Ecos de Nairóbi

O Fórum Social Mundial de Nairóbi, com seus mais de 50 mil participantes, foi impactante não só para a África, mas para todos os que dele participaram, vindos de todas as partes do mundo....

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O Fórum Social Mundial de Nairóbi, com seus mais de 50 mil participantes, foi impactante não só para a África, mas para todos os que dele participaram, vindos de todas as partes do mundo. Foi o maior encontro popular do continente.

Por Moacir Gadotti

 

O Fórum Social Mundial de Nairóbi, com seus mais de 50 mil participantes, foi impactante não só para a África, mas para todos os que dele participaram, vindos de todas as partes do mundo. Foi o maior encontro popular do continente.
A organização do FSM de Nairóbi foi precedida por 40 Fóruns regionais e temáticos e encontros preparatórios só na África. Eles fazem parte de qualquer avaliação que se possa fazer de seus resultados concretos. Só o fato de ter sido realizado na África, por si só, foi um grande êxito.
Todos aqueles que participaram do Fórum de Nairóbi saíram com mais clareza sobre os rumos a seguir. O FSM é um processo inacabado, em permanente discussão. Não queremos utilizar nossas velhas lógicas para construir algo que é inteiramente novo. E, sabemos muito bem, este é um processo que demanda tempo de maturação. O FSM está em evolução, na medida em que existem ainda muitas idéias diferentes sobre o que ele é.
O fato de ter-se realizado na África, a principal vítima do modelo neoliberal, serviu para expandir a luta contra este modelo naquele continente. Deu visibilidade aos movimentos sociais africanos na luta contra o neoliberalismo; às suas lutas pelo direito à terra, à água, pela soberania alimentar, pelo direito das mulheres; à luta por moradia, pelos direitos trabalhistas, pelos direitos humanos etc. A integração africana deu mais um passo em Nairóbi.
Nos dias que se seguiram ao Fórum, surgiram muitas críticas e avaliações. Criticou-se a pouca participação dos excluídos no evento. Aliás, isso já vem acontecendo em outros Fóruns. Não há dúvida de que nossa capacidade de mobilização dos mais pobres tem que melhorar muito.
Mas o que mais me chamou a atenção foi a reação de uma parte da mídia brasileira, inconformada com o êxito do FSM. O principal editorial do jornal O Estado de S.Paulo, dia 28 de janeiro de 2007, falava em “agonia do Fórum Social Mundial”. Esse periódico tentou desqualificar o Fórum, falando de 2 mil participantes, quando o seu concorrente, a Folha de S.Paulo, no mesmo dia falava na participação de 59 mil pessoas. Vale tudo quando se trata de defender a continuidade do mundo que está aí. O Estado informava erroneamente seus leitores que o Conselho Internacional do FSM havia cancelado o evento em 2008 quando, ao contrário, decidiu mundializá-lo.
Em janeiro de 2008, o evento será realizado com um formato novo, sem uma sede global, ou em três lugares (policêntrico), como ocorreu em 2006. Haverá manifestações em todo o mundo nos mesmos dias em que o Fórum Econômico de Davos se realizar. No ano de 2008, poderemos organizar um dos Fóruns de maior visibilidade social e relevância prática.
O Conselho Internacional está preparando uma estratégia de conectividade entre os diferentes Fóruns, para evitar a pulverização das ações. Foi sugerida a organização de uma “Marcha Global pela Cidadania Planetária” ou uma “Jornada de Mobilização Global”.
Em vários seminários de avaliação do Fórum chamados de “FSM sete anos: balanço e futuro”, realizados em Nairóbi, vários temas foram sugeridos. Entre eles, a criação do FSM virtual. Para 2009, o Conselho Internacional decidiu criar um guia orientando os possíveis candidatos da sede mundial do Fórum a prepararem o evento. Esse manual ajudará a evitar os erros cometidos em alguns eventos, relacionados principalmente com a infra-estrutura, o financiamento e a logística. Em Nairóbi, foi criticada a falta de estrutura para a comunicação, o alto custo da inscrição (sete dólares) e a precariedade da alimentação.
Todos queremos que o FSM seja eficaz, mas a eficácia dele não pode ser medida por critérios quantitativos apenas. O processo é mais enriquecedor do que os seus produtos. Sua metodologia é mais importante do que seus eventos. Por qualquer lado que ele possa ser visto, o FSM é um grande êxito. Ele já está mexendo com milhões de pessoas em todo o mundo. Como nos dizia Chico Whitaker na última reunião do Conselho Internacional do FSM em Nairóbi, defendendo a proposta para 2008, “nós somos muitos e precisamos mostrar que estamos em todos os lugares”. Concordo inteiramente com ele.
No próximo número discutiremos os temas que mobilizaram Nairóbi. F



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