Falar em balanço dos 10 anos da NovaE é falar de caos que constrói

Neste ano, a Revista NovaE completa 10 anos no ar. Criada para reunir a produção fora dos veículos de comunicação convencionais, a página eletrônica foi ao ar em outubro de 1999, com...

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Neste ano, a Revista NovaE completa 10 anos no ar. Criada para reunir a produção fora dos veículos de comunicação convencionais, a página eletrônica foi ao ar em outubro de 1999, com toda a produção licenciada em copyleft. Articulada com outras publicações independentes, a NovaE prepara comemorações no própria site, resgatando artigos e reportagens do arquivo que relatam lutas e bandeiras ainda atuais.

“Gostamos de falar que a revista é um ‘Devir‘, um sentimento de vir a ser; é desta forma que ela é sustentada”, resume. “Na convicção de que a nossa vontade é suficiente para mantê-la de pé”, completa. E assim, se preparam para os próximos 10 anos.

Confira a íntegra.

Fórum – Qual o balanço dos 10 anos da NovaE completados em 2009?
Manoel Fernandes Neto –
É um balanço muito, muito positivo. Por conta da data, estamos mergulhados nos arquivos da NovaE e verificamos que a maioria das edições de seis, sete anos atrás poderia, tranquilamente, ir para o ar como debate atual. Ou seja, a lutas não envelheceram e ainda são muitas e incessantes. As causas humanitárias necessitam cada vez mais de veículos libertários, revistas, blogues, sites… No caso da NovaE, fazemos uma releitura do momento, da bandeira da vez, agregando e organizando conteúdos relevantes para uma compreensão mais aguçada dos temas. Depois, tem todo o lado emocional e idealista da data: falar em balanço dos 10 anos da NovaE é falar de caos que constrói. De emoção, de persistência, de tolerância, de ideal, de acreditar e de conseguir. Da fé. De amizades que foram fundidas em todo este período. O balanço destes 10 anos é o balanço de um tempo, como símbolo da transformação que queremos que continue na sociedade, no planeta, nas consciências. Dessa forma, vejo a NovaE como um símbolo que deve se renovar a cada dia. A cada combate.

Fórum – Há planos de comemorações?
Fernandes Neto –
A comemoração será feita na própria revista, como sempre foi, nosso verdadeiro espaço. Vamos trazer, a partir deste ano e nos próximos, edições e ações especiais que resgatem os grandes momentos da revista dentro dos motes: “A história é para ser contada” e “Credibilidade não envelhece”. A linha editorial da NovaE foi concebida de uma forma que não nos arrependemos, de uma só edição e bandeira que erguemos. E a qualidade dos textos publicados confere atemporalidade difícil de ser derrubada. Em 10 anos foram mais de 1.000 edições diferentes, milhares de textos publicados. Causas encampadas pela revista na luta em favor de bandeiras que hoje estão mais em voga do que nunca, tais como a manipulação midiática, a sordidez de instituições da República e, sem teoria de conspiração, o poder subterrâneo e delinquente que impede nosso progresso como país e como pessoas. Nossa comemoração é estar, com lucidez, colaborando no desmascaramento desta situação.

Fórum – O copyleft é uma opção desde a concepção da revista, o que a coloca como pioneira. Qual a sua análise da evolução desse debate, com o surgimento de licenças livres para a produção cultural?
Fernandes Neto –
No início, no ano de 1999, lembro de cenas que nos emocionavam: editoriais da NovaE reproduzidos, traduzidos em diversos sites do Brasil e do planeta. Muitas vezes, ajoelhamos na frente do micro como sinal de respeito por esta libertação. Você faz algo interessante? Passe para outras pessoas difundirem livremente. No caso de material editorial, conteúdo, aquilo começa a fortalecer sua reputação. E a sua reputação vai sempre permitir que em algum momento você seja remunerado por aquilo que você faz de melhor. Existem dezenas de exemplos de pensadores que fortaleceram sua reputação por meio do copyleft e criaram forma de remuneração. A revista NovaE sempre enxergou nas licenças livres uma releitura do poder do pensamento. O pensamento é livre. Você envia a quem você quiser, constrói e destrói conforme sua ética. Por ser libertária, licença livre, o copyleft reuniu o que de melhor existe em humanidade em todas as áreas, pois a busca da liberdade é um atributo nobre. E a produção livre não tem volta. Cada muro, cultural ou não, vai ser derrubado. Cada medo vai ser desmistificado.

