Especialistas da ONU exigem mudanças radicais

A economia mundial está mal e pode piorar, o que obriga a tomar medidas imediatas para restaurar a confiança, alertou ontem o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas. É...

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A economia mundial está mal e pode piorar, o que obriga a tomar medidas imediatas para restaurar a confiança, alertou ontem o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas.

É preciso uma série maciça e concertada de estímulos fiscais e medias de grande incentivo para mudar radicalmente o sistema financeiro global, no qual os países em desenvolvimento devem contar com voz e voto, afirma o informe anual Situação e Perspectivas para a Economia Mundial, apresentado no México.

“Tomara que as medidas urgentes, que sem dúvida são necessárias”, não tirem a atenção “do mais importante: criar uma reforma radical do sistema financeiro, que foi à bancarrota”, disse à IPS Robert Vos, diretor desse departamento da ONU. “Vai demorar, pode ser dois anos ou mais, pois é necessária muita discussão técnica. Mas, felizmente, o terreno está adubado e há consciência de que as coisas não podem continuar iguais”, disse o funcionário e principal autor do informe.

O estudo indica que a economia mundial está “afogada na pior crise financeira desde a Grande Depressão”, com os países industrializados em recessão e o resto enfrentando “perspectivas sombrias”. O órgão prevê que este ano o produto interno bruto mundial crescerá apenas, em média, 1% contra os 2,5% estimados em 2008, número que por si só baixa em relação ao dos anos anteriores.

“O produto nos países desenvolvidos cairia 0,5% em 2009, o crescimento nas economias em transição baixariam de 6,9% em 2008 para 4,8% neste ano, enquanto a taxa para o conjunto dos países em desenvolvimento cairia de 5,9% em 2008 para 4,6% em 2009”, diz o informe. “A grande incerteza das condições atuais leva a pensar na séria possibilidade de um cenário mais pessimista. Certamente, temos um panorama pessimista, mas acreditamos que se todos dermos as mãos poderemos ir em frente neste momento, que é grave e pode ficar pior”, acrescentou.

Para evitar o risco de uma recessão generalizada e intensa, o estudo da ONU sugere implementar mecanismos de reativação econômica em grande escala coordenados e concertados internacionalmente com injeções de liquidez e medidas de recapitalização. Em um cenário “otimista”, diz que, dar um estímulo fiscal efetivo equivale a 1,5% a 2% do produto interno bruto das grandes economias, os países industriais em seu conjunto atingiriam um crescimento de 0,2%, enquanto as nações em desenvolvimento chegariam a mais de 5%.

Na perspectiva do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, os problemas atuais, gerados nos Estados Unidos e irradiados para o mundo, são a “crônica de uma crise anunciada” que teve como origem um “padrão de crescimento global insustentável”, baseado em grande parte na demanda de bens de consumo incentivada pelo crédito fácil. Segundo o informe, a entrega de gigantescas somas de dinheiro público para recapitalizar bancos e instituições “falidas” não conseguiu desfazer as nuvens negras e é claro que será necessário mais tempo para o retorno da confiança.

Mas, é preciso ir além, diz o documento. “Ao combater o fogo de hoje, os responsáveis da política devem olhar o amanha”, e ali está a necessidade de uma revisão do “contexto de políticas de desenvolvimento” e a de criar um estímulo fiscal “coordenado internacionalmente”, segundo o informe. “Pacotes fiscais coordenados amplificarão os efeitos multiplicativos em pelo menos 30%, criando um estímulo ainda maior para a economia mundial e cada país em particular”, acrescenta o informe.

Se não se conseguir um nível de coordenação internacional correto, a reativação da economia mundial sofreria um retrocesso, o que, por sua vez, adiaria a restauração da confiança nos mercados, acrescenta o documento. Nas mudanças com vista são futuro o mais importante será enfrentar as causas de “caráter sistêmico que deram lugar à crise atual” demonstrando que os atuais “mecanismos de governabilidade global são inadequados”, afirma.

No futuro, um Fundo Monetário Internacional, por exemplo, exigirá maior equilíbrio em sua administração e gestão, dando o “peso necessário” aos países em desenvolvimento, disse Vos à IPS. É patente a irrelevância atual das instituições de Bretton Woods, criadas em uma conferência nessa localidade norte-americana no final da Segunda Guerra Mundial, como o FMI e o Banco Mundial, acrescentou.

Falta representatividade e democracia nessas instituições, que carecem de estratégias efetivas de coordenação para responderem adequadamente à crise como a atual, disse Vos. O funcionário reconheceu que criar uma nova arquitetura financeira global pode demorar meses ou anos, e recordou que a atual foi desenhada em dois anos de discussões. “Entretanto, é preciso começar agora”, concluiu. (IPS/Envolverde)



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