FSM: O desafio de transformar sem conduzir

O Fórum Social Mundial (FSM) é apenas “um instrumento”, que não deve ser confundido com o movimento intermundista, afirma Chico Whitaker, um dos fundadores deste encontro, que comemora seu décimo ano de vida com...

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O Fórum Social Mundial (FSM) é apenas “um instrumento”, que não deve ser confundido com o movimento intermundista, afirma Chico Whitaker, um dos fundadores deste encontro, que comemora seu décimo ano de vida com um seminário de balanço, iniciado ontem e que vai até o dia 29 em Porto Alegre, precisamente onde nasceu. Trata-se de uma metodologia, “um instrumento para unir. O Fórum não transforma o mundo, é a sociedade que o fará, em um multifacetário altermundismo”, acrescentou Whitaker, que rejeita a definição de “movimento dos movimentos” com um protagonismo próximo ao dos partidos políticos.

Esclarecer a natureza do FSM, defendendo sua carta de princípios de 2002, é uma missão assumida por este arquiteto de formação, dedicado há mais de cinco décadas ao ativismo pela justiça social, representante da Comissão Justiça e Paz da Igreja Católica no Conselho Internacional do Fórum. Já em 2005 escreveu o livro intitulado “O desafio do Fórum Social Mundial, um modo de ver”, no qual explica os princípios e os procedimentos do grande encontro mundial da sociedade civil, sua evolução, sua horizontalidade na rede e as “tentações” de repetir caminhos políticos que historicamente mostraram suas ineficiências e perversidades.

A vocação maior, de abrir novos caminhos e construir a “unidade altermundista”, juntando toda a diversidade de ativistas, é pouco compreendida, lamentou nas respostas à IPS. As tensões dentro do próprio Fórum e de seu Conselho Internacional se devem, em boa parte, a grupos que defendem os velhos caminhos. Em seu balanço destes dez anos, o FSM, embora sem ser protagonista direto, contribuiu para muitos avanços, promovendo articulações entre movimentos. A morte da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), promovida pelos Estados Unidos, se deve a ele, bem como o aumento da consciência indígena na América Latina que, no caso da Bolívia, levou o aymara Evo Morales ao governo.

O pensamento dos norte-americanos mudou desde o surgimento do FSM, e isso se refletirá no segundo fórum nacional que acontecerá em julho na cidade de Detroit, um símbolo do modo de vida norte-americano. Além disso, acelerou o desenvolvimento de uma “economia solidária”, destacou Whithaker. Transformar o mundo é o objetivo do FSM, mas sem indicar “modelos acabados nem estratégias únicas”, exigindo mudanças “em todos os níveis, inclusive nas pessoas”, ressaltou. Para ele, os sucessivos e numerosos encontros permitiram estender uma “compreensão melhor desse longo processo, mais complexo do que se imaginava antes”.

A crise financeira internacional dos últimos dois anos, nascida exatamente nos Estados Unidos, abriu novas frentes de análise e educação política dos jovens, com novos argumentos para mostrar o quanto o capitalismo é trágico, prosseguiu Whithaker. Sem apontar um modelo de sociedade futura pelo qual se luta, e nem pretendendo a tomada do poder estatal para promover as mudanças, o FSM nasceu com um lema determinado e óbvio, “outro mundo é possível”. Tudo isso é pouco, mas ajuda para uma mobilização duradoura, pensando em termos tradicionais.

Entretanto, as edições globais anuais do FSM mobilizaram multidões, e multiplicaram-se as iniciativas de fóruns nacionais, locais e temáticos por todos os continentes, estabelecendo o diálogo plural como forma de fomentar movimentos e reflexões. Este ano, sem um encontro central, haverá pelo menos 27 fóruns descentralizados. No FSM mundial de 2009, em Belém, no Pará, entrada oriental da Amazônia, aumentou especialmente a presença de jovens. Dos 150 mil participantes, 64% tinham menos de 24 anos e 81% possuíam diploma universitário ou frequentavam universidades, segundo pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Mas, em dez anos, também aumentou a insatisfação entre os militantes políticos que têm seus próprios projetos, suas utopias, seus movimentos ou partidos. Muitos falam de esgotamento e falência do processo, diante da falta de resoluções e programas de ação concretos do próprio FSM. Seus fundadores, especialmente os brasileiros, no entanto, resistem a isso por entenderem que estaria substituindo as organizações sociais e se convertendo em um ator como os partidos ou movimentos, negando a própria natureza do Fórum e sua carta de princípios, com objetivos e estratégias excludentes.

Estes ativistas criticam, por exemplo, o Fórum Social Mundial Temático, que acontecerá de 29 a 31 deste mês em Salvador, por considerarem que é uma iniciativa governamental e não da sociedade civil. Apoiado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo governo da Bahia, este encontro busca promover o diálogo entre a sociedade e os governantes da África e da América Latina, além de reflexões e intercâmbios de experiências sobre temas derivados da forte influência africana nesse Estado, como a cultura e as religiões.

Um dos grandes temas a debater será a nova economia em desenvolvimento, que está baseada principalmente em bens “intangíveis” como o conhecimento, que “não são rivais” e cujo “uso não reduz as existências”, favorecendo a colaboração, disse Ladislau Dowbor, professor de Economia da Universidade Católica de São Paulo, que ajudou a programar os debates na Bahia. Empresas que produzem robôs, portanto de tecnologia muito avançada, decidiram estabelecer uma rede que compartilha conhecimentos, com software livre, porque viram que é “mais rentável a colaboração” do que monopolizar suas patentes, disse o economista.

Atualmente, “três quartos do valor de um produto não é físico, como matéria-prima e mão-de-obra, mas deriva do conhecimento”. Também o setor social tem um peso enorme na economia e, por exemplo, os serviços de saúde concentram 17% do produto interno bruto dos Estados Unidos, acrescentou. Tudo isso abre espaços para processos de colaboração e solidariedade, concluiu Dowbor.

Com informações da IPS/Envolverde.



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