Conheça a história de Jurupari

Abaixo, um dos mitos retratados no Anuário do Saci e seus Amigos-Mitologia Brasílica. E, dia 31 de outrubro, menos Raloín, mais Saci! Jurupari Filho e...

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Abaixo, um dos mitos retratados no Anuário do Saci e seus Amigos-Mitologia Brasílica. E, dia 31 de outrubro, menos Raloín, mais Saci!

Jurupari

Filho e embaixador do Sol, Senhor dos Segredos, reformador, legislador, o Jurupari, deus mais cultuado pelos índios brasileiros (não só os de língua tupi) até começar o domínio português, parece ser originário do povo aruaque, que habitava boa parte do norte da América do Sul.

Ele nasceu de uma virgem, Tenuiana, que foi engravidada pelo sumo de uma fruta que comia, chamada cucura (da família da jaca e do figo). Logo depois de nascer, desapareceu, mas sua mãe o sentia mamando nos seus seios à noite. Só foi reaparecer quinze anos depois.

Era um rapaz forte e bonito. Foi eleito tuxaua (chefe) e assim acabou com o poder das mulheres, que até então governavam a sua nação.Seriam as amazonas?

Depois de vencer as mulheres, Jurupari criou doutrinas e rituais para os homens, inclusive ritos de iniciação masculina, que exigem – entre outras coisas – jejum e provas de resistência à dor. As mulheres não podem ver os rituais masculinos. Se os virem, morrem.

Os intermediários entre o Jurupari e os índios são os pajés. Ele é evocado ao som de maracás e trombetas, com danças.Segundo Câmara Cascudo, ele visita os homens em sonhos, e causa aflições. Por isso, os jesuítas o identificaram como “Senhor do Pesadelo”… e diabo. Mas ninguém sabe que aparência ele tem. Pelo menos não conta.

Mas tem algo que pode representar sua figura: os maracás usados pelos pajés nas cerimônias relacionadas ao Jurupari. O maracá – palavra que significa “cabeça falsa” – é feito com uma cabaça do tamanho de uma cabeça humana, com orelhas, cabelos, olhos, nariz, e um pequeno cabo para segurar. Colocam dentro dele folhas secas e fumo queimando, e assim o maracá solta fumaça pelos olhos, boca e nariz, enquanto os pajés, o chacoalham dançando, em transe, tendo visões e fazendo previsões e revelações. Por isso, o maracá – que era às vezes um instrumento sagrado, que só os pajés podiam pegar – era identificado com o Jurupari.

Para impor o cristianismo aos índios, os europeus precisavam destruir suas crenças. Então, o grande deus Jurupari foi demonizado. Virou sinônimo de satanás, belzebu, capeta, o mal absoluto. E com muita esperteza “inventaram” um outro deus para os índios, identificado com o deus cristão.

Tupã era o nome que os guaranis davam ao trovão. Para os tupis, era Tupana. Mas era só um trovão, nada mais. E ele foi promovido a Deus único e verdadeiro. Tupã se tornou uma versão adaptada do Deus hebraico, assimilado pelos cristãos. Hoje, está embutido nas mentes da maioria das pessoas que Tupã era um deus que já existia antes, e que Jurupari é o diabo. Até na Amazônia, principal reduto do Jurupari, a maioria dos não-índios e dos índios aculturados pensa assim. Mas há exceções.

O nome Jurupari, segundo alguns, significa “o que nasceu da fruta”, e segundo outros, “boca fechada”. Esta última corresponde aos seus rituais cheios de segredo. Em Águas Belas (PE), há um povo que, ao que tudo indica, cultua Jurupari. São os fulniôs, de língua gê, que têm uma aldeia sagrada, num lugar a que só eles têm acesso, onde passam catorze semanas (a partir de agosto) num ritual chamado Ouricuri, e as mulheres ficam em áreas separadas dos homens. E ninguém conta o que acontece lá. Só pode ser coisa do Jurupari…

(Ilustração: Ohi)

Lançamento Anuário do Saci e seus Amigos-Mitologia Brasílica

29 de outubro, a partir das 19 horas
Bar Canto Madalena – Rua Medeiros de Albuquerque, 471
Vila Madalena, São Paulo.
Pedidos pelo e-mail livros@publisherbrasil.com.br .



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