E livrai-nos do Malaman

Crônica de Mouzar Benedito Por   Batman, Superman… Esses eram dois dos heróis de gibis e filmes que vieram fazer nossas cabeças na infância, mandados pelos mesmos...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por

 

Batman, Superman… Esses eram dois dos heróis de gibis e filmes que vieram fazer nossas cabeças na infância, mandados pelos mesmos Estados Unidos que nos enfiaram goela abaixo também o Capitão América, o Pato Donald e sua turma, Mickey e Pateta e também o Papai Noel, que se espalhou pelo mundo como garoto-propaganda, quer dizer, velho-propaganda da Coca-cola. Os mesmos Estados Unidos que agora estão em fase avançada de fazer brasileiros engolirem o raloín, que eles escrevem Halloween e os nossos conterrâneos colonizados também.
Mas para meu amigo Chico, que morava em Itajubá, nas Minas Gerais, criativo desde criança, um ente também com o nome terminado em “man” (a pronúncia é “men”), como os homens heróis estadunidenses, era na verdade o monstro mais terrível e perigoso que existia. E existia de verdade, não nas histórias em quadrinhos nem nos seriados do cinema, mas no mundo das assombrações. Pior que mula-sem-cabeça, corpo-seco, ou lobisomem, o Malaman era mesmo uma mala sem alça. Até a mãe do Chico rezava direto pedindo proteção contra ele.
E o Chico temia o monstrão, provavelmente trazido dos Estados Unidos, como outros monstros imperialistas tidos como heróis. Só que este não tinha nada de herói. Nas noites escuras, o menino andava com cuidado, temendo encontrar o Malaman saindo de algum beco para atacá-lo.
Ele não sabia o que o bicho fazia de mal às pessoas e nem mesmo a sua forma, cada vez imaginava de um jeito. É difícil criar na imaginação um homem com forma de mala. Talvez a palavra mala tivesse outro significado em inglês. O Chico não se lembrava de ver ou pedir para alguém consultar isso num dicionário de inglês. Se consultasse, ele veria que a palavra mala não consta nos dicionários de inglês. Existe a palavra male, que significa macho. Macho Man? Não deixa de ser uma espécie de monstro, mas naquela época não existia essa expressão.
O certo era que o Malaman não atacava só em Itajubá. Como filho de ferroviário que vivia mudando de cidade, o Chico já tinha morado em Conceição do Rio Verde, Itanhandu e outras cidades da região. E visitava parentes em Baependi, Cristina, Piranguinho, Passa Quatro… E em todas essas cidades a mãe rezava pedindo proteção contra o Malaman. Seria um monstro regional?
Fosse ou não, o Chico temia o maldito em silêncio. Quando ficava sozinho – o que era raro, porque eram muitos irmãos – o Malaman aparecia em seus temores. Não sabia onde ele morava, se no cemitério, no mato ou em alguma tapera abandonada, mas não tinha nem coragem de perguntar à mãe. Evitava pronunciar o nome do monstro, temia que isso o atraísse. Por isso, nem perguntava aos adultos as características da assombração que ela tanto temia. E não o comentava com os amigos de infância, já que eles também não falavam do Malaman pra ele.
E assim o Chico foi crescendo com o medo e a dúvida, até que conseguiu criar coragem para pedir à mãe que lhe falasse do amaldiçoado tão temido. E percebeu que passou muito medo à toa. É que, só então, soube que era um problema da pronúncia da mãe: ao terminar suas rezas, ela falava alto e o Chico ouvia: “…e livrai-nos do mal, amém”. Ou, no ouvido do Chico, “…e livrai-nos do Malaman”.



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