Haiti: É preciso derrubar milhares de edifícios

Será preciso derrubar milhares de edificações danificadas pelo terremoto de 12 de janeiro no Haiti, segundo recomendação de uma equipe de engenheiros dos Estados Unidos que analisou a situação em Porto Príncipe. A perda...

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Será preciso derrubar milhares de edificações danificadas pelo terremoto de 12 de janeiro no Haiti, segundo recomendação de uma equipe de engenheiros dos Estados Unidos que analisou a situação em Porto Príncipe. A perda maciça de vidas e infraestrutura no país mais pobre da América poderia ter sido evitada se tivessem sido utilizados projetos e materiais resistentes aos terremotos, afirmam em um estudo cinco engenheiros ambientais e civis da Universidade de Washington, divulgado há poucos dias.

A inspeção da região afetada revelou que o terremoto, no qual morreram mais de 200 mil pessoas e 1,5 milhão ficaram desabrigadas, não se deveu a uma falha superficial da terra, mas foram tremores mais profundos os que derrubaram os edifícios e motivaram a maioria das mortes. A equipe de engenheiros também concluiu que muitas das construções que resistiram ao terremoto terão de ser derrubadas, porque os danos sofridos são irreparáveis.

“Muitas das estruturas danificadas terão de ser derrubadas”, disse o professor Marc Eberhard, que lidera a equipe de especialistas. “Não são apenas cem ou mil edifícios. É uma quantia enorme de construções que nem mesmo posso calcular”, acrescentou. O estudo da equipe encontrou evidências superficiais da falha que poderia ter causado o terremoto, de 7 graus na escala Richter. “Grande parte da perda em vidas humanas poderia não ter ocorrido com projetos e construções resistentes aos terremotos, bem como com melhor controle da qualidade no trabalho do concreto armado e da alvenaria”, assegura a equipe.

Por outro lado, a vida continua para os 130 mil habitantes de Léogâne, cidade 32 quilômetros a oeste da capital, onde ocorreu o epicentro do tremor. Marie Saintus adapta-se às suas circunstâncias e tenta se divertir com os vizinhos, recostada como uma rainha em uma cadeira de vime na moradia improvisada montada no estádio de Anacaona, em meio a esta outrora bucólica cidade. “Não tirem fotos da comida”, disse Saintus em tom de brincadeira. “Não queremos que as pessoas saibam que temos comida. Vamos, fotografem esta menininha. Parece que precisa de ajuda”.

Desde o terremoto, os moradores de Léogâne se dedicaram a procurar parentes, enterrar os mortos e adaptar-se à nova vida que lhes é imposta. As pessoas desta região se orgulha de, apesar de o terremoto ter afetado cerca de 80% das construções, a perda de vida foi relativamente pequena. “Não somos como Porto Príncipe”, disse Jean Montigene, professora de uma escola secundária local, que foi destruída no terremoto. “Não vivemos uns em cima dos outros, por isso pudemos escapar para a segurança” quando o tremor aconteceu, disse.

Enquanto o governo central informou entre 20 mil e 30 mil mortes na área, as pessoas em Léogâne estimam esse número em cinco mil. Antes do terremoto, Saintus era funcionária pública municipal. Seu salário era incerto, e às vezes ficava vários meses sem receber. “Agora passo o tempo perguntado o que fazer e buscando uma forma de alimentar meus filhos”, disse esta mãe de quatro crianças. “Agora não é o melhor momento para procurar trabalho por causa de toda esta destruição”, afirmou, sem fazer muita questão.

A equipe de engenheiros norte-americanos instalou um sistema provisório de instrumentos para medir as réplicas e ajudar a precisar o epicentro, a fim de continuar estudando a situação. Mas Eberhard já adiantou que é extremamente necessário instalar várias estações permanentes de controle próximas ao epicentro, para compreender melhor quais foram as causas do terremoto e prever impactos de eventuais futuros sismos na região.

O estudo foi financiado pelo Instituto de Engenharia Sísmica e pela organização Pesquisa Geológica, duas entidades privadas dos Estados Unidos, e recomenda que o esforço internacional para reconstruir Porto Príncipe insista na adoção de medidas simples e accessíveis de engenharia sísmica. A comunidade internacional se comprometeu a completar, no prazo de dez anos, o processo de reconstrução da capital, que custaria entre US$ 8 bilhões e US$ 14 bilhões.

Eberhard e sua equipe estudaram o impacto do terremoto em algumas das áreas mais afetadas da capital haitiana, como a catedral católica, o Palácio Nacional, o Hotel Montana e a Escola Union, onde estudavam muitos estrangeiros. A equipe também analisou outros pontos especiais de Porto Príncipe, como hospitais, escolas, pontes e instalações-chave. No total foram estudadas 107 construções muito danificadas pelo tremor. Os engenheiros concluíram que 28% desabaram e um terço precisa de intensos reparos.

Enquanto isso, Saintus e muitos habitantes de Léogâne e outras partes do país dependem das remessas enviadas por familiares nos Estados Unidos e no Canadá para sobreviverem. “Sem a família teríamos morrido. O governo não pode nos ajudar. Por isso nossos familiares no exterior ajudam”, afirmou. O Haiti é conhecido como uma república de organizações não governamentais. Esse país de dez milhões de habitantes é mantido por uma rede de mais de três mil destas organizações procedentes de todo o mundo.

Alguns observadores destacam que esta realidade não contribuiu muito para desenvolver e motivar as capacidades da população e impulsionar uma melhoria em sua vida. Meu sonho é ver o desenvolvimento do país o mais rápido possível. Mas, como todos os demais, espero sentada”, disse Saintus.

Com informações da Envolverde.



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