EUA: Boicote à conferência sobre racismo

“É uma vergonha para a administração de Obama continuar com a prática do governo de George W. Bush de se negar a dialogar com outros”, disse Ramsey Clark, ex-promotor-geral e ganhador do Prêmio de...

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“É uma vergonha para a administração de Obama continuar com a prática do governo de George W. Bush de se negar a dialogar com outros”, disse Ramsey Clark, ex-promotor-geral e ganhador do Prêmio de Direitos Humanos 2008, em uma petição assinada por centenas de ativistas.

O texto exorta Obama a se comprometer com uma plena participação na reunião, que acontecerá entre 20 e 24 de abril em Genebra, convocada para revisar os progressos das decisões tomadas na conferência internacional sobre racismo realizada na cidade sul-africana de Durban em 2001. A delegação norte-americana decidiu isolar-se da conferência por temer que sua resolução final ataque especificamente Israel, seu aliado mais próximo no Oriente Médio. Por exemplo, as contribuições de alguns países asiáticos qualificam as políticas israelenses em relação aos palestinos como “novo apartheid”, “um crime contra a humanidade” e “uma forma de genocídio”. Israel, Canadá, Austrália e União Européia também pode não participar da conferência.

O ministro de Multicultura e Identidade do Canadá, Jason Kenney, afirmou que a conferência 2001 havia “degenerado em expressões de divisão e aberta intolerância e anti-semitismo, que vão contra os princípios da Organização das Nações Unidas e as próprias metas da reunião”. Também afirmou que a Conferência de Revisão de Durban 2009 parece seguir o mesmo caminho. Mas, ativistas pelos direitos humanos disseram que um boicote não tem sentido, já que o rascunho da resolução foi encomendado para atender as preocupações dos Estados Unidos e de Israel sobre as comparações entra racismo e sionismo.

Inicialmente, o governo Obama havia indicado sua disposição de participar da conferência enviando delegados para a fase de planejamento da sessões, mas, se retirou depois que grupos judeus conservadores intensificaram seu lobby por um boicote. “O documento negociado vai de mal a pior”, afirmou Roberto Wood, porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, em recente declaração “Como consequência, os eu não vão participar de futuras negociações sobre esse texto nem de uma conferência nele baseado”, acrescentou.

Funcionários norte-americanos disseram que gostariam de ver um texto “reduzido”, que não reafirme completamente a Declaração e o Programa de Ação de Durban. “Não deve assinalar a nenhum país o conflito, nem assumir o problemático conceito de difamação ou religião”, disse Wood, sem mencionar Israel nem o sionismo. A posição do governo de Obama foi elogiada por vários centros de estudos conservadores e organizações políticas pró-israelenses e de meios de comunicação, incluindo a Heritage Foundation.

“Esperamos que isto sirva como lição de que as acusações à antiga administração de falta de compromisso nas negociações multilaterais estavam, em geral, viciadas”, disseram Brett Schaefer e Steven Groves em um artigo publicado no site da fundação.

“O multilateralismo é apenas um meio para um fim, e a participação nas negociações multilaterais não é garantia de bons resultados”, acrescentaram. Às vezes, a participação dos Estados Unidos “só dá credibilidade a um processo que não a merece. Esta é uma lição que se aplica no caso de Durban II, mas que também deveria levar a administração Obama a reconsiderar sua decisão de participar como observador no Conselho de Direitos Humanos da ONU, que supervisiona a derrocada de Durban II”, ressaltaram Schaefer e Groves. Entretanto, Clark e outros ativistas pelos direitos humanos acreditam que o racismo deve ser visto como um sistema institucionalizado de opressão e exploração que é reforçado por uma complexa e dominante estrutura de crenças, políticas e leis, que são também prevalentes nos Estados Unidos e em Israel.

“como Washington consistentemente destaca os direitos humanos quando formula a política externa e critica outras nações por seu comportamento, a falta de disposição do governo Bush em tratar problemas semelhantes ou idênticos em suas próprias fronteiras é algo descaradamente hipócrita”, disse Ajamu Baraka, diretor-executivo da Rede de Direitos Humanos dos Estados Unidos, que reúne centenas de organizações. No ano passado, o grupo de Baraka enviou ao Comitê da ONU para a Eliminação da Discriminação Racial (Cerd) um informe de 600 paginas citando centenas de casos de indivíduos de minorias raciais que sofrem assedio e discriminação por parte de autoridades e empregadores em todo o país.

Investigadores da ONU fizeram um estudo e concluíram que as acusações eram validas e pediram a Washington que tomasse as medidas necessárias. Baraka disse esperar que Obama dê “passos imediatos e significativos” para reparar “este dano e que melhore o panorama interno de direitos humanos”. Mas, ao fazer isto, também deve unir-se aos esforços internacionais para erradicar toda forma institucionalizada de racismo. “Deveria comprometer os Estados Unidos a um papel ativo no processo de revisão de Durban”, acrescentou.

O governo de Obama deixou aberta a possibilidade de participar da conferência de Genebra, mas somente se considerar aceitável o rascunho da resolução. “Observaremos os acontecimentos em Genebra e nas capitais para ver o que acontece”, disse Wood. “Estaremos preparados para participar se um documento atender nosso critério”, acrescentou. Uma das principais objeções ao texto é que se refere às “políticas racists” de Israel nos territórios palestinos ocupados. Nos preparativos da conferência, a maioria dos países da América Latina, Ásia e África não expressaram discordância com o documento. IPS/Envolverde



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