesquisas de opinião para o governo paulista. Até agora, porém, ela não foi consultada. Pior, ficou sabendo pela mídia, conversou com o colega Ciro no café da Câmara e ouviu dele como resposta um redondo "não" sobre a possibilidade. "Não tenho pretensão de ser candidata ao governo, mas também não fui consultada pelo partido sobre a candidatura do Ciro. Aliás, nem a executiva foi. Não tenho nada contra essa ideia, mas acho que ele seria mais viável como candidato a presidente", diz a deputada (veja entrevista na pág, XX).
Em entrevista para o Estadão, o ex-prefeito de São Vicente (SP) Márcio França, presidente do PSB, reconheceu que a negociação envolvendo Ciro ainda corre no âmbito de cafés e jantares com a cúpula do PT. Mas afirmou que consultou Luiza para saber se ela tinha pretensão de concorrer ao Bandeirantes, ao que ouviu uma negativa. "A lógica de São Paulo é singular. Uma hora elege o Maluf, depois me elege, aí vem o Pitta…", pondera Luiza. Fórum conversou com outros dirigentes do PSB paulista e ouviu deles que nem o debate, nem a agenda de Ciro no estado, são compartilhados pelo braço local da sigla. Isso significa que o PT está articulando abertamente uma candidatura de fora, sem respeitar as etapas da liturgia partidária.
Essa mobilização, entretanto, não incomoda os integrantes do chamado "Bloco de Esquerda" (PSB-PDT-PC do B). Pelo contrário. "Essa proposta surgiu de conversas com lideranças, entre elas Aldo Rebelo. Temos poucas alternativas para São Paulo em 2010. O fato é que dificilmente Ciro sairá sem o PT aqui", afirma Nádia Campeão, presidente estadual do PC do B. Antes de Ciro, o PSB havia lançado outro balão de ensaio, a candidatura de Paulo Skaf, presidente da Fiesp, ao governo paulista. Não colou. Nesse caso, o partido enfrentaria a dura resistência de Luiza Erundina. E sem ela, a candidatura definitivamente não decolaria. "Já o Ciro contará com meu apoio", diz.
Não é apenas o tucanato que Ciro Gomes enfrentará se migrar mesmo para São Paulo. A mídia paulista já deu sinais de que não vai digerir muito bem a novidade. Uma das charges mais emblemáticas dessa disposição foi publicada na Folha de S.Paulo e assinada por Angeli. Um Ciro caricato e com três tufos de cabelo aparece ao celular tendo o seguinte diálogo: "Presidente, já cheguei em São Paulo. Estou na marginal do rio Guaíba, bem em frente ao Mineirão". Em outra, o mesmo Angeli desenhou um Ciro cravado de ponta cabeça no Minhocão, com a seguinte legenda: "Bomba: Lula lança Ciro sobre São Paulo".
O debate já chegou ao meio acadêmico. "São Paulo é uma caixa de ressonância, uma verdadeira incubadora eleitoral. Quem vem para cá, consegue atrair o foco da mídia. É em São Paulo que se fica sabendo a real densidade nacional. Por isso muitos candidatos tentam nacionalizar seu nome no estado. Fernando Collor quis ser candidato a prefeito para pavimentar seu caminho ao senado", pondera o cientista político Vitor Marchetti, da PUC-SP. “Lula é nordestino, mas fez carreira política em São Paulo. No caso de lideranças que fizeram a migração tardia, acho difícil que dê certo. Não tenho lembrança de nenhum caso. O Getúlio foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul e depois por São Paulo. Mas ele é um político fora da curva. O Brizola já tinha uma base importante no Rio quando migrou politicamente para lá depois da ditadura. São Paulo tem larga tradição política, muitas lideranças próprias. Essa migração pode funcionar em caso de eleição para a Câmara, mas não para cargos majoritários”, pondera o cientista político Cláudio Couto.
