Guerra da informação ou guerra em rede?

Está na ordem do dia a discussão sobre o embate do poder da TV com o poder do You Tube. Ou então o debate sobre o poder dos jornais e o poder dos blogs....

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Está na ordem do dia a discussão sobre o embate do poder da TV com o poder do You Tube. Ou então o debate sobre o poder dos jornais e o poder dos blogs. Ou, ainda, o poder das rádios e TVs e o poder do Twitter. A lista poderia se alongar inutilmente, pois o que está se discutindo é o poder das mídias irradiadas de massa em relação às mídias distribuídas de grupo. Hoje cada vez mais se explora e se esgarça o confronto entre os veículos de informação massiva e as interfaces da comunicação coletiva.

Até bem pouco tempo atrás podia-se ouvir os formadores de opinião falar com desdém nas entrevistas que nos blogs só se escrevia para si mesmo. Hoje, depois do estremecimento provocado na mídia corporativa pelo surgimento do blog da Petrobras, o pouco caso de tal comentário só poderia despertar gargalhadas por sua infelicidade e cegueira. O fato é que a mídia irradiada vem sofrendo sucessivos e inesperados reveses em áreas nas quais, antes, o seu domínio tinha por limite o orçamento monetário de quem a contratava. Cada vez mais ela vê seu lugar de mediadora social da opinião pública ser denunciado e rejeitado por partes significativas das grandes massas, que antes se deixavam de bom grado representar (Rushkoff, 1999).

Por outro lado, embora haja verdade na conversa em torno da Web 2.0 com seus blogs, wikis, folksonomics, You Tubes e redes sociais, ela dificilmente coincidiria com a opinião veiculada pelos apólogos da internet sobre o significado da mudança na comunicação e nos negócios. Na nova web, eles anunciam, a publicidade encontraria a nova voz dos grupos da cultura da mídia, um público autoorganizado e participativo que a transformaria em uma honesta recomendação crítica dos usuários. Os usuários se transformariam em sócios das empresas através de sua cooperação interessada, e a colaboração e a livre expressão uniriam empresários e usuários nesse poderoso ambiente de negócios integrados (Levine, Locke, Searls & Weinberger, 2000; Anderson, 2006). Embora o quadro de idílio pareça atraente, basta que os interesses das empresas se vejam ameaçados por iniciativas dos usuários para o conflito explodir e o confronto aparecer em toda sua violência (Antoun, Lemos & Pecini, 2007).

Fica difícil, também, escutar o cântico da blogosfera libertadora, entoado por entusiasmados ciberativistas e coletivos de criação e partilha, sem algumas incontidas ânsias de riso. São inegáveis as transformações políticas propiciadas pela comunicação distribuída das redes interativas. A manifestação global de 50 milhões em 2003 contra a guerra do Iraque, a cobertura autônoma da guerra do Iraque por um jornalista financiado por seus leitores e a campanha pela indicação de um desconhecido governador capaz de arrecadar 40 milhões pela internet são alguns exemplos deste potencial (Antoun, 2008). Porém, a profusão dos sites de fans de ídolos e programas da cultura de massa, as conversas recorrentes sobre os temas das TVs e grandes jornais, e as repetições em cascata de bordões e ritornelos propagandísticos erguem um gigantesco tsunami onde se guarda a maior parte do que existe na internet (Jenkins, 2006), em tudo distante da recombinação criadora e da atitude libertária preconizada em vários mantras (Terranova, 2004).

Monitoramento e disputa pela primazia das narrativas sociais
O choque de poderes entre as mídias de massa e as interfaces de usuários é um fato inegável. A mídia irradiada cada vez mais ressalta seu poder de atingir uma quantidade imensa de público em uma só tacada. Do ponto de vista da formação cultural, porém, a produção de subjetividade da mídia massiva esbarra em seu produto mais notório: os fãs –esses pequenos fanáticos com momentâneas opiniões compactas disseminadas em profusão pelo poder da irradiação (Jenkins, 2006). Ela produz seus efeitos em prazo curto, gerando estes pequenos fanatismos em torno de suas causas.

Desde o seu surgimento, a mídia distribuída tem se contraposto através de seus usuários a estes efeitos acachapantes de achatamento da diversidade cultural promovida pelos processos de indução e falseamento de opinião típicos desta comunicação unilateral, em que poucos falam para muitíssimos. Embora a mídia irradiada de massa seja uma valiosa máquina de construção e destruição instantânea de reputação social, as mídias distribuídas de grupo tem se revelado uma poderosa máquina de criação e sustentação de reputação duradoura, funcionando a longo prazo. Enquanto a mídia massiva extrai seu poder da sensação de “todo mundo está falando isso” subentendido em seu uníssono, as interfaces de usuários encontram o seu poder na sensação de “minha turma aprova isso” ancorando a suposta confiabilidade da fonte da informação aos coletivos de que fazemos parte.

