Cooperifa, uma história de amor à periferia

A literatura é dama triste que atravessa a rua sem olhar para os pedintes, famintos por conhecimento, que se amontoam nas calçadas frias da senzala moderna chamada periferia. Frequenta os casarões, bibliotecas inacessíveis a...

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A literatura é dama triste que atravessa a rua sem olhar para os pedintes, famintos por conhecimento, que se amontoam nas calçadas frias da senzala moderna chamada periferia. Frequenta os casarões, bibliotecas inacessíveis a olho nu e prateleiras de livrarias que crianças não alcançam com os pés descalços.

Dentro do livro ou sob o cárcere do privilégio, ela se deita com Victor Hugo, mas não com os Miseráveis. Beija a boca de Dante, mas não desce até o inferno. Faz sexo com Cervantes e ri da cara do Quixote. É triste, mas A rosa do povo não floresce no jardim plantado por Drummond.

Quanto a nós, Capitães da Areia e amados por Jorge, não restou outra alternativa a não ser criar o nosso próprio espaço para a morada da poesia. Assim nasceu o sarau da Cooperifa.
Nasceu da mesma Emergência de Mário Quintana e antes que todos fossem embora pra Pasárgada, transformamos o boteco do Zé Batidão num grande centro cultural.

Agora, todas as quartas-feiras, guerreiros e guerreiras de todos os lados e de todas as quebradas vêm comungar o pão da sabedoria que é repartido em partes iguais, entre velhos e novos poetas sob a benção da comunidade.

Professores, metalúrgicos, donas de casa, taxistas, vigilantes, bancários, desempregados, aposentados, mecânicos, estudantes, jornalistas, advogados, entre outros, exercem a sua cidadania através da poesia. E graças à palavra nós chegamos ao livro.
Muita gente que nunca havia lido um livro, nunca tinha assistido uma peça de teatro, ou que nunca tinha feito um poema, começou, a partir desse instante, a se interessar por arte e cultura. E para nós literatura não tem nada a ver com cultura, e sim com saúde, porque “quem lê enxerga melhor”.

E enxergando melhor a gente criou o "Poesia no ar", em que soltamos nossos poemas em balões com gás hélio. Escrevemos uma antologia poética com 53 autores da comunidade, e para alguns deles, o primeiro livro que leram foi o que escreveram. Quer incentivo maior?

Fizemos o “Cinema na Laje” para que a gente pudesse assistir somente filmes e documentários que nos interessassem. Criamos a “Chuva de Livros”, que é quando a gente distribui 500 livros para as pessoas da comunidade. Instituímos o “Prêmio Cooperifa” para homenagear as pessoas e entidades que, de forma direta ou indireta, ajudam a periferia a se transformar num lugar melhor para viver. O “Sarau nas Escolas", os saraus e oficinas na Fundação Casa, o “Ajoelhaço”, para o qual os homens da Cooperifa são convidados, no Dia Internacional das Mulheres, a se ajoelhar e pedir perdão a elas.
CD de poesia, lançamento de livros, e para comemorar o nosso oitavo ano de atividade poética vamos realizar a II Mostra Cultural da Cooperifa. Uma semana inteira de eventos culturais  (teatro, dança, literatura, cinema, artes plásticas, cinema, feira de livros, exposições, saraus e shows musicais) gratuitos para a comunidade.

Houve um tempo em que a gente queria mudar da periferia, hoje a gente quer mudá-la. Por isso, o sarau da Cooperifa é nosso quilombo cultural. O lugar que escolhemos para ouvir e falar poesia.
A bússola que guia a nossa nau pela selva escura da mediocridade.
Somos o grito de um povo que se recusa a andar de cabeça baixa e se prostrar de joelhos.
Somos o Poema sujo de Ferreira Gullar.
Somos o rastilho da pólvora.
Somos Um punhado de ossos, de Ivan Junqueira, Tecendo a manhã de João Cabral de Melo Neto.
Neste instante, neste país cheio de Machados se achando serra elétrica, nós somos a poesia.
Essa árvore de raízes profundas regada com a água que o povo lava o rosto depois do trabalho.

* O poeta Sérgio Vaz é criador do movimento Cooperifa, que faz 8 anos neste outubro.

A Cooperifa é duca!
Renato Rovai
A Cooperifa e a Fórum são amigas de berçário. Em setembro de 2001, a primeira edição da revista chegava às bancas. Em outubro do mesmo ano, acontecia o lançamento da Cooperifa. E por um desses acasos que só se explicam pela energia vital dos projetos, Marco Frenette, autor da editora, foi lançar o “Preto e Branco, a Importância da Cor da Pele” na primeira edição do sarau.
Conversando com o Sérgio Vaz, quando visitei recentemente o projeto pela primeira vez, nos lembramos disso. Aliás, fui lá a convite do Jairão, amigo novo que participa desde o início dessa confraria da galera que agita a cidade do outro lado do rio Pinheiros.
Perdi tempo demais não tendo reservado antes uma noite de quarta-feira para conhecer o movimento. Talvez porque achasse que era possível imaginá-lo a partir dos muitos textos que tinha lido. E dos depoimentos que tinha ouvido. Bobagem.
Até porque é quase um desafio impossível relatar o calor humano dessa festa que acontece num botecão da zona Sul de São Paulo.
Só indo lá para se arrepiar vendo pessoas declamando, em coro, poesias que você nunca ouviu.
Só indo lá para perceber que uma música centenas de vezes ouvida pode ter outro sentido se declamada por um garoto que vive o roteiro da letra.
Só indo lá para conhecer uma galera que está mudando a história e quebrando as fronteiras de uma cidade partida, onde quem vive do lado de cá só conhece a galera do lado de lá quando ela vem pra cá.
Agora, se quiser ver o que é bom em poesia, se quiser conhecer o melhor sarau da cidade, vai ter de ir pra lá.
Foi duca ter conhecido a Cooperifa. Parabéns ao Sérgio Vaz e à galera que constrói essa história há 8 anos.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de outubro. Nas bancas.



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