Dentro do PT, a corrente Articulação de Esquerda apresentou-se como o principal foco de resistência ao "Projeto Ciro". "O PT precisa ter um candidato próprio em São Paulo. Caso contrário, passaria um sinal para o eleitor de que está jogando a toalha. A ideia de Ciro sair com apoio do PT tem um elemento forte de artificialidade", afirma Walter Pomar, secretário de Relações Internacionais da legenda. Ele lembra, porém, que o PSB paulista é aliado do governador José Serra. E que seria taticamente importante reverter esse quadro no estado. "Nossa mobilização em São Paulo é para que os partidos da base do governo se mobilizem contra essa ideia, apoiada pela mídia, de que o candidato de Serra é imbatível", diz. Por precaução, o PT incluiu o nome de Ciro Gomes em uma pesquisa qualitativa. O ex – governador cearense apareceu ao lado de outros nomes: Marta Suplicy, Aloizio Mercadante, Emídio Souza, Fernando Palocci, e Fernando Hadad. A pesquisa também avaliou a gestão José Serra. E chegou à conclusão de que ele não é imbatível, mas quase…
Box- Mercadante, Netinho e o pagode do Senado
As negociações em torno da candidatura de Ciro Gomes em São Paulo estão revelando um novo talento do tabuleiro partidário: o pagodeiro Netinho de Paula. Vereador paulistano eleito pelo PC do B, ele recebeu uma das maiores votações em 2008. Antes mesmo de tomar posse, Netinho já falava de seus planos futuros: ser senador e (por que não?) presidente da república. O que parecia devaneio está quase virando realidade. Além de contrariar todas as apostas de que duraria pouco no PC do B, como aconteceu com Ademir da Guia, o músico se aproximou do Comitê Central comunista, onde fez uma espécie de intensivão. "Netinho se mostrou um talento da articulação partidária", revela Nádia Campeão, presidente estadual do PC do B. Ele tem participado de reuniões estratégicas com lideranças partidárias, entre elas Edinho Silva, presidente do PT. Seu nome aparece em todas as conversas como forte candidato ao senado pelo bloquinho, com apoio do PT. Segundo um integrante da executiva estadual petista, a definição da chapa ao senado da base do governo em São Paulo passa pelo debate em torno de Ciro Gomes. Se o cearense, que é expoente do bloquinho, emplacar, o PT se sentirá a vontade para reivindicar os dois nomes ao senado. Um deles certamente será Aloizio Mercadante. O outro seria definido em uma briga de foice entre Marta Suplicy, Emidio (prefeito de Osasco) e cia. (é isso mesmo?) Caso Ciro não emplaque, o PT estaria disposto a colocar Netinho ao lado de Mercadante no palanque. Os dois sairiam ganhando.
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Ping-Pong – Luiza Erundina
"Vejo a política em uma dimensão pedagógica"
Se quisesse, Luiza Erundina poderia atrapalhar os planos do PT de lançar Ciro Gomes candidato ao governo paulista pelo PSB. Credenciais não lhe faltam. Além de contar com dois dígitos em todas as pesquisas, leva no currículo a experiência de ter sido prefeita da capital e várias vezes uma das deputadas mais votadas do estado. Mas ela não quer. Seu plano é renovar o mandato na Câmara por mais quatro anos para continuar desfraldando bandeiras caras aos movimentos sociais: a reforma política, a lei da morte materna e uma composição mais feminina do Congresso Nacional. Nesta entrevista para Fórum, Luiza Erundina fala sobre a migração de Ciro e suas lutas para 2010.
Fórum – A senhora apoia a ideia de trazer Ciro Gomes para ser candidato do PSB em São Paulo?
Luiza Erundina – Não tenho nada contra. Se for o Ciro mesmo (o candidato), vou trabalhar por ele. Ciro Gomes sustenta um bom debate, mas fico com a impressão de que essa discussão é mais um balão de ensaio, como foi o Paulo Skaf (presidente da Fiesp). Nesse caso, eu seria contra. Seria incompreensível. O partido precisa de coerência.
Fórum – Ciro em São Paulo ajudaria o PSB a crescer?
Erundina – Acho que o PSB devia investir em uma candidatura presidencial. O partido é forte no Nordeste, mas ainda não tem uma militância forte no resto do Brasil. Trata-se de uma legenda interessante, que pode ser uma alternativa para a esquerda. Para isso, é preciso ousadia. Só ousando deixaremos de ser um satélite do PT. Está na hora de decolar, mesmo que não haja um cálculo seguro nesse plano de voo.
Fórum – Acredita que Ciro tem chance de eleger-se em São Paulo? Ele contaria com o voto dos nordestinos?
Erundina – O eleitor em geral tem muita resistência a soluções eleitorais partidárias e pragmáticas. Mas lógica de São Paulo é singular. Uma hora elege o Maluf, depois me elege. Aí elege o Pitta…
Fórum – Recentemente, o Lula e o Collor apareceram juntos no mesmo palanque. A senhora dividiria o palanque com Paulo Maluf? Como é sua relação com ele?
Erundina – Vejo a política em uma dimensão pedagógica. Como será que o pessoal da periferia e os próprios petistas da base veem isso? O encontro entre Lula e Collor não ajuda em nada. O cidadão comum reage ao simbólico. Com o Maluf tenho uma relação de respeito, mas sem intimidade. Ele elogia minha lisura, faz elogios e tenta se aproximar. Me chamou até para uma feijoada na casa dele. Não fui e não vou. Não existe liga possível, não temos o que conversar. Isso soa falso. Quando saí da prefeitura, ele pesquisou até as ligações internacionais do meu gabinete. Achou chamadas para Nicarágua e Cuba.
Fórum – A senhora defende uma cota de mulheres nas comissões da Câmara. Por quê?
Erundina – Nunca uma deputada foi da mesa diretora. O mais perto disso aconteceu nos anos 80, quando quatro deputadas foram suplentes. Hoje, somos 45 mulheres na Câmara e estamos conseguindo uma certa unidade. O machismo, o atraso e o conservadorismo ainda predominam. Na Argentina, por exemplo, quase 40% do parlamento é ocupado por mulheres. O Brasil está na lanterna. Defendo que uma vaga em cada eleição da mesa diretora, e uma nas comissões permanentes sejam ocupadas por mulheres. E também que 30% do Fundo Partidário e do horário de TV vá para candidatas mulheres. Existe uma exclusão estrutural da mulher no universo do poder.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de agosto. Nas bancas.



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