Os dois processos ganharam nomes dados pelos analistas de segurança do Departamento de Defesa dos EUA. O uso intensivo dos grandes meios massivos, pertencentes às corporações, para gerar a impressão de realidade em relação a algum tipo de acontecimento foi chamado de guerra da informação (infowar). Através desta guerra a informação é usada para produzir efeitos de percepção ou efeitos afetivos sobre alguma população ou grupo social, visando tanto promover ou inibir sua própria ação enquanto grupo, quanto inibir ou promover algum tipo de ação social sobre esta população. Através destes efeitos um certo tipo de narrativa ganha foros de verdade no seio da opinião pública e passa a dominar a discussão sobre o tema (Kopp, 2000; Schwartau, 1995).

O uso intensivo das interfaces de comunicação da internet para estabelecer uma verdade narrativa sobre algum acontecimento e disseminar narrativas sem lugar na mídia corporativa foi chamado de guerra em rede (netwar). Através desta guerra movimentos sociais ou pequenos grupos podem disputar a primazia da narrativa verdadeira com Estados, instituições e corporações, conversando e argumentando com os mais variados membros que frequentam sua teia de páginas web, grupos de discussão, redes sociais, blogs e outras interfaces de comunicação distribuída (Cleaver, 1999; Arquilla & Ronfeldt, 1996).

Embora esses dois processos sejam muito diferenciados, eles pressupõem a primazia do valor afetivo da comunicação e o mútuo monitoramento dos dois tipos de mídia por seu público em uma disputa ativa pela primazia em algum tipo de narratividade social e ação coletiva. A narrativa vitoriosa será aquela que obtiver a confiança da opinião pública (Arquilla & Ronfeldt, 2001, Antoun, 2004b).

Um exemplo deste choque de poderes é o episódio contado por Joe Trippi (2004) sobre a participação do candidato à indicação do Partido Democrata em 2003, Howard Dean, no programa de entrevistas de Tim Russert Meet the Press (Encontro com a Imprensa). Este programa era considerado um dos mais reputados para os candidatos à indicação pelos partidos, pois Russert é um dos entrevistadores de maior poder de fogo da TV americana. Sair-se bem nas entrevistas dele equivalia a vencer uma primária, para muitos analistas e políticos. Em sua entrevista, Dean tomou posições radicais contra a guerra do Iraque sendo atacado sem cessar por Russert. O Washington Post chamou de “embaraçoso” um comentário dele sobre as tropas no Iraque e o New York Times considerou sua performance “uma desgraça”. No seu comitê de campanha a entrevista era considerada o fim do sonho, pois todos os comentaristas políticos dos canais a cabo traçavam o obituário do candidato (Trippi, 2004, p. 127-128).

Quando ia desligar um dos computadores no comitê da campanha, Trippi percebeu que o ponteiro da arrecadação do blog tinha enlouquecido. Através da internet estavam chegando milhares de contribuições para o blog de Dean vindas de todo o país. O apoio dos eleitores através da internet mudou o quadro do julgamento da participação de Dean no programa feito pela TV. A atuação da mídia de massa foi considerada uma provocação pelos eleitores engajados na campanha de Dean, e a resposta foi uma imensa afluência de dinheiro através da internet para mostrar sua aprovação à campanha dele. Assim, no momento em que a grande mídia divulgasse suas estimativas gerais sobre as possibilidades de Dean, os assessores de campanha teriam o total das contribuições daquele dia para expor. Deste modo, ao grau de aprovação geral da política de guerra do governo seria contraposto o grau de engajamento do eleitorado do candidato (Trippi, 2004, 127-128).

A reputação das mídias e a verdade do sujeito
Podemos pensar que o poder da mídia de massa deixou de ser um poder moderno, sob a forma de uma ação sobre a ação presente, para se tornar um poder de controle, investindo a ação sobre a ação futura (Deleuze, 1992; Foucault, 2008). Mais do que um lugar disciplinar de irradiação e circulação de palavras de ordem (Deleuze & Guattari, 1980; Foucault, 1977a), ele se revela como um poder de atualização da memória nas comunicações. No caso da mídia massiva trata-se de um monopólio sobre a atualização das informações; um poder de mobilizar, processar e narrar o passado, tornando-o atual.

