Desmatamento pode causar menos danos ao clima

Enquanto se intensifica o debate para se chegar a um acordo climático em Copenhague, um estudo holandês indica que os danos na atmosfera em razão do desmatamento e da degradação dos solos são muito...

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Enquanto se intensifica o debate para se chegar a um acordo climático em Copenhague, um estudo holandês indica que os danos na atmosfera em razão do desmatamento e da degradação dos solos são muito menores do que se presumia. As partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a mudança climática, cuja 15ª conferência acontece na capital dinamarquesa, supunham que as emissões de dióxido de carbono como resultado do corte de árvores representavam cerca de 20% do total mundial. Mas, Guido van de Werf e seus colegas da Universidade Vrije calcularam que a porcentagem real gira em torno dos 12%.

Os resultados de recalcular esta fração usando os mesmos métodos, mas estimativas atualizadas, sugerem que em 2008 o aporte relativo de emissões de dióxido de carbono a partir do desmatamento e da degradação das florestas “foi substancialmente menor, de aproximadamente 12%”, afirmam os cientistas. “Assim, é provável que as economias máximas de carbono a partir das reduções no desmatamento sejam menores do que se esperava”, acrescentam. O corte de árvores e a transformação de florestas em terras de cultivo emitem gases-estufa, ao liberar o carbono armazenado. Depois da queima de combustíveis fósseis, é a maior fonte de emissões casadas pela ação do homem.

E também é a mais fácil de combater. “Mesmo com menos emissões, evitar o desmatamento é a maneira mais barata e rápida de concretizar enormes reduções”, disse Herbert Christ, da Associação Florestal da Bacia do Congo, que reúne 10 países. A Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD), mecanismo pelo qual serão destinados fundos a países em desenvolvimento em troca de proteção florestal, esteve na mesa de negociações por um tempo. Espera-se que seja formalizado em Copenhague. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), os países africanos abrigam 16% (635 milhões de hectares) de florestas do mundo.

Em Zâmbia, a degradação florestal é a maior fonte de emissões de dióxido de carbono, e o REDD promete dezenas de milhares de dólares anuais para a mitigação. Em sua forma mais reduzida, o REDD beneficiará principalmente a bacia do Congo, que é o maior sumidouro de carbono depois do Amazonas. Mas, cientistas e negociadores pressionam para que se concretize um acordo estendido, chamado REDD+, que idealmente inclua manejo de florestas, reflorestamento e captura de carbono em outras paisagens. Na África, 70% da população dependem da agricultura e 80% obtêm seu combustível de uso doméstico a partir de biomassa. Assim, o continente é um importante agente do desmatamento.

Mas, terão as últimas cifras um impacto negativo nas negociações do REDD os cientistas e as organizações da sociedade civil parecem esperançosos. “Inicialmente, isto pode fazer com que alguns percam o entusiasmo pelo REDD, mas em uma reflexão mais profunda 12% ainda é uma quantidade enorme para um setor”, disse o pesquisador Rodel Lasco, do Centro Mundial de Agrosilvicultura em Nairóbi. “Isto não enfraquece realmente nossa posição negociadora. Na verdade, indica a necessidade de um acordo REDD+, que é mais amplo”, acrescentou.

Segundo Doug Boucher, diretor da iniciativa de Florestas Tropicais e Mudança Climática na Union of Concerned Scientists, “ainda é uma grande quantidade, comparável às emissões totais da União Europeia, e superior à do transporte mundial”. Por esse motivo, é muito urgente concretizar o REDD+, ressaltou. “Não creio que a posição negociadora dos países florestais mude muito devido aos novos números”, prosseguiu.

O estudo da Universidade Vrije indica que as emissões derivadas das turbas, antes sem calcular, representam 3% das emissões mundiais, mais do que as geradas pelo tráfego aéreo internacional. Incluí-las em um acordo REDD+ pode fazer com que as economias totais voltem a 15%. “A desvantagem é que as turbas ocupam maiores espaços em países como Indonésia”, disse Godwin Kowero, diretor do Fórum Florestal Africano. Mas, o mais importante é que este tema destaca a necessidade de um acordo REDD+ inclusive e que se defina melhor a palavra “floresta”, já que atualmente se exclui a maior parte da cobertura vegetal africana por ser “floresta seca”, enfatizou.

Com o tempo, o debate deveria incluir cada vez mais todos os setores-chave baseados na terra. Não se trata apenas de reduzir as emissões, mas também de aumentar a capacidade de capturar carbono. “Para a África, isto significa envolver nossas florestas naturais, plantações, árvores em estabelecimentos rurais e árvores fora das florestas”, disse Kowero. As várias constelações regionais do Grupo Africano do Grupo dos 77 (integrado por 130 países em desenvolvimento) mais a China enfatizam reiteradamente a importância de um enfoque de agricultura, silvicultura e outros usos da terra (Afolu) em conexão com o REDD.

“Precisamos ter um acordo do tipo do Afolu que salvaguarde o REDD+ e agregue árvores mediante o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto. A África pode manejar e beneficiar-se das duas coisas”, disse Kowero, que acredita que em Copenhague se decidirá um mecanismo REDD+. Previsto no Protocolo de Kyoto, o MDL é um instrumento que permite aos países ricos extrapolar suas cotas de emissões de gás-estufa caso financiem projetos para reduzi-los nas nações em desenvolvimento.

Segundo Christ, “as necessidades dos países africanos têm de ser reconhecidas em Copenhague”. Na bacia do Congo, a proporção do desmatamento é baixa, comparada com a do Amazonas. Como se refletirão em um acordo estes históricos esforços de conservação? Mas, também preocupa que o relativo otimismo que cerca o REDD seja usado para dissimular um fracasso mais amplo da COP-15. “O fato de o REDD ser visto como uma questão ‘não controversa’ enquanto a maioria das negociações ficaram paralisadas em Bangcoc e Barcelona deveria nos alertar”, disse Simone Lovera, da Coalizão Mundial pelas Florestas.

“Estas últimas rodadas de negociações deixaram claro que o REDD é visto como uma maneira potencial de criar uma fachada verde para o fracasso de Copenhague, por parte de uma quantidade cada vez maior de países dispostos a aceitar qualquer tipo de acordo brando” na capital dinamarquesa, acrescentou Lovera. Esta especialista teme que seja o estado de ânimo dominante. “Não tornemos isso muito controverso. Façamos do modo simples. No final, todos queremos chegar a um acordo em Copenhague, não é mesmo?”, disse.

A maioria dos especialistas acredita que o REDD avançará na capital da Dinamarca, mas, também há preocupação a respeito. “Nos preocupa principalmente que o texto da negociação do REDD não inclua explicitamente linguagem que proteja as florestas naturais intactas apesar de se compreender amplamente que esta é uma aspiração do mecanismo”, disse Peg Putt, da Aliança para o Clima e os Ecossistemas, que reúne organizações florestais internacionais. “Este será um tema importante em Copenhague. O REDD substituirá a introdução do corte de florestas naturais intactas ou pagará para protegê-las?”, perguntou.

O estudo holandês parece dar crédito a esta linha de raciocínio. “Por exemplo, substituir as florestas de turba por plantações de palma pode não mudar a densidade da cobertura florestal, mas levar a um grande impulso das emissões de dióxido de carbono, devido às reduções tanto na biomassa de árvores como no carbono do solo”, segundo os cientistas da Universidade de Vrije.

Publicado por Envolverde.



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