Economia: Quem pode solucionar a crise

Genebra, 20/03/2009 – Aos governos e também à Organização das Nações Unidas cabe um papel decisivo no processo de reformas para sanar as falhas que desencadearam a atual crise econômica e financeira, afirmou a...

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Genebra, 20/03/2009 – Aos governos e também à Organização das Nações Unidas cabe um papel decisivo no processo de reformas para sanar as falhas que desencadearam a atual crise econômica e financeira, afirmou a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Um informe desta agência especializada da ONU dirige sugestões aos chefes de governo do Grupo dos 20, que reúne as nações mais industrializadas a algumas economias emergentes, que se reunirá no dia 2 de abril em Londres para propor políticas contra a crise.

Contrariando a opinião tradicional, os governos estão bem situados para avaliar os movimentos de preços nos mercados que se originam na especulação financeira, diz o estudo da Unctad. As autoridades “não devem duvidar em intervir quando se vislumbra desequilíbrios importantes”, insiste o informe intitulado “A crise econômica mundial: falhas sistêmicas e remédios multilaterais”. Em uma mensagem só G-20, o secretário-geral da Unctad, Supachai panitchpakdi, recordou que os planos de estímulo à economia “devem levar em conta o resto do mundo”.

A esse respeito, na apresentação do informe, Supachai se declarou “profundamente preocupado” porque nas discussões sobre as operações de salvamento “não se presta atenção” às necessidades das economias em desenvolvimento. O economista Heiner Flasbeck, diretor da divisão de globalização e estratégias de desenvolvimento da Unctad, estimou que foram “bastante frouxas” as propostas estudadas no fim de semana passado na Grã-Bretanha pelos ministros da Economia dos países do G-20. “Não levaram em conta todos”, afirmou.

Supachai também alertou o G-20 de que os remédios contra a crise precisam também do comércio, para o qual deve ser reabilitado, seja através das paralisadas negociações multilaterais da Rodada de Doha ou do financiamento ao comércio. Mas a principal demanda da Unctad ao G-20 é a adoção de uma reforma completa do sistema financeiro, que reintroduza a regulamentação e dê um papel decisivo aos governos e à colaboração entre eles. Os governos precisam desempenhar um papel enérgico no controle dos mercados, disse Flassbeck. Não podem permitir que a especulação se ocupe dessa função, insistiu. Devem desempenhá-la não só através da regulamentação, mas também da intervenção nos mercados, tanto pelas mãos dos governos como das instituições financeiras internacionais, explicou Flassbeck.

O especialista da Unctad descreveu que a economia mundial já se encontra em “terrenos negativos”, com as economias ocidentais em plena contração, de pelo menos 1% a 2% para este ano. Uma situação “muito dramática” que procede principalmente dos países industrializados, afirmou. Nas atuais circunstâncias, é preciso expansão monetária porque o sistema exige esses recursos, que “não são necessariamente inflacionários”, defendeu Flassbeck. O economista disse que o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, propicia a aplicação de políticas anticíclicas, mas, “não diz quem deve adotá-las”. Com relação ao G-20, Flassbeck recriminou que não falam em prevenir a “repetição deste cassino no futuro”. O especialista da Unctad perguntou quais seguranças existem de que algum dos bancos socorridos não volte ao jogo de cassino.

O estudo da agência da ONU indica que a tarefa mais importante diante da crise é interromper a queda dos preços dos ativos e a demanda, enquanto se revigora o setor financeiro para que conceda créditos aos investimentos produtivos, estimule o crescimento econômico e evite a deflação. A ameaça de deflação por superendividamento não pode ser detida por nenhum processo de mercado, pois somente os governos podem detê-la, explicou Flassbeck.

A Unctad afirmou no documento que a fé cega na eficiência dos mercados financeiros desregulados e a falta de um sistema financeiro e monetário baseado na cooperação geraram a ilusão de que as operações especulativas poderiam render ganhos sem risco e outorgavam eficiência para derrubada. Por exemplo, o papel e o peso crescentes dos investidores financeiros em grande escala nos mercados de futuros dos produtos básicos afetaram os preços dessas mercadorias e aumentou sua volatilidade. O economista da Unctad Jörg Mayer, especialista em produtos básicos, disse à IPS que no mercado existe a expectativa de que o preço dos alimentos aumentem ligeiramente.

As previsões da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) dão idéia de que os preços desse item não se manterão nos atuais níveis, mas que tampouco chegarão aos valores alcançados há apenas um ano, disse Mayer. Essa avaliação se baseou no fato de as existências de alimentos serem extremamente baixas. Enquanto as reservas se mantiverem nesses níveis, qualquer brusca mudança da demanda ou uma queda inesperada da oferta podem determinar o surgimento de picos nos preços, acrescentou. Quanto aos preços do petróleo, Mayer estimou que poderão se situar em “uma área razoável entre US$ 60 e US$ 80 o barril. Talvez a debilidade da demanda da economia mundial os jogue para baixo, mas, segundo o especialista, essa faixa entre US% 60 e US$ 80 constitui um ponto de equilíbrio provável, afirmou.

Supachai chamou a atenção para o papel das Nações Unidas nas políticas para superar a crise. A função do fórum mundial nesse sentido “é crucial”, afirmou. A ONU deve fazer parte da equação e desempenhar um papel central nas reformas, porque é a única instituição universal e com credibilidade para assegurar a legitimidade desse processo, concluiu. IPS/Envolverde

(Envolverde/IPS)



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