Fórum – Quando a NovaE foi lançada havia poucos veículos alternativos ou independentes, especialmente na internet. Como foi assistir ao surgimento de várias publicações?
Fernandes Neto –
Um dos maiores legados da Novae é sua participação ativa desta transformação midiática. Não somos e não fomos meros expectadores revestidos de arrogância em relação a outros meios de comunicação alternativa. Noticiamos, participamos no que nos era possível; oferecemos ideias e vivências na colaboração. Gentileza gera gentileza, é a lei. Acima de tudo, oferecemos a revista como fonte de inspiração para outros libertadores. Falamos em alto em bom som: “É possível, vá e faça. Liberte-se das amarras impostas pela dominação”. A mente é livre, como nos diz o professor Evandro Ouriques. Mostramos que os modelos de mídia independente não precisam ser elitistas, e sim inclusivos, bonitos, atraentes, impactantes.

Fórum – Como é a relação com a blogosfera? Como é aproveitada a produção da longa lista de blogues listados na seção "rede"?
Fernandes Neto –
É saboroso falar do movimento blogueiro e a NovaE. A mídia de massa, corporativa e comercial, aproveitou todas as oportunidades para ridicularizar a ferramenta e esta – como chamamos – renascença da voz humana. Hoje, muita gente posa de “blogueiro famoso”, mas na época resistiu e fez o jogo do patrão ao defender com unhas e dentes as corporações e a função do modelo de jornalista tradicional, bem remunerado, bem na foto, com coluna assinada. Blogueiro precisa somente de uma conexão. Se o telhado é de zinco ou se ele está sentado em banquinho de madeira, pouco importa. A seriedade e a ética são o que ele é como pessoa. É a lógica do marceneiro do Cláudio Abramo. Você não é um ser deslocado de sua porção blogueira. Neste sentido, a NovaE encampou a luta, defendeu a causa, e grandes blogueiros de hoje e sempre foram articulistas da revista nos primórdios e hoje possuem seus blogues. E blogue é algo independente. Você não consegue lhe colocar camisa de força. Fazemos a nossa parte, damos o link na nossa rede e colocamos a revista à disposição de qualquer post, texto, artigo, que se queira enviar à Novae ou que achemos interessante somar com nossa linha editorial.

Fórum – A revista não conta com aportes de nenhum grupo financeiro, o que é apresentado como uma opção no texto sobre a história. Como o veículo garante sua sustentabilidade?
Fernandes Neto –
Ela sobreviveu pela força de seu ideal e pela sua proposta editorial, que arrebatou amizades, respeito, transformadas em colaborações de um número infinito de pessoas. Ora oferecendo uma forma de levantar recursos, ora trazendo estes recursos como doação. Às vezes, oferecendo capacidade técnica, em mão-de-obra ou servidores. E dia a dia fomos sobrevivendo. Dia a dia foram se somando os anos e muitas vezes impedimos o corte da luz por falta de pagamento, argumentando e explicando àquele profissional da companhia de energia que uma publicação importante para o Brasil estava indo ao ar. Incluindo ele próprio na luta, como aliado. Acho que em parte foi isto; vimos e vemos a revista com estes olhos, pois sabemos que existem leitores que estão com a gente há cinco, seis, sete anos. E temos responsabilidade com ele. E temos responsabilidade também com os colaboradores. A Cristina [Moreno de Castro], que é editora assistente da revista, iniciou quando ainda estava no colegial, há mais de 7 anos. Não podemos parar. A NovaE tem vida própria.
Vimos muitas revistas morrendo porque perderam seus patrocínios, mas nunca dependemos disso. Podíamos, sim, ficar sem almoço, sem lazer, sem algumas necessidades descartáveis, mas parar, jamais. Acima de tudo, aprendemos a fazer tudo, tudo mesmo, principalmente aquilo que não tínhamos como pagar. Programação, design, edição, fotografia, marketing, divulgação. Gostamos de falar que a revista é um “Devir”, um sentimento de vir a ser; é desta forma que ela é sustentada. Na convicção de que a nossa vontade é suficiente para mantê-la de pé. Com certeza, vamos para mais 10 anos.



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