Férias coletivas e demissões já assombram metalúrgicos no Brasil

Após ter devastado o setor imobiliário dos EUA, quebrado dois dos maiores bancos do mundo e derrubado os índices das principais Bolsas de Valores, a crise internacional ameaça seriamente empresas transnacionais do setor automotivo...

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Após ter devastado o setor imobiliário dos EUA, quebrado dois dos maiores bancos do mundo e derrubado os índices das principais Bolsas de Valores, a crise internacional ameaça seriamente empresas transnacionais do setor automotivo com ativos que superam o Produto Interno Bruto (PIB) até de países médios.

Sendo a nova bola da vez, corporações como a General Motors (GM) e a Chrysler solicitam ao governo dos EUA uma ajuda financeira de 35 bilhões de dólares. O presidente eleito Barack Obama pressionou George W. Bush para que um auxílio bilionário seja liberado ainda na atual gestão, que se encerra em 20 de janeiro de 2009. Agora, o governo que até então era entusiasta da “mão invisível” do mercado, cogita até controlar parte das ações de GM, Chrysler e Ford, como contrapartida ao socorro de cerca de 25 bilhões de dólares que deve ser concedido nos próximos meses. As montadoras já têm os seus planos de “reestruturação”, sobretudo nas matrizes. A GM dos EUA admite que pode demitir 32 mil funcionários até 2012.

No Brasil, tal como no mundo, os agentes mais atingidos pela crise devem ser os trabalhadores do setor automotivo-metalúrgico. No último semestre, a venda e a produção de automóveis apresentou uma desaceleração. É o primeiro indício de refluxo que o setor apresenta desde 2003. De lá para cá, as vendas e a produção apresentaram um crescimento considerado vigoroso (cerca de 6% ao ano), impulsionado pela expansão do crédito e pelo razoável ciclo de crescimento econômico no período. Com essa performance, o setor automotivo passou a representar 24% da economia brasileira.

Nesse período, as montadoras auferiram lucros recordes, sempre proporcionais às remessas de lucro enviadas das filiais às matrizes.

Mau indício
O fato de as férias coletivas das montadoras terem sido antecipadas e concedidas a um número maior de trabalhadores é o primeiro indício de que o ano de 2009 será repleto de turbulências para os metalúrgicos. Esse expediente utilizado pelas empresas visa reduzir a produção, entendendo que a crise é reflexo de uma superprodução dos últimos anos. Ou seja, turbinadas pelo crescimento mundial, a indústria automobilística produziu muito mais do que a real demanda.

Na análise de Luís Carlos Prates, o Mancha, funcionário da GM e secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP), filiado à Conlutas, as empresas do setor não têm o direito de se queixar da crise, já que vêm de um período de alta lucratividade.

“Nos últimos três anos, essas companhias acumularam grandes lucros, remeteram para as matrizes e fizeram reestruturações. Ou seja, reduziram salários ou demitiram e contrataram funcionários com salários mais baixos. Agora querem descarregar o preço da crise nas costas dos trabalhadores. [Em São José dos Campos] boa parte já está em férias coletivas há dois meses e há uma possibilidade concreta de demissões, que vai variar de acordo com a redução do mercado”, diz Mancha.

A GM de São José dos Campos conta com cerca de 9 mil trabalhadores, dos quais 2 mil já estão em férias coletivas. A partir de 22 de dezembro, todos os funcionários deste pólo estarão sem trabalhar. O retorno está previsto para 25 de janeiro. Nas três principais fábricas da GM no Brasil – São José dos Campos, São Caetano do Sul (SP) e Gravataí (RS) –, chega a quase 15 mil o número de operários em recesso compulsório.
“O principal problema das férias coletivas é que elas desorganizam a vida do trabalhador. Não se pode planejar nada. Com isso, no ano que vem a maioria não poderá tirar férias”, explica o metalúrgico. 

Socorros
Mancha, tal como os membros da Conlutas, é crítico ferrenho dos empréstimos concedidos por governos às montadoras. No Brasil, o governo federal e o do Estado de São Paulo destinaram R$ 8 bilhões (R$ 4 bi de cada) para os bancos das montadoras, alegando que a quantia estimularia a oferta do crédito, mantendo o padrão de consumo dos últimos anos e a oferta de empregos na indústria.

O presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM-CUT) Carlos Alberto Grana afirma que o auxílio brasileiro é diferente do que vem sendo arquitetado nos EUA. “Não é uma injeção direto nas montadoras como nos EUA. Aqui no Brasil a situação é muito diferente. Pelo ciclo de crescimento virtuoso nos últimos anos, diria que o país se encontra numa situação privilegiada. Aqui as montadoras não estão pedindo investimento direto do governo. O que precisamos é ampliar a linha de crédito e reconquistar a confiança do consumidor, para o mercado voltar à normalidade. E isso tem sido feito com esses R$ 8 bilhões destinados”, explica o dirigente.

Para Mancha, a intervenção do governo tem um outro sentido. “Não podemos deixar que isso aconteça. Esse recurso que as montadoras receberam pode ser utilizado para arcar com as demissões e para remeter às matrizes. Defendemos que eles reduzam a jornada de trabalho para garantir a estabilidade no emprego, já que tiveram lucros exorbitantes nos últimos anos”, afirma. 

Renato Godoy de Toledo, da Agência Brasil de Fato



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