A massa só pode acessar o passado comum através das atualizações feitas pela grande mídia corporativa. Isto configura um imenso poder sobre os mecanismos de lembrança e o esquecimento social das populações. Através dele eu relaciono um passado qualquer com um acontecimento da atualidade para balizar a decisão de agir do sujeito social. Este passado vai ser apresentado sob a forma de gráficos e diagramas, dando foros de previsibilidade às imagens estratigráficas do que já foi tornado, desta maneira, um será. Este passado é atualizado para mobilizar as esferas de decisão e ação social, sendo preferencialmente investido para endossar ou inibir os programas eleitorais de candidatos a cargos executivos, as imagens públicas de candidatos majoritários em épocas de eleição e as discussões legais acopladas a decisões parlamentares para a criação ou transformação de leis existentes.

A entrada em cena da internet veio quebrar esse monopólio da narração. Através de suas interfaces qualquer usuário podia tornar atualizável qualquer informação, liberando sua comunicação. O investimento comunicacional dos movimentos sociais e coletivos passava a responder pelo alcance ou frequência de uma informação qualquer, conectando entre si diferentes interfaces e promovendo sua disseminação (Antoun, 2004a). Não só os usuários podem conectar qualquer informação antiga que esteja na rede com uma atual, como eles podem determinar o alcance de uma informação atual, replicando-a por diferentes interfaces. A comunicação partilhada nas interfaces coletivas de parceria (peer-to-peer) reposicionam o tipo de passado que importa na decisão de ação. A estatística preditiva das imagens estratigráficas cede lugar aos projetos comuns dos coletivos comunicacionais. A questão deixa de ser a eliminação do que nos ameaça para se tornar a construção ou invenção do que nos interessa (Antoun, Lemos & Pecini, 2007).

Temos neste debate dois polos importantes. De um lado está em jogo a relação dos meios com as populações à medida que estas constituem um público – sobressai, aqui, a questão do lugar que este público ocupa nesta relação. Trata-se de saber se ele é um consumidor relativamente passivo formado pelos produtos oferecidos pelo meio – produtos estes que participam ativamente de sua formação cultural conformando sua subjetividade -, ou se o público participa como um usuário, determinando ativamente os produtos de sua própria formação. Nasce daí a noção de que um amplo monitoramento e uma incessante vigilância devem fazer parte desta relação, pois aí estariam em jogo a formação dos sujeitos sociais e o comando da ação coletiva. Caberia às mídias cuidar para os sujeitos fazerem parte da renovação da demanda social, seja preenchendo os papéis necessários à continuação da sociedade, seja querendo os produtos e serviços oferecidos pelas empresas. Caberia ao público não abdicar de seu lugar ativo em sua própria formação, rejeitando tudo o que pudesse subjugá-lo ou submetê-lo aos ditames da soberania social em detrimento da formação de sua subjetividade. São questões do saber cultural e do poder governamental envoltas na comunicação social (Antoun, 2009b).

Mas no outro polo está a relação do sujeito com a verdade contida ou ausente no meio em que ele vai se formar. Trata-se de pensar quais chances ele tem de desenvolver uma subjetividade própria, de pôr em questão as escolhas que o meio lhe oferece ou interdita em função de tornar-se este ou aquele sujeito (Foucault, 2004, p. 253-280). Um meio perverso recusaria ao sujeito qualquer chance de se furtar a um destino social tornado provável que o aguardasse e lhe acenasse antes mesmo de seu nascimento. A questão reconsiderada nesta perspectiva nos faz perceber o envolvimento da questão da justiça neste jogo do sujeito com a verdade de sua própria formação. Um meio de formação que predeterminasse completamente o sujeito seria totalmente injusto; o destino do sujeito teria sido escrito muito antes de ele vir a existir e as narrativas de sua história sempre desembocariam em um certo grupo de resultados pré-existentes ao seu surgimento (Deleuze, 1991, p. 93-116).

Nesse sentido, é importante debater as transformações nas formas de governo da internet, sobretudo caracterizando os processos de mutação no campo da produção de comunicação social em rede, num período de disputa entre estratégias de controle e vigilantismos entre sujeitos sociais de um biopoder contra vidas que fazem do êxodo, da deserção e da mobilidade alternativas para construir novas formas de governo em que todos governam todos, sem passar fundamentalmente por qualquer tipo de mediação.

*Henrique Antoun é professor associado e diretor do Departamento de Fundamentos da Comunicação da ECO UFRJ – Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação de Comunicação da UFRJ e coordenador do grupo de pesquisa CIBERCULT – Laboratório de comunicação distribuída e transformação política.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 81. Nas bancas.



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