Economia solidária cresce porque sociedade ainda é desigual, dizem analistas

Um modelo que se baseia em princípios de cooperação, autonomia e autogestão, que propõe a redução das desigualdades e maior atenção ao meio ambiente. Além de valorizar o trabalho humano, a prática do comércio...

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Um modelo que se baseia em princípios de cooperação, autonomia e autogestão, que propõe a redução das desigualdades e maior atenção ao meio ambiente. Além de valorizar o trabalho humano, a prática do comércio justo e consumo consciente. Essa é a proposta da Economia Solidária (ES), que é comemorada hoje, 15, em todo o Brasil.

O movimento da Economia Solidária tem crescido nos últimos dez anos no país. Essa opinião é compartilhada por três especialistas da área. Joaquim Melo, fundador do Banco Palmas, localizado em Fortaleza, Ceará; Lúcio Uberdan, membro do Forum Gaúcho de EPS e também coordenador da Setorial de ES do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul (RS) e Clóvis Vailant, integrante do Forum Brasileiro de ES.

Joaquim explica que desde o primeiro encontro sobre ES, por volta do ano 2000, o movimento não só cresceu, como também se espalhou pelos estados brasileiros. "Hoje são mais de 20 mil empreendimentos", diz. "Esse movimento tem crescido de baixo para cima. É muito importante ressaltar isso", completa.

Para Lúcio Uberdan "a economia solidária cresce porque nossa sociedade é muito desigual, e ainda, passamos por uma crise financeira mundial". Segundo Clóvis, este novo modelo de desenvolvimento conseguiu pautar os governos, "mas estamos ainda às margens das discussões políticas, nos espaços periféricos".

A visibilidade dessas atividades tem conquistado avanços também no campo das Políticas Públicas com as leis estaduais e municipais para o setor. "Mas falta ainda uma legislação em nível federal", opina Joaquim. Para ele, a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), em 2003, representa um grande avanço, porém, o órgão dispõe de poucos recursos de fomento e apoio aos empreendedores solidários.

Quando se fala em desafios e entraves enfrentados pelo setor, todos são unânimes: dificuldade de acesso ao crédito e falta de espaços de comercialização. "Tem poucos canais para comercializar e os produtos são ainda muito artesanais. Precisa ter avanço qualitativo e tecnológico", critica Joaquim. Ele diz ainda que é preciso ter estratégia comercial.

Os eventos tão comuns na área, como as feiras, não têm sido suficientes para estruturar e garantir o escoamento contínuo dos produtos. Para Lúcio "está na hora de os empreendimentos darem um salto". Ele diz que, embora crescente, o movimento econômico solidário ainda está em construção.

"No mercado capitalista está tudo organizado, você sabe quem é o patrão, quem é o empregado. Mas na Economia Solidária, mesmo tendo a vantagem do trabalho autogestionário, ainda está sendo tudo estruturado", explica.

Uma das grandes lutas deste movimento é pelo apoio e fomento aos empreendimentos, associações e cooperativas, e a criação do marco legal. Para Lúcio, a falta de recursos não dá condições para esses empreendimentos competirem no mercado capitalista. "Não temos políticas públicas que consolidem os grupos solidários", diz.

Joaquim ressalta também o aumento no número de instituições financeiras que atuam dentro da lógica solidária. "Hoje já são 51 bancos comunitários pelo Brasil". Esses bancos representam uma saída e apoio para os pequenos grupos, já que os grandes bancos dificultam o financiamento para essa camada da economia.

Mesmo concordando com o crescimento da ES no Brasil, a tendência para o futuro é vista com reservas e divergências entre os analistas. Joaquim espera a criação do marco legal para a economia solidária no Brasil e diz que "é necessário haver a articulação deste movimento com outros movimentos sociais".

Com análise rigorosa, Lúcio Uberdan diz que vê duas possibilidades para o futuro. Uma é a ES se conformar em ser um movimento social e, junto com outros movimentos, pensarem outra economia também solidária. Ou ainda, continuar crescendo, mas de forma vegetativa, se acomodando e servindo de prestador de serviços e mão-de-obra barata para o sistema capitalista. "Teríamos a autogestão comprometida. E a produção e o lucro viriam definidos de fora", diz.

Com previsão mais otimista, Clóvis acredita que nos próximos 10 anos a ES deve avançar ainda mais. "É um crescimento contínuo". E ainda finaliza dizendo que o surgimento das associações e cooperativas têm sido a saída para os trabalhadores enfrentarem a crise econômica.

Com informações da Adital.



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