Dólar: o princípio do fim?

Desde março último, quando atingiu o pico de 0,78 dólares por um euro, a nota verde não parou de cair face ao euro. Ao ponto de alguns perguntarem se não é, desta vez, o...

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Desde março último, quando atingiu o pico de 0,78 dólares por um euro, a nota verde não parou de cair face ao euro. Ao ponto de alguns perguntarem se não é, desta vez, o golpe de misericórdia na moeda que simboliza, há mais de sessenta anos, a dominação incontestável dos Estados Unidos na economia mundial. Tanto mais que novos rumores relançaram um velho fantasma: os países produtores de petróleo estariam a caminho de pôr em prática um sistema de cotação do petróleo que já seria assentado não no dólar, mas em uma cesta de moedas.

Há muitos anos que os desequilíbrios externos colossais e crescentes da economia americana – 655 bilhões de dólares no último ano – fazem temer uma queda brutal do dólar: os investidores do resto do mundo, especialmente chineses, acabariam por ter medo, recusariam a continuar a emprestar aos sobre-endividados americanos. É assim que a maior parte dos economistas apresenta o fim da bolha do sobre-endividamento americano. Paradoxalmente, a crise, iniciada nos Estados Unidos, e que quase lançou a economia mundial na bancarrota nos últimos meses, não se deveu a um encadeamento deste tipo. Foram os créditos subprime, que em si mesmos apenas constituíam uma pequena fração da montanha de dívidas americanas, que lançaram todo o sistema financeiro mundial na crise. Um sistema que estava muito fragilizado pelo mecanismo sem controle da titularização e pela constituição, no segredo dos paraísos fiscais, de um "sistema bancário fantasma", escapando a qualquer regulação.

Num primeiro tempo, o choque financeiro provocado pela falência do Lehman Brothers em Setembro de 2008 impulsionou, ao contrário do que se poderia prever, o dólar, brutalmente valorizado de 0,63 euro/dólar em Julho de 2008 para 0,78 euro/dólar em fevereiro último. Na tempestade, ele reencontrou, de fato, o seu papel de refúgio de valor para os estrangeiros. Enquanto os investidores americanos repatriavam brutalmente os seus ativos para enfrentar os compromissos internos com os seus credores, desencadeando uma forte subida na procura de dólares. Mas tratou-se apenas de um adiamento: a retoma da economia americana parece muito lenta e incerta mas a montanha de dívidas tornou-se mais alta que nunca, com o Estado assumindo o papel dos privados em matéria de sobre-endividamento… As economias emergentes parecem pelo contrário conseguir evitar o problema. Como resultado, os próprios investidores americanos retornam a exportar capitais e portanto a vender dólares, fazendo cair o seu curso.

Estamos realmente, desta vez, na véspera de um colapso do dólar? Já foi anunciado muitas vezes, pelo que convém ser muito prudente. Os credores externos dos Estados Unidos, e especialmente os chineses, não têm nenhum interesse num tal cenário, tendo em conta a montanha de dólares que detêm. E intervirão para tentar evitá-lo. Mas, se o movimento for muito forte, poderão acabar por ter medo de intervir para defender o dólar, o que consiste em aumentar ainda mais o fardo que carregam, comprando novas montanhas de dólares…

Haja um colapso brutal ou não, o papel do dólar como única moeda mundial de referência, parece a caminho de terminar definitivamente. O euro, e a zona euro, se beneficiarão com isso? Não há nada de menos certo. No imediato, o euro valoriza-se fortemente face ao dólar. O que não tem apenas inconvenientes, em especial em termos de compras de produtos petrolíferos e de gás de que a Europa precisa dramaticamente no momento da retomada. Tanto mais que estes estão fixados em dólares. Mas na medida em que as moedas de numerosos países emergentes, e nomeadamente o yuan chinês, permanecem por agora ligados ao dólar, esta subida representa igualmente um ponto fraco para as exportações europeias. Ela pode travar significativamente a retoma. Se o euro, e o Banco Central Europeu, provaram a sua solidez e utilidade na crise, resta ainda à zona euro dotar-se de uma política cambial própria num mundo monetário cada vez mais multipolar (o que também significa mais instável). E isso não é tarefa fácil, tendo em conta os interesses divergentes dos seus principais membros em função da sua inserção na divisão internacional do trabalho.

Guillaume Duval, 12 de Outubro de 2009, redator-chefe de alternatives-economiques.fr

Tradução de Carlos Santos, do Esquerda.net.



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